terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 06


A última coisa que Michelle esperava quando chegou em casa era encontrar o apartamento completamente escuro em plena sexta-feira. Pela ausência de luz debaixo da porta do quarto de Amanda, calculou que a garota já deveria estar dormindo. Exausta por causa da primeira semana de aulas, provavelmente.
Já na porta do próprio quarto, apesar de igualmente fechada, havia luz. Entrou e encontrou Laura na cama lendo um livro, recostada nos travesseiros.  Estranhou o fato de ela não estar na sala esperando-a, como sempre fazia, já que estava acordada. Mas desde a chegada de Amanda, ela andava estranha. Tensa e arredia.
Assim que percebeu a presença de Michelle, Laura ergueu o olhar, tirou os óculos e sorriu:
- Demorou, meu amor...
Michelle se livrou dos sapatos enquanto perguntava:
- Não viu minhas mensagens, né?
O bastante para Laura se sentar:
- Que mensagens?
A resposta foi dada por uma Michelle já sem a calça e sem a blusa: 
- Mandei várias no whatsapp, avisando que atrasaria.
Só então Laura pegou o celular e as viu:
- Desculpa... Estava tão entretida na leitura que...
Não precisou completar, Michelle sabia perfeitamente: 
- Esqueceu que existe celular. 
Caminhou até Laura e se sentou na cama na frente dela:
- Se um dia eu tiver uma emergência, vou morrer e você não vai ficar sabendo. 
O sorriso de Michelle continha uma mistura de humor, preocupação e algo mais, que Laura não conseguiu definir. Beijou-a com suavidade antes de dizer:
- Prometo que daqui pra frente sempre que estiver fora de sala de aula vou tirar do silencioso.
Foi muito mais uma constatação do que uma reclamação ou uma crítica:
- Se você se lembrar.
Depois de beijar Laura rapidamente nos lábios, Michelle levantou e caminhou até o banheiro.
Quando voltou, enrolada apenas numa toalha, percebeu a intenção de Laura de imediato. Bastou um único olhar dela. Vestiu uma calcinha e uma camisola e, exatamente como previa, assim que se deitou, ela se virou e deixou claro o que desejava. 
Por mais que detestasse cortá-la e que também quisesse e gostasse de fazer sexo com a mulher que amava, naquele dia seria impossível:
- Estou exausta, meu amor...
Era a verdade e não uma desculpa. Laura sabia. Às vezes era Michelle, às vezes era ela. Acontecia. Aquela não era a primeira vez, nem seria a última. Mas não importava, o que as unia era mais, muito mais do que isso. Uma vida. 
Beijou-a com todo o seu amor, com todo o seu carinho:
- Tudo bem, meu amor.
Virou-se na cama, apagou o abajur e se deitou. Michelle colou o corpo no dela, a abraçou e logo adormeceu. Perdida na desordem dos próprios pensamentos, Laura ainda continuou acordada durante muito tempo.


Até pensou em recusar. Mas era sábado, e o convite de ir à praia era tentador demais, principalmente se comparado à única outra opção que Amanda tinha: ficar trancada em casa numa manhã ensolarada como aquela.
Sentada no banco de trás, aproveitou a proteção que os óculos escuros lhe ofereciam para observar o casal na sua frente. Laura na direção e Michelle sentada ao lado, com a mão esquerda pousada sobre a coxa dela. De vez em quando sorriam uma para a outra, com uma cumplicidade que fazia Amanda se sentir quase inexistente.
Se perfeição existisse, aquela seria sua imagem.
Conclusão que fez Amanda perceber e se arrepender do que estava sentindo, pois existia uma palavra precisa que definia: inveja.


A empolgação de Amanda enquanto passavam pela pequena trilha que levava até a Praia do Matadeiro fez Laura tentar se lembrar da própria reação quando estivera ali pela primeira vez. Parecia que fazia séculos. Amanda nem sonhava em nascer. Agora era uma presença que não tinha como ser ignorada. 
Em cima de uma pedra, fotografando a vista e a si mesma com o celular. 
Por ironia do destino, Laura tinha uma foto com Elaine naquele mesmo local. Sim, havia conhecido com a mãe dela. Tanto a praia quanto o amor. E o sofrimento deixado pelo sentimento frustrado, seu contato mais íntimo com a dor.
Antes que pudesse dar continuidade a tão soturnos pensamentos, Amanda propôs:
- Vamos fazer uma selfie nossa?
Por um lado, Laura achava fantástica a possibilidade de tirar um número infinito de fotos no telefone móvel sem precisar pedir para ninguém. Por outro, sentia saudade, uma nostalgia incontrolável ao recordar a máquina fotográfica com flash que havia registrado o momento com Elaine. Não do objeto em si, mas daquela época, daquele tempo. Um passado onde a realidade não estava fora, mas dentro. 
No entanto, estavam no presente. Onde tudo parecia precisar ser registrado, compartilhado e tornado público para adquirir uma verdadeira existência. Assim sendo, o ato de parar e sorrir para a tela do celular se repetiu várias vezes, durante todo o trajeto até o bar onde sempre ficavam. 
Escolheram uma mesa na areia. Ao contrário de Michelle e Amanda, Laura se posicionou debaixo da sombra do guarda-sol. Tentou inutilmente desviar o olhar traidor do corpo da garota, filha de Elaine - pontuou para si mesma, sem obter o efeito que queria, pois acompanhou as mãos de Amanda espalhando o filtro solar em cada curva e limite do biquíni quase com desespero. Felizmente, os óculos escuros tornaram a apreciação totalmente censurada e inapropriada invisível.
Sem a irmã gêmea para passar o protetor em suas costas, Amanda foi obrigada a pedir:
- Alguém passa pra mim, por favor?
Virou, oferecendo pele, tentação, culpa e uma parcela de sofrimento a mais para Laura. 
Olhou para Michelle em busca de socorro. Michelle não estranhou, pois Laura tinha a desculpa incontestável: detestava pegar em qualquer tipo de substância oleosa, tanto que passava protetor em casa, para poder lavar as mãos antes de sair. E no caso de ter que passar mais, Michelle o fazia para ela. 
- Deixa comigo.
Levantou, tirou o frasco das mãos de Amanda e começou a aplicar a cremosidade branca na garota com uma naturalidade que Laura ambicionou.
À Amanda coube disfarçar a confusão que a situação lhe trouxe. Algo lhe dizia que o fato de ser Michelle a se oferecer significava que existia algo, não estava imaginando coisas. Por outro lado, podia ser exatamente o contrário. Simplesmente não valia nada para Laura, nem mesmo o incômodo de fazê-la levantar-se da cadeira. 


Tinham acabado de almoçar quando Bruno perguntou se queria sair com ele e Débora. Aceitou sem hesitação alguma. Só depois lembrou que não sabia se daria tempo. Só existia uma única forma de descobrir:
- Até que horas vamos ficar?
Foi Michelle quem respondeu, surpresa por Amanda finalmente ter parado de mexer no celular:
- Só mais um pouco, por quê? 
Laura completou:
- Podemos ir agora se você quiser.
Amanda respondeu primeiro para Michelle:
- Combinei com uns amigos da faculdade lá pelas sete.
Depois para Laura:
- Mas posso desmarcar.
Esta replicou mantendo o olhar de Amanda no dela:
- Não, é bom você sair com gente da sua idade.


Preguiçosamente atirada no sofá da sala com Michelle a seu lado, Laura sugeriu:
- Vamos ver um filme?
Michelle lhe lançou um sorriso absolutamente fatal:
- Tenho uma ideia melhor, meu amor.
Sussurrou:
- Espera só a Amanda sair...
Segurou o rosto de Laura entre as mãos e beijou-a, dando apenas uma pequena amostra do que pretendia. 
Ao deparar-se com a cena, Amanda parou. Durante um segundo apenas. Recompôs-se rápido e tentou sair sem interrompê-las, mas não conseguiu. Sua presença foi imediatamente percebida:
- Não quer que a gente te leve?
Recusou a oferta de Laura da forma mais educada possível:
- Não, obrigada, não precisa. 
Soou cortante demais, por isso justificou:
- É aqui perto, vou andando.
A concordância de Laura se deu com um aceno de cabeça. Por ela, o assunto estava encerrado. Para Amanda também. Queria sair logo dali. Era o que faria, se Michelle não perguntasse:
- Vai encontrar alguém especial?
Piscou para Amanda, deixando-a um pouco constrangida:
- Não, são só amigos.
Michelle abriu um enorme sorriso:
- Vai arrasar, você está linda.
Laura concordava. Inteiramente. Mas não foi o que disse:
- Que horas você volta?
Levou uma cotovelada de Michelle:
- Amor! A Amanda não é criança.
Virou-se para Amanda antes que Laura pudesse contestá-la:
- Qualquer coisa liga. A hora que for.
Amanda aquiesceu:
- Tá. 
Caminhou em silêncio até alcançar a porta da rua. Virou-se e acenou:
- Tchau...
Obteve respostas opostas e, ao mesmo tempo, complementares das duas:
- Divirta-se, querida!
- Juízo!


Amanda sabia exatamente onde ficava o bar. Passava por ele todos os dias, ficava bem no caminho da universidade. Estava sempre cheio e naquele dia não foi diferente. Assim que subiu os degraus da entrada viu Bruno e Débora sentados na parte aberta do lado de fora. Os dois acenaram para ela, que acenou de volta e foi em direção a eles. Sorrindo, em parte por finalmente estar saindo, em parte por causa do vídeo que estava passando no telão que ocupava uma das paredes inteira: Give It Away do Red Hot Chili Peppers e, principalmente, ao ver o casal de garotas aos beijos em uma das mesas. 
Impossível não mover o corpo no ritmo da música enquanto caminhava. Foi calorosamente recebida por Bruno. Ele a prendeu num abraço apertado e falou perto do ouvido dela, para ser escutado:
- Pelo visto você gosta de música antiga.
Fazendo Amanda rir, pois não costumava pensar em música dos anos 90 como antiga, preferia chamar de “novos clássicos”. Imaginou qual seria a reação dele se visse a seleção da Jukebox de Michelle e Laura... Provavelmente a mesma de Juliana.
Depois, finalmente virou-se para Débora, que também tinha se levantado e esperava para cumprimentá-la, com um sorriso encantador nos lábios. Amanda sorriu de volta e, quando se abraçaram, os rostos se encostando para o beijinho simbólico tradicional, sentiu perfeitamente no corpo de Débora... Uma tensão que não poderia ter outro significado. Sinais que ela conhecia e compreendia, ao contrário do que acontecia com Laura.
Saber que era desejada fez com que Amanda olhasse para Débora com uma atenção que até então, não havia dado. Apesar da timidez que lhe era peculiar, Débora encarou Amanda, sustentando seu olhar enquanto se sentavam.
Bruno continuou de pé e aproveitou para dizer:
- Meninas, eu vou indo.
As duas protestaram:
- Quê?
- Bicha, como assim?
Ele tinha a desculpa perfeita:
- Acabei de receber um convite irrecusável! Outra hora eu conto com detalhes, já estou atrasado. Depois acerto com você, tá?
A última frase foi para Débora, que não a acatou. Muito pelo contrário:
- Deixa quieto. Foi uma cerveja só, eu pago.
Bruno não discutiu:
- Tá.
Despediu-se da mesma maneira que saiu: quase correndo. 
Os olhos das duas voltaram a se encontrar. Amanda perguntou:
- Ainda tem cerveja?
Débora respondeu sem desviar o olhar:
- Tem. Quer?
Um leve aceno de cabeça e um sorriso acompanharam a interjeição:
- Aham.
- Vou pedir um copo pro garçom então.
Ia erguer o braço, mas Amanda a impediu:
- Não precisa. Posso beber no seu com você.
Estendeu a mão para pegar o copo, mas Débora o alcançou primeiro:
- Quer descobrir meus segredos?
Nenhuma das duas recuou, permaneceram com as mãos unidas sobre o copo. Amanda moveu a dela sobre a de Débora, numa carícia discreta, quase imperceptível, enquanto dizia:
- Depende.
Débora correspondeu entrelaçando os dedos nos de Amanda. Não passou de um sussurro:
- Do quê?
Mas Amanda ouviu perfeitamente. Só então desviou o olhar. Abaixou um pouco a cabeça, ligeiramente envergonhada:
- Esse bar é lgbt?
O sorriso de Débora se tornou maior ainda: 
- Não. Mas ninguém tá nem aí pra isso.
Ficou em silêncio durante alguns segundos. Quando voltou a falar, foi quase em desafio:
- Você só é lésbica em lugares lgbt?
Sinceridade. Naquele momento, para Amanda pareceu a melhor escolha possível:
- Até agora sim.
Durante o novo silêncio que se seguiu, percebeu que a música havia mudado. Scar Tissue. Red Hot Chili Peppers ainda.
Não foi inteiramente proposital. Os lábios de Amanda estavam mesmo secos, tal era o seu nervosismo. Ela apenas aproveitou para umedecê-los com a língua, antes de completar:
- Mas tem uma primeira vez pra tudo.
Provocação que teve um efeito deliciosamente imediato e nítido. Os olhos voltaram a se buscar, enquanto as duas se aproximavam, bem devagar. 
Quando os lábios se encontraram, Amanda suspirou e Débora deixou escapar um gemido. As bocas se experimentaram, se aprovaram, se apropriaram, sem saber nem se importar com quanto havia se passado, se algumas horas, minutos ou todo o tempo do mundo. Não havia pressa alguma. 
Até que Débora se afastou, apenas o suficiente para convidar:
- Quer vir pra minha casa comigo?
De um jeito despojado de subterfúgios, que Amanda achou irresistível. E que só deixava uma única resposta possível:
- Sim.

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postado originalmente em 19 de Abril de 2017 às 18:00.








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3 comentários:

  1. Humm... pro meu gosto Amanda tá com olho mto comprido pra cima de Laura.
    E Laura com esse amor mal resolvido pela Elaine q Amanda é a cara, tb não fica atrás...
    Michelle no meio disso tudo é a cola nesse trio a q faz o meio campo nas conversas e tem um
    sentimento bem maternal com a girina... Ao menos Amanda tá tentando se relacionar com pessoas
    da idade dela, gostei da Débora talvez com ela Amanda largue o casal em paz.
    Mto bom... adorei.

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  2. Prevejo tretas pesadas ai hein! Laura com esse amor pela Elaine que meio que passa pra filha que é igual a ela mais nova. Amanda sentindo atração pela Laura... vai pegar fogo esse trem!
    Pelo menos Amanda não se privou de ficar com outra pessoa depois de Rafa.
    Ai que saudade de comentar geeente <3

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  3. Ainda é cedo pra falar da Débora, mas ela parece ser tão tranquila. Confesso que estou com dó dela se envolver nessa história toda rs. Curiosa pra saber o que vai dar!

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