terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 07


- Chega. Não vou mais esperar, vou começar a ligar pra todos os hospitais de Florianópolis.
Mais do que preocupada, Laura estava desesperada com o sumiço de Amanda. Michelle tentou inutilmente tranquilizá-la:
- Não acha que está exagerando?
Só serviu para enervá-la ainda mais:
- Exagerando? Exagerando? Michelle, você sabe que horas são? 
Olhou para o celular em sua mão para ser precisa ao informar:
- Dez e dezessete... Da manhã! 
Gesticulou de forma impensada e acabou derrubando a xícara que estava na sua frente, sujando boa parte do chão da cozinha com café e cacos de vidro.
A primeira reação foi xingar:
- Merda! 
A segunda se abaixar para limpar. Michelle a impediu:
- Deixa que eu faço isso.
Laura aproveitou para olhar mais uma vez para o celular. Suspirou de puro alívio:
- Ela acabou de mandar uma mensagem.
Abriu a conversa no whatsapp e leu alto, para que Michelle ouvisse: “Estou a caminho.”
A frase a fez ultrapassar todos os limites de exasperação e fúria que já havia sentido:
- Estou a caminho? Estou a caminho?
Segurando como pôde a vontade de rir, Michelle jogou os restos mortais da xícara no lixo enquanto pedia:
- Meu amor, calma...
Tentou abraçá-la, mas Laura se desvencilhou e se afastou, irritadíssima:
- Não, eu não estou calma, eu não tenho como ficar calma, Michelle! Ela não ligou, sequer disse aonde estava! Depois de passar a noite inteira desaparecida, sem atender nem responder nossas mensagens e ligações tem a coragem de dizer simplesmente: “estou a caminho”?
Michelle passou um pano no chão enquanto dizia:
- Você está fazendo uma tempestade num copo d’água. Provavelmente ela só olhou o celular agora. Deve ter passado a noite com alguém. 
A risada que Laura soltou serviu de introdução para o tom cáustico de sua próxima fala:
- Ontem estava aos prantos por causa da ex namorada e hoje já está trepando com outra?
Houve uma breve pausa antes de Michelle falar:
- Até parece que você nunca teve dezoito anos.
Naquele momento, não estava reconhecendo a mulher que amava. Pois nunca tinha visto palavras tão intolerantes saírem da boca de Laura.
Numa situação normal, Laura teria parado para pensar. Mais do que isso, reconheceria a total discrepância entre que havia dito e seu discurso e filosofia de vida. Certamente voltaria atrás. Mas aquela não era, de muitas formas, uma situação normal. Não foi capaz de recuperar o bom senso e a serenidade:
- Você nunca deveria ter dito que ela não tinha hora pra voltar!
A acusação saiu quase gritada. Antes que Michelle pudesse retrucar, Amanda surgiu na porta, sorrindo, como se não tivesse acontecido nada:
- Bom dia!
Laura se virou para ela sem a delicadeza que lhe era habitual:
- Onde é que você estava?
Amanda olhou para ela num misto de surpresa, incredulidade e confusão:
- Na casa de uma amiga.
Não estava mentindo. Ter passado a noite com Débora não mudava o status de relacionamento das duas.
A explicação não satisfez Laura de maneira alguma:
- E por que não avisou?
A verdade era uma só. Ligar para elas era a última coisa na qual pensaria no meio da infinidade de carícias, beijos e orgasmos com Débora, durante toda a noite e boa parte da madrugada...
Não estava mentindo quando disse:
- Eu esqueci.
Olhou para Michelle, num pedido mudo de socorro, pois ela parecia ser bem mais compreensiva que Laura. Entanto, as palavras de Michelle foram muito mais eficazes, inseriram em Amanda uma parcela considerável de arrependimento e culpa, que não havia sentido até então:
- Que bom que você está bem e não aconteceu nada. Mas pense como ficamos preocupadas aqui, sem saber onde você estava.
Um remorso profundo atingiu Amanda. Foi com os olhos cheios d’água que pediu: 
- Me desculpem.
Aquilo não comoveu Laura. Num tom absolutamente duro, deu o assunto por encerrado:
- Da próxima vez avise.
Depois de concordar com um aceno de cabeça, Amanda foi para o próprio quarto, deixando-as novamente à sós.
Demorou alguns minutos para Michelle interromper o silêncio sepulcral que se estabeleceu:
- Ainda bem que nós não temos filhos.
Laura jamais se equivocaria ao interpretar a frase, sabia exatamente o que Michelle queria e estava dizendo, pelo olhar dela e pela ironia que usou. Era uma crítica pessoal à forma como ela havia lidado com a situação. Não aceitaria aquilo de jeito algum:
- Você ia gostar se a sua filha passasse a noite fora sem você saber onde ela está?
Michelle respondeu à altura:
- Ela não é minha filha. Se fosse eu saberia exatamente onde estava.
A agressividade na voz de Laura aumentou ainda mais:
- Ah, tá. Então como não é sua filha você não se preocupa? Pra você tanto faz?  Isso não é muito egoísmo de sua parte?
Olhando profundamente dentro dos olhos de Laura, Michelle abaixou o tom:
- Eu me preocupo. Sem exageros.
Durante a pausa que se seguiu, Laura soube perfeitamente que o real motivo da discussão estava prestes a explodir:
- E você? Se preocupa tanto por quê? 
Não houve resposta. Laura cerrou o maxilar e desviou o olhar, inteiramente tensa. Por um instante quase desesperador, temeu que Michelle pudesse ler a incoerência inconfessável de seus pensamentos sobre Amanda. Felizmente não:
- Por que é filha da Elaine? 
Disfarçou como foi possível o alívio que sentiu:
- Você não vai fazer isso agora, vai?
O sorriso que Michelle lhe lançou continha uma inegável quantidade de dor:
- Isso o quê?
Não foi pensado, planejado, muito menos consciente. Laura apenas seguiu o impulso irrefutável que teve. Aproximou-se, enlaçou-a pela cintura e falou de um jeito totalmente diferente, repleto de ternura:
- Me cobrar algo que é passado. De vinte anos atrás. E que não tem mais importância nenhuma.
Michelle não recuou, nem se esquivou. Permaneceu nos braços dela e disse:
- Não é passado. Está aqui, dentro da nossa casa.
Encarou-a. Laura sustentou o olhar dela como pôde:
- Meu amor...
Completamente sem palavras, colou os lábios nos dela e beijou-a. Michelle não correspondeu de imediato. Permaneceu imóvel por alguns segundos antes de passar os braços ao redor do pescoço de Laura e aceitar aquele beijo e o que ele representava.  


Assim que entrou em seu quarto, Amanda trancou a porta, livrou-se da bolsa e dos sapatos, se atirou na cama e parou para pensar, na verdade, lembrar os momentos com Débora.
Mais do que carinhosa e delicada, ela havia sido... De uma sensibilidade e de uma gentileza sem par.
Intuindo, sem que precisasse falar, o quanto para ela aquilo era novo, assustador quase. Pois a única experiência sexual de Amanda havia sido com a ex namorada. Ainda assim, transar com Débora tinha sido surpreendentemente fácil. 
Do momento em que se deitaram juntas na cama e começaram a se beijar, tinha se sentido segura, com a certeza de que só iriam até onde estivesse disposta a chegar. 
Tanto que viera de Amanda a iniciativa de se desnudarem. Débora se posicionou por baixo e a deixou conduzir, apertando-a contra si, gemendo e ofegando em seu ouvido de uma maneira que fez Amanda gozar muito mais rápido do que estava acostumada. Nem por isso foi menos intenso, muito pelo contrário. Quando terminou, estava se sentindo quase fraca. 
Com uma suavidade irresistivelmente sedutora, Débora a virou, trocando de lugar com ela, a boca colada em um de seus seios e as mãos habilmente fazendo com que Amanda se entregasse de novo, com uma veemência ainda mais profunda, entorpecente e ao mesmo tempo voraz. Desta vez gozaram juntas. 
Depois, Débora ficou largada sobre Amanda, respirando contra o seu pescoço. E Amanda demorou alguns segundos para perceber que continuava agarrada a ela, apertando-a contra si com força. Afrouxou o abraço e então Débora afastou um pouco o corpo. Apoiada nos cotovelos, ergueu-se o suficiente para fitá-la. Sorriu de um jeito que Amanda achou lindo. Inteiramente verdadeiro, sem fingimentos, evasivas nem máscaras.
Atendeu à vontade irrefreável que sentiu, de voltar a beijá-la. Débora correspondeu com o mesmo ardor insaciável. Desceu a boca pelo corpo de Amanda bem devagar, sem pressa alguma, com um carinho inegável, fazendo-a voltar a gemer, arquejar e pedir por mais. Arrancando um gemido alto, quase gritado, ao mergulhar entre as pernas de Amanda, levando-a com maestria ao mais forte, arrebatado e incrível de todos os orgasmos.
Isso havia sido apenas o início de uma noite inesquecível, quase mágica, culminando em um despertar repleto de beijos tão deliciosos quanto a maneira preguiçosa e ardente com que os corpos mais uma vez se buscaram.
Após terminarem de se vestir, Débora informou com um cuidado evidente:
- Minha mãe já deve estar acordada, mas ela é bem tranquila, você não precisa se preocupar. 
A tensão de Amanda foi indisfarçável:
- E seu pai?
Com os braços ao redor da cintura dela, Débora a puxou para si e falou entre beijos:
- Ele não mora com a gente, faz anos que estão separados. Pensei em tomar café na cozinha, mas se você preferir posso trazer aqui no quarto.
A tranquilidade dela serviu para dar a Amanda a confiança necessária para arriscar dizer:
- Não, vamos lá.
O sorriso radiante que Débora lhe lançou fez Amanda ter certeza de que não se arrependeria. Comprovou que estava certa alguns segundos depois, ao ser recebida pela mãe dela de forma absolutamente simpática. 
Claro que foi apresentada como uma amiga da faculdade. Mas não esperava algo diferente, até porque não deixava de ser verdade, eram amigas, nada mais. 
Quando acabaram de comer, Débora pediu o carro emprestado e levou Amanda para casa. Em plena luz do dia e na frente da portaria do prédio de Michelle e Laura, Amanda não teve coragem de beijá-la na boca, despediu-se com um beijo no rosto e um abraço apertado. 
Débora soprou em seu ouvido:
- Nos falamos mais tarde?
Amanda respondeu sorrindo:
- Claro.
E depois saiu do carro, ainda atordoada com a rapidez com que tudo havia acontecido. 
O som de mensagem do whatsapp trouxe-a de volta à realidade. Era Débora perguntando se queria ir ao cinema de tarde. 
O primeiro impulso que teve foi aceitar, mas não o seguiu. Parou para pensar. Na verdade, analisar o que estava sentindo. Por mais que Débora tivesse sido... Perfeita seria a palavra se acreditasse que perfeição existia... O término com Rafaela ainda doía, estava recente demais, era cedo demais para se envolver com alguém ou começar um novo relacionamento. Principalmente por que não queria magoar Débora nem perder os dois únicos amigos que tinha. Por isso acabou sugerindo: “vamos chamar o Bruno? ”. 
Assim que enviou a mensagem, arrependeu-se. Mais ainda quando a resposta de Débora pareceu demorar uma vida, e quando finalmente chegou deixou claro que ela havia compreendido: “deixa pra outro dia”, seguido de uma carinha soprando beijo de coração. Mandou o mesmo emoji de volta, colocou o celular na mesinha de cabeceira, virou de lado e se entregou ao cansaço da noite quase sem dormir. 


Para alívio de Amanda, não houve mudança alguma por parte de Débora e Bruno. Continuaram andando e almoçando juntos, sem qualquer tipo de constrangimento ou clima. No entanto, óbvio que já não era mais igual. De vez em quando se pegava olhando para Débora e lembrando... Rapidamente afastava esse tipo de pensamento, não levaria a nada.
A semana passou rápido e, quando viu, já era sexta-feira de novo. Estava sentada na sala, assistindo a um seriado quando Laura chegou:
- Que escuridão!
Sorriu de volta para ela:
- Nem percebi.
Enquanto colocava as bolsas e pastas que estava carregando em cima da mesa de jantar, Laura perguntou:
- Prefere que eu deixe a luz apagada?
Amanda nem pensou, optou pela resposta costumeira, bem mais fácil:
- Tanto faz.
Laura riu, pela primeira vez na vida achando graça naquilo que gostava de criticar, muitas vezes irritando Michelle quando classificava aquela nova geração como indecisa, perdida e alienada.  Tinha começado a pensar que talvez Michelle tivesse razão, a ausência de interação e participação não deixava de ser uma escolha, um posicionamento. Do qual discordava inteiramente. Mas ali, naquele momento, era o que menos importava. 
Parada no meio da sala, observou Amanda, sentada olhando para a TV, as pernas debaixo do corpo, um dos cotovelos apoiado no braço do sofá, a mão direita segurando o controle e a esquerda enrolando uma mecha de cabelo. Gesto que lhe era absolutamente familiar, já tinha visto muitas vezes, só que executado pela mãe dela.
Usou a própria voz para tentar quebrar o encantamento indesejado:
- O que você está vendo?
Primeiro Amanda deu de ombros:
- Nada demais, só passando o tempo.
Pausou o programa e estendeu o controle remoto para Laura:
- Se quiser ver alguma outra coisa...
Ela recusou, com um aceno de cabeça. Só então os olhares se encontraram. O braço de Amanda recuou e pousou o controle da TV de volta no braço do sofá, da mesma maneira inconsciente com que sorriu. 
Laura demorou a notar que estava parada há algum tempo na frente de Amanda, encarando-a e sorrindo como uma imbecil. Assim que a percepção a atingiu, tentou disfarçar, apesar de não haver disfarce possível:
- Não vai sair hoje?
Bruno e Débora iam a um show num barzinho na Lagoa, mas Amanda não estava nem um pouco motivada:
- Ainda não sei. Acho que não.
Mais um silêncio desconfortável voltou a se estabelecer. Laura o interrompeu convidando:
- Quer ir na praia amanhã? 
Por mais que pudesse parecer óbvio e explícito, preferiu dizer com todas as letras, para não haver nenhuma dúvida a respeito:
- Comigo e com a Michelle.
Amanda respondeu de imediato:
- Amanhã não vai dar. 
Com medo de ser mal interpretada, explicou:
- Tenho um churrasco do pessoal da faculdade.
Sem a menor espontaneidade, Laura sorriu:
- Que bom.
Depois se virou e foi em direção ao próprio quarto, deixando Amanda sozinha, tentando compreender como e porque uma conversa tão banal e simples possuía o poder de deixá-la tão... Procurou uma palavra capaz de definir o que estava sentindo, sem conseguir.


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MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:


postado originalmente em 21 de Abril de 2017 às 18:00.








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2 comentários:

  1. Capitulo deveras interessante.
    Laura surtando por Amanda ter passado a noite fora sem avisar é certo q a gente se preocupa com a falta de noticias e por bem ou mal ela é responsável por Amanda perante Elaine, se algo acontece ela q tem q dar respostas a respeito, mas surtar?? Afinal não se trata de uma criança, Amanda apesar de jovem e inconsequente 'é capaz' ao menos deve ser de tomar as decisões sobre a vida dela.
    Michelle mais uma x perfeita nas reações, só está errada a respeito do pq Laura ter se comportado como uma verdadeira imbecil.
    Amanda e Débora, mto fofo, mas não levo fé; Amanda está saindo do armário e creio q ela vá querer curtir esta liberdade recém conquistada e não se amarrar em um compromisso neste momento.
    Estou amando cada cap. pena q @s guri@s estacionaram nas cotas e assim ficamos ainda com apenas 2 por semana.
    Parabéns Di.

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  2. Laura experienciando por Amanda uma fase de encantamento e ciúme perigosa...Amanda por seu lado nos mostra uma sensatez madura na sua relação com Débora...Michelle espectadora aparentemente algo distraída mas atenta ao que a rodeia... Este posicionamento das personagens antecipando o desastre esta o máximo...É sempre com prazer que leio mais um capítulo, pena que agora só na quarta temos novidades :(
    Bjs ;)

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