terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 09


Débora entrou no quarto correndo e fechou a porta atrás dela com um estrondo, acordando Amanda.
- Caralho! Elas estão aí!
Amanda abriu os olhos e sentou na cama de uma só vez:
- Elas quem?
O susto que levou apenas aumentou ao ver que Débora estava completamente nua:
- As amigas da sua mãe, porra! Elas me viram assim!
Só existia uma única coisa que Amanda poderia dizer:
- Puta merda!
Enquanto se vestia, Débora tentou justificar, muito mais para si mesma:
- Minhas roupas ficaram na sala e como eu ia saber? Pensei que a gente estava sozinha, você disse que elas só voltariam no final da tarde...
Já de pé na frente dela, Amanda confirmou:
- Foi o que elas disseram, mas voltaram antes.
Passou os braços ao redor da cintura de Débora e tentou acalmá-la:
- Olha só... Não foi nada demais... Fica tranquila...
Inutilmente. Débora enlaçou Amanda pelo pescoço e se encaixou no corpo dela buscando conforto:
- Como eu vou olhar pra elas? Como?
Deixou escapar um suspiro de puro desespero. Amanda então mudou de tática, falou de uma maneira completamente diferente:
- Pelo menos elas estão acostumadas...
O olhar de Débora sustentou o de Amanda, o sorriso correspondeu ao dela, a voz adquiriu a mesma leveza:
- A você trazer mulheres aqui?
Apesar do tom de brincadeira, as duas sabiam que também havia seriedade na pergunta. Ela estava sondando. Mas Amanda preferiu fingir que não tinha percebido:
- A ver mulheres nuas.
Da mesma forma, Débora disfarçou com perfeição a decepção de não ter sua maior dúvida esclarecida:
- Com a idade que elas têm, certeza que sim!
Riram juntas, até que os olhos se encontraram e o clima se transformou.  As duas se buscaram num beijo ao mesmo tempo abrasador e doce, tão entorpecente quanto todos os muitos outros que haviam trocado durante a noite.


Amanda segurou a mão de Débora e falou:
- Respira fundo e vamos lá.
Se estivessem numa casa ou no térreo, Débora nem pensaria duas vezes, teria saído pela janela. Como saltar do quinto andar era impossível, o jeito foi se deixar puxar e entrar com ela na sala.  
Para alívio das duas, Michelle e Laura continuavam na cozinha. Foram recebidas como se nada tivesse acontecido:
- Bom dia!
Pararam do outro lado da bancada, na sala ainda. Amanda as apresentou quase com formalidade:
- Michelle e Laura, essa é a Débora.
O casal sorriu:
- Oi, Débora.
- Tudo bem?
Muito constrangida, sem ser capaz de olhar diretamente para as duas, a única coisa que Débora conseguiu dizer foi:
- Tudo bem?
Com um sorriso divertido nos lábios, Laura bebeu um gole de cerveja antes de perguntar:
- Estão com fome? 
Michelle também estava sorrindo ao endossar o convite:
- Podem vir, o almoço já está pronto.
A única coisa que Débora desejava naquele momento era sair dali o mais rápido possível. No entanto, não queria parecer indelicada, muito menos dar uma impressão ainda pior do que as duas já deveriam ter tido:
- Minha mãe está me esperando, eu tenho que ir.
Havia uma mistura de gracejo, implicância e intimação na forma como Laura falou para Amanda:
- Mas você vai almoçar?
-  Sim, só vou levar a Débora no elevador.
Amanda caminhou de mãos dadas com Débora até a porta e, antes de abri-la, aproveitando o fato de estarem fora do alcance de visão de Laura e Michelle, beijou-a. 
Ao contrário da primeira vez que haviam ficado, a despedida se deu assim, naquele beijo. Sem planos, combinações nem palavras.
Quando Amanda voltou para dentro do apartamento, ainda estava tentando definir se aquilo a incomodava. Não chegou a conclusão alguma, pois ao entrar na cozinha, encontrou Laura e Michelle cheias de curiosidade e perguntas.
A primeira foi simples:
- Quer uma cerveja?
Aceitou de imediato, sem hesitação. Precisava, para curar a ressaca e perder um pouco da vergonha que estava sentindo. Sentaram-se as três na mesa de vidro redonda e, após brindarem, Amanda se deu conta de que nunca antes haviam bebido juntas. 
O início da conversa foi descontraído, sobre banalidades. Só depois, quando sentiu que Amanda estava confortável, Michelle reintroduziu o “assunto Débora”:
- Como vocês se conheceram?
A simpatia e a doçura de Michelle sempre tinham o poder de deixar Amanda à vontade. Desta vez não foi diferente:
- Ela é da minha turma da faculdade.
Laura, por outro lado, a deixava estranhamente incomodada e tensa:
- Quer dizer então que a ex já era? 
Disse apenas:
- Sim.
Laura riu:
- Que bom.
Perguntou do mesmo jeito íntimo e implicante que usava quando Amanda era criança:
- E essa Débora? É pra casar? Uhn?
Na mesma hora, Michelle a censurou:
- Laura!
Apenas para também questionar Amanda logo depois:
- Ela é?
A resposta foi vaga e nem um pouco esclarecedora, poderia significar um mundo de coisas:
- Nós somos amigas.
Assim como Laura e Elaine sempre tinham sido e até hoje eram amigas. A comparação levou Laura a insistir:
- Amigas com benefícios? É assim que vocês dizem?
De uma forma que Amanda não soube explicar, talvez o tom que Laura usou, ou o jeito que a olhou e sorriu, teve o poder de resgatar um pouco do vínculo que haviam perdido. Amanda sentiu uma necessidade imperativa de explicar, se expressar, falar a verdade. Confessar... O que nem ela sabia. Acabou minimizando:
- A gente tá só se divertindo.
Difícil para Laura acreditar, pois tinha percebido e reconhecido a forma como a outra olhava para Amanda. Já estivera naquele lugar e sabia o quanto era difícil. Questionou-a, não para inibi-la, mas para tornar consciente ou, ao menos, fazê-la refletir a respeito:
- Será que pra ela também é só isso?
Inevitável o silêncio que se seguiu. 
Cada uma imersa em seus próprios pensamentos, sobre as vezes que haviam sofrido por amor e as vezes que haviam feito alguém sofrer. Para Laura e Michelle não passavam de recordações, mas para Amanda era a realidade, o momento presente, bastante assustador.
A primeira a voltar à falar foi Michelle:
- A conversa está muito boa, mas estou faminta, vou me servir.
Levantou-se, pegou um prato, caminhou até o fogão e começou a mexer nas panelas. Laura terminou de beber a própria cerveja, virou o que restava na garrafa em um gole só. Esperou Amanda voltar a olhar para ela e então sugeriu:
- Não acha que você deveria contar para a sua mãe?
Não houve hesitação alguma por parte de Amanda, ela sequer pensou. Não estava preparada, “sair do armário”, para ela estava fora de questão:
- Acho que não é a hora.
O sorriso de Laura continha uma vida de experiências e lembranças que ainda lhe causavam dor:
- Nunca é.


Laura levou Michelle ao aeroporto de manhã cedo. Entrou no carro com a sensação de vazio que sempre se instaurava quando ela viajava, por mais que fosse constante, por causa do trabalho. Sempre tentavam ir juntas, mas naquele seminário em especial tinha sido impossível Laura ir como participante ou mesmo apenas acompanhá-la. 
Só quando chegou na universidade percebeu que não tinha trazido uma das pastas. Provavelmente, na confusão de pastas, bolsas e malas que tinham levado para o carro, a tinha esquecido na sala. Ia atrasar, mas paciência. Voltou o mais rápido possível para casa.
Surpreendeu-se ao encontrar Amanda sentada em frente ao balcão da cozinha, tomando café e ainda de camisola. Logo depois, lembrou-se que nas quintas-feiras a aula dela começava mais tarde. Cumprimentou-a com a mesma pressa com que caminhou até a mesa de jantar e pegou a pasta.
- Por que não me ligou ou mandou mensagem? Eu levaria pra você na universidade.
Laura falou a verdade:
- Não lembrei que você estava em casa.
Despediu-se e, assim que chegou no corredor demasiadamente escuro se comparado ao habitual, desconfiou que a luz tinha acabado. Entrou de novo no apartamento e testou o interruptor da sala sob o olhar interrogativo de Amanda:
- Está faltando luz?
A resposta de Laura foi irritada, impaciente e absolutamente mal-humorada:
- É o que parece.
“Merda!” - Xingou em pensamento apenas.
Despediu-se novamente antes de descer pela escada de incêndio, iluminada pela luz de emergência, quase correndo. Entre o quarto e o terceiro andar, a sola da sandália prendeu na ponta de um dos degraus. Para não rolar até lá embaixo, virou o pé e, mesmo segurando no corrimão, caiu de joelhos, enfraquecida pela dor fortíssima. Demorou algum tempo para ser capaz de se sentar. Examinou o próprio tornozelo, já estava bastante inchado e latejava. Ergueu-se apoiada num pé só, conseguiu galgar o primeiro lance com muito esforço, parou e respirou antes de fazer o mesmo com o próximo. Quando chegou na porta de casa, deu de cara com Amanda saindo.


A compreensão de Amanda foi imediata, bastou olhar para saber. Não de forma racional, foi completamente emocional e intuitiva a leitura que fez de Laura, parada ali no corredor, uma das pernas levantada, o corpo inclinado, apoiando-se na mão que se segurava na parede e no rosto uma expressão de dor. A despeito disso, ainda continuava com a bolsa pendurada no ombro e agarrada na pasta que viera buscar.
Não perguntou nada, apenas se aproximou, enlaçou-a pela cintura e praticamente ordenou:
- Se apóia em mim.
Laura obedeceu sem contestá-la. Passou o braço ao redor do ombro de Amanda e se deixou guiar até a cadeira mais próxima. Devidamente sentada, olhou para ela agradecida pela ajuda mais do que providencial:
- Obrigada.
Amanda sorriu para ela:
- De nada.
 Sem conseguir disfarçar o quanto estava preocupada. Laura achou que tomar as rédeas da situação seria a melhor forma de acalmá-la:
- Vamos esperar até a luz voltar.
Nem por um segundo Amanda cogitaria descer com ela sem ser pelo elevador, por isso prontamente concordou. Depois, pegou o celular, acessou o google e digitou: “torção no tornozelo o que fazer”. A primeira coisa que leu foi “Gelo é a principal medida a se tomar após a torção de tornozelo”. Antes que pudesse acessar a página para obter mais informações, Laura perguntou, num misto de incredulidade, exasperação e impaciência:
- O que você está fazendo?
Para ela, parecia incrível que a outra não pudesse largar o maldito aparelho um só momento. A resposta de Amanda pareceu mais inacreditável ainda:
- Pesquisando o que fazer.
Riu sem querer, achando surreal, mas divertido:
- No google, não é? Acertei?
Amanda não ligou. Uma vez que Laura parecia ter ao menos esquecido da dor, ignorou a zombaria dela por completo:
- Aqui diz que a primeira coisa é retirar o calçado para afrouxar a área. 
Ajoelhou-se na frente de Laura:
- Deixa que eu faço, não se mexa.
Tirou a sandália que Laura estava usando bem devagar, com um carinho e um cuidado extremos. Depois leu alto:
- Manter o pé elevado, para evitar o inchaço ou que ele piore. Pode-se colocar uma almofada alta por baixo do pé, por exemplo. 
Pegou uma banqueta e uma almofada e as ajeitou debaixo do pé de Laura antes de prosseguir com a leitura:
- A melhor maneira de reduzir o inchaço é com gelo. 
Já estava na cozinha quando leu o resto:
- Um pacote de ervilhas congeladas também serve.
O único pacote que encontrou no congelador era de batata para fritar. Deu de ombros:
- Ah, dá no mesmo.
Voltou para a sala e aplicou o gelo improvisado no tornozelo inchado. Laura agradeceu de novo e Amanda foi mais informal desta vez:
- No problem.
Alguns minutos se passaram, no mais absoluto silêncio. Tanto que, da sala, ouviram o apito do relógio do micro-ondas ligando perfeitamente. 
- A luz voltou. Vamos?
Com um gesto de mão, Laura pediu que Amanda esperasse. Pegou a própria bolsa no chão e começou a procurar o celular:
- Vou chamar um táxi.
Amanda agachou na frente dela:
- Eu posso te levar no seu carro.
Forçando Laura a parar e olhar para ela:
- Não faz sentido você deixar de ir à aula por minha causa.
De forma inteiramente contraditória à firmeza com que sustentou o olhar de Laura, a voz de Amanda continha uma doçura quase ardente:
- O que não faz sentido é eu ir pra aula com você desse jeito.
Laura desviou os olhos, abaixou a cabeça e a sacudiu, em negação a tudo que Amanda oferecia:
- Eu realmente não...
Antes que pudesse completar, foi interrompida:
- A Michelle e a minha mãe jamais vão me perdoar se eu te deixar sozinha.
Argumento derradeiro. Inegável e indestrutível. Tão impossível discordar que Laura não teve outra opção além de permitir que Amanda a conduzisse.


ATENÇÃO: PARA NÃO FURAR A GREVE GERAL DIA 28 (6a feira), O CAPÍTULO DESTA 6a FEIRA SERÁ ANTECIPADO, A POSTAGEM VAI SER AMANHÃ (5a FEIRA) às 18h.
Semana que vem retornamos aos dias de postagem habituais (3a, 4a e 6a).





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MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:


postado originalmente em 26 de Abril de 2017 às 18:00.








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2 comentários:

  1. Gente ainda to rindo mto da Débora, coitada q situação... tava imaginando ela pulando a janela se fosse no térreo...k k k
    Ui Michelle viajando, Laura e Amanda sozinhas no apartamento e Laura ainda torce o tornozelo?? Nenhum problema né. Eu q sou mente suja e imagino q isso vai dar merda, não é pq elas vivem se comendo com os olhos... nada a ver, to imaginando coisas com certeza. Humpf... veremos amanhã q é dia de mais um cap. vivas, adorei isso de ter caps seguidos. Bora contribuir por mais cotas e alcançar 4 x por semana.
    Di amei, procurar no google o q fazer, k k k, mas nem isso essa guria sabe?? Gelo e pé pro alto é tão imediato qto respirar. k k k Na minha juventude chamavam de geração coca-cola, hj em dia é geração google. k k k Pra q pensar se pode digitar e ter respostas prontas pra tudo.
    Que chegue amanhã rapidim...
    AMANDOOOO...

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  2. O alvoroço tipico da juventude, fazendo das suas, e metendo Debora numa situação algo embaraçosa a ponto da solução ser pular janela...kkkk Mas sem outra saída, enfrentaram braviamente a tranquilidade jocosa, de Michele e Laura...Amanda sem saber muito bem como colocar em palavras a sua relação com Debora, se o Google desse essas respostas... kkkk
    Agora esta aproximação final, com uma delas manca e abandonada ...vamos ver o que nos reservas para hoje ;)
    Até logo

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