terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 05


Amanda não estava com sono algum. Mesmo assim foi para o quarto. Precisava ficar um pouco sozinha e não queria impor sua presença mais do que o necessário, muito menos tirar a privacidade de Michelle e Laura.
Atirou-se na cama sem descalçar as sapatilhas e, munida do celular, foi diretamente atrás de Rafaela. Mas não havia nada, nenhuma postagem nova desde a última vez que acessara, enquanto comia pizza alguns minutos atrás.
Estava olhando um vídeo no Youtube quando a aba da parte superior da tela do aparelho abriu, avisando que tinha recebido uma mensagem da irmã no whatsapp: “tá fazendo o q?”
Respondeu com uma mensagem de voz:
- Nada. Só deitada na minha nova cama no meu novo quarto.
A réplica também veio em áudio:
- Tá trancada no quarto? Por quê? Medo de ver o que não deve? 
Impossível não rir junto com as risadas gravadas pela irmã:
- Elas nem se beijam na minha frente.
Menos de um segundo depois, entrou uma ligação de Juliana. Assim que Amanda aceitou, a irmã disparou:
- Como assim? Mas elas não sabem que você sabe? E elas não sabem que você também é?
A conversa fluiu fácil:
- Saber é uma coisa. Ver é outra.
- Juro que não entendo.
- Como estão as coisas aí?
- A mãe chorou a volta inteira, parecia que vinha de um enterro. 
- E o pai?
- Não choraria na minha frente nem se você tivesse morrido mesmo, mas tá com cara de enterro também. Deve ser estranho me olhar e não te ver.
Ficaram em silêncio, cada uma com seus pensamentos.
Foi Amanda quem voltou a falar primeiro:
- Ai, que louco isso que você falou!
Juliana riu:
- Cara, louco seria se eu fizesse igual naquele seriado... Como é o nome mesmo?  Aquele que o psicopata coloca um espelho no lugar da cara do boneco depois que o irmão gêmeo dele morre.
- Não lembro o nome, mas sei qual é.
O tom de Juliana mudou, se tornou subitamente sério:
- Amanda...
- Uhm?
- Essa casa tá muito vazia sem você.
Deixou escapar um suspiro. Amanda suspirou também:
- Também estou sentindo falta de vocês.
Assustou-se com o grito de Juliana:
- The Following!
- Quê?
- O nome do seriado. Lembrei. 
Voltaram a rir. A ligação caiu, interrompendo-as. Amanda aproveitou para digitar: “to cansada, vou dormir, nos falamos amanhã?”
Como resposta, recebeu uma carinha sorrindo, uma mãozinha com o polegar levantado, uma carinha piscando, três carinhas soprando beijo de coração e vários corações vermelhos. Mandou os mesmos emojis de volta antes de colocar o celular na mesinha de cabeceira ao lado da cama.
Sentiu sede e lembrou que tinha esquecido de encher a garrafa de água, como sempre fazia antes de ir dormir. Ainda estava dentro da mochila, completamente vazia por causa da viagem de Rio do Sul a Florianópolis.
Assim que abriu a porta do quarto ouviu a música que vinha da sala e pensou em desistir da água. Entretanto, uma curiosidade irresistível a impeliu, impulsionando-a a avançar. Deu os primeiros passos com cuidado para não tropeçar na escuridão desconhecida do corredor e então parou ao deparar-se com Laura e Michelle dançando e se beijando na sala.
Presenciar a intimidade das duas despertou em Amanda um sentimento fortíssimo, impossível de evitar. Com uma leve pontinha de despeito e tristeza por não ter alguém com quem compartilhar um momento como aquele e, ao mesmo tempo, embevecida e excitada com a beleza sem igual da cena, não foi capaz de sair dali, queria ver, precisava olhar. Até o fim.
Foi muito mais breve do que esperava, pois quando as carícias começaram a se intensificar, Michelle sussurrou algo no ouvido de Laura, que assentiu com um aceno de cabeça antes das duas se afastarem. 
Deveria ter se virado e voltado para o quarto naquele momento, enquanto Laura desligava a Jukebox e Michelle a esperava, mas não o fez. Seus pés pareciam grudados ao chão. Quando finalmente se moveu, era tarde demais, elas já a tinham visto.


Michelle não precisou falar duas vezes. Aquele “vamos para o quarto?” sussurrado no ouvido num tom muito mais de exigência do que de convite não permitia uma reação diversa da que teve: Laura concordou e desligou a Jukebox, para atendê-la o mais rápido possível.
Antes que pudesse pegá-la pela mão ouviu Michelle perguntar:
- Nós acordamos você?
Não conseguiu enxergar Amanda, apenas ouviu a voz dela no breu:
- Não, eu só levantei pra pegar água.
Algo no jeito que ela falou, ou talvez o suave tremor entre as primeiras palavras, fez Laura ter certeza de que ela já estava ali há algum tempo. Com a mão unida à de Michelle, a fez caminhar com ela enquanto informava:
- Tem um interruptor aqui, do lado da porta do seu quarto.
Acendeu, para mostrar o lugar exato, antes de completar: 
- E outro na parede ao lado da porta da cozinha à esquerda.
Amanda sorriu sem conseguir disfarçar o quanto estava embaraçada:
- Obrigada.
O tom de Michelle foi quase maternal:
- Boa noite, querida.
Fez Amanda sorrir:
- Boa noite.
Laura desejou o mesmo, mas de um jeito bem diferente, quase com formalidade:
- Boa noite.
Antes de entrar no quarto com Michelle e fechar a porta.


Exatamente como Michelle havia previsto, Amanda se harmonizou rápida e naturalmente com a rotina do casal. As duas a faziam se sentir em casa. 
Adaptar-se à universidade não foi tão fácil. Não conhecia ninguém e, para ela, que tinha os mesmos colegas da escola desde sempre, isso era novidade. Neste aspecto, a irmã lhe fazia muita falta, pois Juliana era mais desinibida, aquela que fazia toda a ponte social e tornava seu relacionamento com os outros mais fácil. Sozinha com a própria timidez, passou a primeira semana inteira sem conseguir trocar mais do que uma ou duas palavras com os outros alunos de sua sala.
Foi durante o trote que travou seu primeiro contato. Um rapaz parou ao lado dela, sorriu e se apresentou:
- Oi. Eu sou o Bruno.
Conhecimento que Amanda já possuía, pois além de simpático e extrovertido, ele era um gay muito bem assumido, coisa que tinha chamado a atenção e conquistado a admiração dela desde a primeira vez que o vira, logo no primeiro dia.
Apertou a mão que ele estendeu com uma felicidade visível:
- Amanda.
Bruno puxou uma garota que estava escondida atrás dele pelo braço e a colocou dentro do campo de visão de Amanda:
- Essa é a Débora.
As duas sorriram uma para a outra antes de trocarem dois beijinhos:
- Oi.
- Oi.
Depois, os três foram almoçar juntos no Restaurante Universitário. Era a primeira vez que Amanda tinha companhia e, por isso, estava imersa na mais profunda e indisfarçável alegria.
- A Amanda tem um sorriso lindo, não acha, Débora?
- Sim.
A resposta direta e simples veio acompanhada de um sorriso tímido, que Amanda achou lindo. As duas se olharam, durante um instante bastante significativo e... Ínfimo. Pois do nada, Bruno soltou:
- Eu sou gay e a Débora é lésbica. 
As reações foram opostas. Débora abaixou a cabeça e Amanda ergueu os olhos para Bruno, que tomou aquilo como incentivo:
- E você?
A indagação tão inesperadamente direta e, para Amanda, inédita, a fez engasgar e tossir. Enquanto se recuperava, Amanda pesou os prós e os contras de dizer a verdade. Não encontrou desvantagem alguma. Muito pelo contrário. Com a informação, enturmar-se seria mais fácil ainda. Lembrou de Juliana dizendo: “Aqui você vai poder escancarar o seu armário sem medo.” - e resolveu seguir a frase da irmã à risca. Pela primeira vez na vida, afirmou:
- Sou lésbica.
Com a mesma felicidade com que Bruno recebeu a informação:
- Que maravilha! 
Apontou para Débora e prosseguiu:
- Quem sabe vocês duas... Ai!
Parou de falar e deu um grito, pois Débora o socou no braço e ordenou:
- Bicha, cala a boca! 
Depois, virou-se para Amanda num tom totalmente diferente, sem nada da agressividade do anterior:
- Não repara não. O Bruno é muito sem noção.


Laura estranhou o fato de ouvir as vozes de Simon and Garfunkel cantando “The Sound of Silence” saindo de seu apartamento assim que saiu do elevador. Mais ainda depois que abriu a porta e se deparou com tudo apagado, menos a Jukebox. Michelle ainda não havia chegado, nas sextas-feiras ela dava aula até às dez da noite, por isso chamou a única responsável possível:
- Amanda?
Não obteve resposta, nem poderia, com o volume naquela altura. Desligou a música e então escutou um som inconfundível vindo do quarto da garota. 
Ela estava chorando. Na verdade, soluçando. Aproximou-se da porta e parou, pensando no que seria o melhor a fazer: fingir que não havia escutado ou tentar descobrir o que estava acontecendo. 
Lamentando profundamente a ausência de Michelle, por fim decidiu interferir. Bateu na porta com firmeza e a chamou de novo:
- Amanda?
Na mesma hora, um silêncio sepulcral se instaurou do outro lado. 
Demorou algum tempo para que Amanda respondesse, tentando inutilmente mascarar a voz anasalada:
- Só um minuto...
Laura suspirou baixinho antes de pedir:
- Abre, por favor.
Minutos se passaram enquanto Amanda enxugava o rosto, assoava o nariz e tentava se recompor. Esforço inútil, pois não havia disfarce possível, os olhos e o rosto inteiramente inchados a denunciariam. 
Respirou fundo, tomou coragem e abriu a porta de forma tão abrupta e violenta que Laura se assustou. Mais ainda quando viu o estado em que Amanda se encontrava. Não fez rodeios, precisava saber:
- O que aconteceu?
Amanda a olhou e não conseguiu dizer nada. Foi muito mais forte do que ela, o ímpeto que a levou a atirar-se nos braços de Laura enquanto um pranto irrefreável voltava a acometê-la. 
O contato do corpo de Amanda contra o dela causou em Laura algo inesperado, indizível e inaceitável, que a deixou inteiramente mortificada. Reprimiu aquilo de imediato, empurrando-o para o lugar dentro de si mesma onde escondia e reprimia as vontades indesejáveis e censuráveis, aquelas com as quais não queria nem sabia como lidar. 
Apesar disso, abraçou e embalou Amanda, como ela provavelmente esperava e como, com certeza, Elaine faria. Perguntou usando um tom carinhoso e suave, o mais maternal que conseguiu: 
- Não quer me contar?
Foi pior, muito pior, porque Amanda parou de molhar o ombro da camisa dela e levantou o rosto, roçando-o de leve em seu pescoço, fazendo com que a pele se arrepiasse, obrigando Laura a puxar com força os fios do próprio autocontrole de novo. 
Então, Amanda a olhou, com um sofrimento tão despido de subterfúgios que comoveu Laura e a fez esquecer de todo o resto:
- Pode confiar em mim.
Ainda incapaz de palavras, Amanda apenas ergueu o celular que estava segurando. 
Com a mão de Amanda na dela, Laura o afastou, para poder enxergar a tela. Não havia necessidade de explicações, muito menos espaço para outras interpretações. A foto de duas garotas se beijando falava por si mesma:
- É a sua ex?
Apontou para a mais nova. Amanda negou com um gesto de cabeça e depois passou o dedo sobre o rosto da outra, com um ardor tão masoquista quanto a forma que falou:
- Essa é a Rafaela. 
O sorriso que esboçou estava repleto de dor. Laura sabia exatamente como era. Sentir o que Amanda estava sentindo. Não pensou, apenas agiu. Ergueu a mão e a passou pelo cabelo e pelo rosto dela, com total empatia. Uma carícia sem outra intenção além de tentar aliviar um pouco o sofrimento da menina. No entanto, a reação que obteve foi puramente física. 
O corpo de Amanda tremeu, num arrepio. Ela ergueu um pouco a cabeça e, num misto de confusão e impulsividade, entreabriu os lábios num convite puramente instintivo. 
Quando os olhos se encontraram, Laura viu que sua vontade era recíproca. Se quisesse beijá-la, Amanda corresponderia. No entanto, existia uma distância intransponível entre o desejo fugidio e o que podia e deveria fazer. Deu um passo para trás ainda lutando contra si mesma:
- Você já jantou?
Foi o suficiente para que Amanda voltasse a si. Desviou o olhar e também recuou, prendendo o cabelo atrás da orelha num gesto de disfarce e defesa. Demorou alguns segundos para conseguir responder:
- Estou sem fome.
Laura não precisou pensar para encontrar a fala perfeita para colocar-se de volta no papel de “mãe substituta”:
- Precisa se alimentar, Amanda. Vai se sentir melhor quando colocar alguma coisa no estômago. Uhn?
Ainda sem voltar a fitá-la, Amanda concordou:
- Tá.
E Laura aproveitou para escapar:
- Vou preparar algo então. 
Amanda voltou a aquiescer, desta vez apenas com um aceno de cabeça. Durante um instante que pareceu infinito, Laura ficou parada, olhando para ela. Depois falou, com uma firmeza quase violenta:
- Apaga essa foto. Só serve pra te fazer sofrer.
Virou-se e saiu, antes que Amanda pudesse explicar que, por mais que quisesse, não tinha como deletar, a foto estava postada em todas as redes sociais de sua ex.
Um pensamento levou ao outro e Amanda viu-se repentinamente mergulhada em dúvidas, sem ser capaz de compreender a si mesma. Amava Rafaela. Era a certeza que tinha... Até aquele momento.
Antes da percepção assustadora de que uma simples carícia de Laura podia afetá-la e levá-la a oferecer-se daquele jeito. 
Uma única coisa impedia que sua vergonha fosse completa. Não passava de uma impressão - provavelmente longe de ser verdade, que tivera durante o instante ínfimo em que seu olhar encontrara o de Laura - de que tinham sentido o mesmo. 
Acabou rindo, achando graça na ideia insana que só podia ser uma viagem, besteira de sua cabeça. Pois uma mulher como Laura - tão interessante que quase chegava a ser perfeita - jamais se interessaria por ela. 


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MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:


postado originalmente em 14 de Abril de 2017 às 18:00.








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5 comentários:

  1. Há há há... falei q ia dar merda... colocar girina pra dentro de casa... humpf...
    Não sei quem está sendo mais fora da casinha: se Laura com o amor que sentia na juventude por Elaine vê em Amanda a cópia fiel dessa época, ou a própria Amanda q em um minuto chora pela ex-namorada e no min seguinte quase agarra aquela q lhe deu pousada para poder ir para faculdade. Genteeeee o q é esse Bruno?? Sem noção é pouco hein...
    k k k veremos se estou certa e isso vai dar merda (o q acredito mto) ou que surpresas maiores e inenarráveis Diedra trará para nós.
    Bom D+++

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    Respostas
    1. Mermã, tô besta! Achei que a girina iria ficar de olho comprido, mas foi a Laura que deu o start. Misericórdia! Michelle vai penar né?

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  2. Laura, muito fraca emocionalmente e ainda obcecada pela Elaine, querendo o que não teve no passado... Michelle, se quiser não ter problemas, deve lembrar à Laura que quem gosta de passado é museu...kkkkkk
    Diedra esse Jukebox é uma grande sacada que acredito tenha alguma relação com o passado de Laura e Elaine, e que será um catalizador de emoções fazendo Laura regredir no tempo quando estiver muito perto de Amanda, ouvindo músicas que devem lhe trazer saudosas lembranças.

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  3. Laura tem por habito reprimir as suas vontades e ir na onda e nas vontades de Elaine, Michelle...que por seu lado parecem saber levar mto bem Laura...Acho que a vinda de Amanda para a cidade grande não vai ser só libertador para ela...Contigo não se esperaria outra coisa as personagens nunca são lineares, a cada enfoque elas vão-se nos mostrando e esse desvelar é uma delicia de se ler... ;) Pena que agora temos de esperar por quarta :(
    Bjs

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  4. Michelle vai sofrer, mas acredito que será importantíssimo para depurar os sentimentos e relações. Com certeza Michelle sempre sentiu o fantasma Elaine, e talvez tenha resolvido ficar na zona de conforto, primeiro por ter casado com Laura, e por saber/achar que se não deu certo antes, imagina depois de casada com filhos.
    Curiosa pra saber o que Di reservará pra jogar no nosso colo. Kkk

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