terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 03


Só muito tempo depois que a luz do quarto dos pais se apagou e um silêncio absoluto se instaurou na casa Amanda abriu a janela do quarto que dividia com Juliana e a pulou, seguida pela irmã. Esgueiraram-se, bem próximas da parede, pisando cuidadosamente na grama molhada, durante o percurso tão conhecido até a garagem. 
Era algo que as duas haviam feito muito desde os quinze anos, para roubar o carro da mãe, nunca o do pai. Tinham parado de sair furtivamente meses antes, pois como presente de formatura do ensino médio e ingresso na faculdade, haviam ganhado o próprio carro, que compartilhavam desde então. 
Só que, naquela noite em especial, seria impossível explicar o quê Amanda ia fazer na rua no meio da madrugada sem entregar mais do que ela queria e podia contar.
- Eu preciso ver a Rafaela! Hoje ainda, Ju!
Tinha afirmado, no auge do desespero, algumas horas atrás. E a irmã gêmea, obviamente, sequer tinha cogitado a ideia de não a ajudar e acobertar. 
Fizeram como sempre: Juliana segurando o volante do lado de fora do carro, com a porta do motorista aberta, ajudando Amanda a empurrá-lo até a rua, onde o ruído do motor não alertaria os pais.
Juliana sussurrou baixinho assim que Amanda entrou no carro:
- Vai com cuidado!
Não que Rio do Sul, com seus 60 e poucos mil habitantes fosse uma cidade violenta. Muito pelo contrário. Seu maior perigo era exatamente o que tinha feito com que perdessem alguns amigos muito cedo: acidentes de carro. Mas, como nenhuma das duas dirigia quando bebia - na verdade elas alternavam a motorista da vez – o problema era os outros, embriagados no volante, voltando das baladas.
Assim que dobrou a esquina ligou o som. Fez uma careta involuntária quando a primeira música do pen drive de Juliana começou a tocar. Sertanejo universitário. Amanda identificou logo nos primeiros acordes e pulou para a segunda música sem nem se dar ao trabalho de escutar. A troca não foi das melhores. Era algo eletrônico, que provavelmente tocava nas festas que Juliana frequentava.
Realmente, a irmã não primava pelo bom gosto musical. 
Pior do que isso. 
Juliana parecia ter sofrido algum tipo de lavagem cerebral desde que havia começado a sair com as amigas da turminha mais popular do ensino médio, adoradoras não do diabo, mas quase. 
Mais do que as músicas.
Tudo o que havia por trás. A postura, o discurso, o olhar sobre o mundo... Um estilo que Amanda detestava. 
Até compreendia a necessidade da irmã de se encaixar. Quem nunca? 
No entanto, na atual conjuntura, Amanda considerava que ser diferente, não fazer parte da maioria era um grande privilégio. Mais do que isso: uma imensa boa sorte.
Desligou o som e dirigiu até a casa de Rafaela imersa no silêncio. Coisa que absolutamente não a incomodava. Gostava da própria companhia. E mesmo se não gostasse... Entre sertanejo universitário e música eletrônica, preferia não ouvir nada.


Estacionou numa rua transversal a três quadras do prédio de Rafaela e andou absolutamente decidida, o salto ecoando dentro de si mesma e na rua igualmente vazia. 
Parou na portaria, sem poder abrir a porta como sempre fazia.
As chaves, a primeira coisa que Rafaela havia pedido de volta, uma devolução que construiu materialmente o início do fim.
Tocou o interfone num misto de ansiedade e apreensão que não durou muito por que surpreendentemente, ela não demorou a atender. Havia um estranhamento explícito no tom que usou:
- Alô?
A única coisa que Amanda disse foi:
- Sou eu.
Ouviu o barulho da tranca e empurrou a porta, ainda sem acreditar que Rafaela a tinha deixado entrar tão facilmente. Estava preparada para implorar se fosse preciso. Esperava por tudo, menos aquilo.
Subiu os três lances de escada quase correndo. Parou no início do corredor para respirar. Imediatamente reconheceu o que ouviu através da porta entreaberta do apartamento de Rafaela: "Ain’t no Sunshine" interpretada por Heather Peace. Coincidência ou não, a música não poderia ser mais propícia nem mais perfeita.
Empurrou a porta e a viu. Rafaela estava sentada no sofá, com uma taça entre as mãos. Olhou para Amanda e sorriu, de um jeito terrivelmente dolorido:
- Entra.
A palavra não soou convidativa. Parecia muito mais uma aceitação de algo indesejável. Mesmo assim, Amanda obedeceu, fechando e trancando a porta atrás de si.
- Quer um pouco de vinho?
A segunda coisa que Rafaela falou continha a polidez imparcial que se usa com desconhecidos. Foi o principal motivo de Amanda aceitar, apesar de estar dirigindo:
- Sim.
Rafaela ameaçou levantar, mas Amanda a impediu:
- Deixa que eu vou.
Antes que ela pudesse contestar, pegou uma taça no armário da cozinha. Quando retornou à sala, Rafaela já estava com a garrafa em uma das mãos, e fez questão de servi-la.
Tomou um gole assim que se sentou ao lado dela no sofá. Em um primeiro momento, permaneceram caladas, o silêncio quebrado apenas pela música que ainda tocava.
Rafaela foi a primeira a falar:
- Por que você veio?
Viraram-se juntas, uma para a outra, olhando-se nos olhos pela primeira vez desde que Amanda havia chegado.
- Eu acho que nós precisamos conversar.
- Não tem nada que ainda não tenha sido dito. 
As duas frases foram proferidas sem que nenhuma das duas desviasse o olhar. Rafaela só voltou os olhos para a frente depois que concluiu:
- E mesmo se tivesse, palavras não vão mudar nada.
Amanda continuou observando-a, enquanto procurava dentro de si. Algo que não conseguiu encontrar.
Mais uma vez, foi Rafaela a falar:
- Quando você vai?
O peso da mudança finalmente caiu sobre Amanda com uma solidez de fato. Ela respondeu com a mais estranha sensação. De ausência dupla de gravidade. Como se estivesse flutuando. E como se já não importasse:
- Mês que vem.
Bebeu mais um pouco do vinho antes de depositar a taça no chão:
- Mas você sabe que... Bastaria uma palavra sua e eu...
Deixou a frase no ar.
Rafaela levantou e se afastou, de costas para Amanda. Demorou algum tempo para falar e, quando o fez, foi sem se virar:
- Eu não terminei porque você vai se mudar pra outra cidade. Pensei que tivesse deixado isso bem claro.
Amanda também se pôs de pé:
- Sim, você deixou. 
Aproximou-se bem devagar. Soprou perto do ouvido de Rafaela:
- Mas é muito difícil acreditar.
Causando um estremecimento involuntário, impossível de ser ignorado.
Colou o corpo no de Rafaela por trás e abraçou-a pela cintura, os lábios roçando a nuca, arrepiando-a inteira. A voz de Rafaela soou fraca, com inegável dificuldade:
- Talvez a verdade pareça mentira por que você passou tanto tempo mentindo que já não sabe mais a diferença.
Amanda colou a boca no pescoço de Rafaela, deslizou os lábios numa carícia incendiária, quase irresistível. Afastou-se apenas o suficiente para sussurrar:
- Eu nunca menti pra você.
Mas a entrega de Rafaela só durou um instante ínfimo. Virou-se nos braços de Amanda e a olhou profundamente antes de afirmar:  
- Não. A mentira sou eu.
Soltou-se e recuou dois passos, sem desviar o olhar do de Amanda. 
O silêncio foi quebrado pela música que entrou, com a precisão de um bisturi. “I Fought the Angels”, The Delgados. Invadindo, de forma cortante e dolorida.
Ampliando a angústia que Amanda sentia:
- É exatamente o contrário. Você é a minha única verdade.
Rafaela sacudiu a cabeça em negação enquanto a contradizia:
- Como eu disse antes, você não sabe mais a diferença.
Foi puramente instintivo. Amanda não pensou, apenas agiu. Avançou na direção de Rafaela e tomou-a de novo nos braços, tão rapidamente que ela não previu:
- Você sabe que eu te amo... 
Beijou-a, com a intensidade desesperada de quem sabe que daquilo poderia depender o resto de suas vidas.
Rafaela não resistiu. Deixou-se beijar. Imóvel. Sem corresponder.
Havia um misto de perplexidade, frustração e dor estampado no rosto de Amanda quando a soltou. 
Rafaela não se comoveu, foi com uma frieza que beirava a indiferença que a questionou: 
- Pra quem você está mentindo agora, Amanda? Pra si mesma?
Pareceu uma eternidade. A pausa que Rafaela fez antes de completar:
- Se você me amasse eu faria parte dos seus planos.
Não houve hesitação alguma por parte de Amanda:
- Você faz. Sempre fez.
Rafaela riu:
- Quando? Onde? Dentro do seu armário?
Cruzou os braços na frente do peito, tentando conter as lágrimas. Inutilmente. Elas escorreram, deixando uma trilha ácida. Mágoa, sofrimento e ressentimento. Impossíveis de apagar. 
Amanda só percebeu o quanto era definitivo naquele momento:
- Quando foi que você deixou de me amar?
Rafaela se virou, caminhou até o sofá e se sentou. Na verdade, desabou sobre o móvel, como se estivesse exausta. Enxugou o rosto e os olhos com as mãos antes de finalmente perguntar:
- Isso importa? 
O sorriso de Amanda não foi irônico nem amargo. Muito pelo contrário. Continha uma serenidade quase suave:
- Eu gostaria de saber.
Na verdade, já sabia. Só queria ouvir. As duas tinham plena consciência disso. 
No mesmo tom doce, Rafaela a atendeu:
- Eu conheci outra pessoa e me apaixonei.
A música terminou, deixando em Amanda e Rafaela a certeza de que seria muito difícil, talvez até mesmo impossível voltarem a ouvi-la sem se lembrarem daquele momento exato. Ambas imóveis e caladas ali, daquele jeito.
Controlar-se. Manter-se impassível. Era tudo o que Amanda queria. No entanto, algo muito mais forte, inteiramente passional, subjugou-a e com facilidade a conduziu. Quando deu por si estava entre as pernas de Rafaela, apertando-a contra si:
- Eu sei que você ainda me ama! Eu sei que você ainda sente algo por mim!
Tentou beijá-la novamente, mas dessa vez Rafaela desvencilhou-se, fazendo Amanda cair sentada no chão.
- Eu tenho um enorme carinho por você. Mas é só isso.
Só então perceberam que a taça que Amanda havia deixado no chão tinha se quebrado, cortando-a. 
Rafaela estendeu a mão, pedindo:
- Deixa eu ver.
O tom que ela usou, de uma preocupação inegavelmente fraternal, fez Amanda recusar:
- Não foi nada.
Tirou o pequeno pedaço de vidro da pele sem nada sentir. Outra dor, muito maior, que trazia dentro de si, servindo como anestesia.
Rafaela insistiu:
- Tem certeza?
A expressão no rosto de Amanda foi indescritível:
- Sim.
Levou o dedo indicador da mão esquerda à boca e chupou a ferida, com uma sensação de solidão profunda e terrível.
Já de pé, Rafaela disse:
- Vou pegar um band aid.
Em segundos estava de volta do banheiro com o curativo adesivo nas mãos. Estendeu-o para Amanda, que agradeceu, com uma formalidade estranhíssima:
- Obrigada.
Continuou sentindo o gosto de sangue na boca mesmo depois de fechar o machucado. Ficou segurando os papeizinhos amassados do band aid, levantou meio perdida, ainda sem saber o que fazer com eles. 
Mais uma vez, Rafaela estendeu a mão para ela:
- Me dá. Eu jogo no lixo.
Desta vez, Amanda atendeu ao pedido.
Assim que Rafaela voltou da cozinha, Amanda falou:
- Eu vou indo.
Rafaela a acompanhou até a porta. Despediram-se num silêncio absoluto, Rafaela abraçando Amanda com força e beijando-a no rosto com carinho. Deixando claro que era mesmo o fim, não havia mais nada a ser dito. 

No entanto, enquanto caminhava até o carro, o único pensamento de Amanda era: “Eu não posso desistir.” 

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MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:


postado originalmente em 07 de Abril de 2017 às 18:00.








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3 comentários:

  1. Foi um capítulo em que o som do salto de Amanda ecoou deste lado. Nos mostrando que Amanda, com as suas mágoas, vai viver com Laura e Michelle...
    Bjs ;)

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  2. "- Se você me amasse eu faria parte dos seus planos.
    - Você faz. Sempre fez.
    - Quando? Onde? Dentro do seu armário?"

    Tenso hein...

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  3. Uau, a fala de Rafaela "- Quando? Onde? Dentro do seu armário?" foi pesada... Cheia de mágoa, dor. E então, Amanda (a vítima) vai morar com Laura e Michele carregando essas mágoas, isso vai dar treta para o casal... Será??

    Este romance já começou intrigando e dizendo ao que veio. Ótimo!

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