terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 10


Assim que chegaram ao carro, Amanda sugeriu:
- Não é melhor você sentar no banco de trás com a perna pra cima?
Não houve hesitação alguma por parte de Laura:
- Prefiro ir na frente.
A compreensão de Amanda sobre o real motivo daquilo foi perfeita. Expressou-a verbalmente assim que terminou de ajudá-la a acomodar-se:
- Não confia em mim?
Não esperou pela resposta. Deu a volta, entrou e se sentou ao lado de Laura, que falou procurando o celular na bolsa, sem dar grande importância ao que classificou como provocação infantil de Amanda:
- Confiança é algo que precisa ser conquistado, não acha?
Amanda virou-se para ela seriíssima:
- Eu sou perfeitamente responsável, pode confiar em mim.
Só então Laura levantou os olhos em direção ao banco do motorista:
- Até agora nenhuma das suas atitudes me mostrou isso.
Aí sim, a indignação de Amanda foi ao extremo:
- Só porque esqueci de avisar que ia dormir fora uma única vez?
Um sorriso irônico antecedeu o momento em que Laura ergueu uma das sobrancelhas:
- E que ia trazer alguém para passar a noite com você.
No calor da discussão, Amanda havia inclinado o corpo em direção à Laura, buscando uma aproximação que se tornou consciente com o estranho pensamento que teve e a vontade inesperada que a tomou. De tocá-la fisicamente. Os olhos a traindo ao descerem para os lábios de Laura como se tivessem vontade própria. Algo completamente indisfarçável, que reprimiu abaixando a cabeça e recuando até encostar no próprio banco.
- Desculpe a invasão.
Laura não respondeu. Na verdade, não disse mais nada. As duas mergulharam num silêncio quase sepulcral enquanto Amanda ligava e saía com o carro e Laura voltava a procurar o celular na bolsa para ligar para a universidade e avisar que não iria. A despeito das ações tão diversas, naquele instante, o objetivo de ambas era igual. Evitar que atração que as unia pudesse se concretizar ou ter algum resultado real.


Laura voltou para casa de muletas e com o pé dentro de uma bota imobilizadora. Não poderia pisar durante alguns dias, segundo a recomendação médica. Amanda a seguiu meio perdida, sem saber ao certo como, mas querendo ajudar. Foi rapidamente dispensada:
- O remédio me deu um pouco de sono então vou me deitar um pouco, você pode ir pra universidade.
Disfarçou a decepção como pôde:
- Certeza?
De forma inquestionavelmente segura, Laura reafirmou:
- Vou ficar bem, você não precisa se preocupar.
Nem assim Amanda desistiu. Tampouco questionou a razão da súbita vontade de ficar para cuidar de Laura, só queria atendê-la:
- E se você precisar de alguma coisa?
A única coisa que Laura precisava era não a ter por perto no estado em que se encontrava, sentindo-se fraca e cansada, prestes a sucumbir a algo que só traria sofrimento e faria com que se arrependesse antes mesmo que terminasse. Tentou soar menos saturada do que estava:
- Eu consigo me virar.
Com sucesso. Pois Amanda insistiu uma vez mais:
- Tá, mas se precisar de mim...
Não foi delicada ao cortá-la, muito pelo contrário:
- Não vou precisar.
Imediatamente se arrependeu:
- Desculpe, estou cansada e com dor.
Afinal, estava sendo grosseira sem motivo algum, e logo com a pessoa que a tinha socorrido. Amanda deu de ombros. Relevou e sorriu:
- Tudo bem.
De um jeito que desarmou Laura completamente. Retribuiu o sorriso e agradeceu não por dever, mas porque queria, precisava reconhecer:
- Muito obrigada. De verdade. Não sei o que eu teria feito sem você.
O sorriso de Amanda aumentou e brilhou, de um jeito tão irresistível e encantador que, apenas à custa de um esforço tremendo, Laura conseguiu dizer exatamente o contrário do que desejava:
- Agora vai pra sua aula.


Quando Amanda voltou para casa, a única coisa que encontrou na sala foram as muletas. Colocou a pizza que havia trazido em cima do balcão da cozinha e caminhou em direção ao quarto de Laura. Parou em frente à porta fechada e pensou se deveria bater ou não. Provavelmente, Laura estava cansada, preferia não ser incomodada, ou qualquer uma das outras desculpas que, era claro para Amanda, sempre dava para evitar que ficassem sozinhas. O motivo não tinha certeza, nem poderia. Sabia apenas o que parecia, pelo pouco que Laura deixava à vista. Mas poderia ser apenas uma fantasia, reflexo do que ela e somente ela, Amanda, queria. 
Vontade e curiosidade. Foi isso que seguiu quando ergueu o punho fechado, o golpeou contra a porta e chamou:
- Laura?
Obteve como resposta algo ininteligível. Respirou fundo antes de dar o próximo passo:
- Posso entrar?
Desta vez, o que Laura falou foi totalmente compreensível:
- Sim.
Não precisou repetir.


Laura tinha dormido boa parte do dia, mas fazia algumas horas que estava acordada, sem ânimo para levantar. Naquele momento, o que mais a incomodava não era a dor, mas o medo que estava sentindo. Não podia mais esconder-se dentro da própria fraqueza e covardia.
As batidas na porta apenas confirmaram o que já sabia. Precisava enfrentar, não o que estava lá fora, mas o que trazia dentro de si. 
Parou de sufocar e reprimir aquele sentimento, permitiu que fluísse. Pela primeira vez olhou para Amanda sem desviar, disfarçar nem fugir.
Ela se aproximou da cama com uma leveza que parecia quase etérea, o olhar ligado ao de Laura como se estivessem magneticamente atraídos. Encantamento que apenas aumentou quando se sentou no colchão ao lado e de frente para Laura, que ergueu uma das mãos e lhe acariciou o rosto, causando um estremecimento recíproco. Tão intenso que Amanda precisou verbalizar:
- Eu...
Saiu num sopro quase inaudível, que Laura cortou deslizando a mão pela nuca dela com a suavidade carinhosa e doce que Amanda esperava e desejava dela, mas nunca havia recebido:
- Shh...
Deixou-se puxar com total passividade, um gemido baixo escapando quando os lábios de Laura tocaram os dela. Foi de forma inteiramente inconsciente que os entreabriu, num pedido que foi imediatamente atendido. A língua de Laura entrou, buscou, reconheceu e se apossou, levando Amanda a um estado indescritível. Poderia se viciar naquilo. 
Uma necessidade imperativa a fez finalmente agir. Escorregou as mãos dos ombros para os seios de Laura apenas para, no momento seguinte, se arrepender.
Para Laura, o toque serviu como limite e, ao mesmo tempo, gatilho de uma realidade dolorosa, impensável e indizível. Aquela em que perdia Michelle. E que não queria nem iria permitir.
Segurando Amanda pelos pulsos, a afastou, encerrando o beijo e qualquer outro contato físico.  
Olhou para ela sem saber o que dizer, pois não havia nada a ser dito. Numa situação como aquela, tentar se desculpar ou se justificar só resultaria numa mágoa ainda maior do que a que o rosto de Amanda já transmitia.
E então, o que não poderia piorar tornou-se pior ainda. O celular de Laura tocou, as duas olharam juntas para o visor e viram que era Michelle. Não atender estava fora de questão, pois Michelle ficaria mais preocupada do que já estava desde que soubera do acidente. 
Contrário a tudo que Laura desejava, Amanda permaneceu sentada no mesmo lugar, olhando-a fixamente enquanto ela pegava o aparelho, deslizava o dedo na tela e recebia a ligação, sentindo-se a pessoa mais falsa e canalha do universo.
O lado racional de Amanda até compreendia. Mas, naquele instante, sentindo o gosto do beijo de Laura ainda, não era nem um pouco lógico o que a conduzia. Um prazer sádico e masoquista a fez ficar ali, torturando Laura e a si mesma ao presenciar a conversa com Michelle até o fim. 
Depois, levantou, caminhou até a porta e, de costas para Laura, afirmou:
- Eu não vou contar.
Saiu antes mesmo de ouvir a resposta:
- Nem eu.


Mesmo sabendo que Laura não viria atrás dela, Amanda trancou-se no próprio quarto. Andou de um lado para o outro, tentando inutilmente se acalmar. Percebeu que não podia, não suportaria ficar a noite inteira sozinha, precisava de companhia e sabia exatamente onde encontrar. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Débora no whatsapp, perguntando onde ela estava. A resposta imediata deixou Amanda segura o suficiente para dizer que iria encontrá-la. 
Tomou banho e se arrumou inteira, mas antes de sair não resistiu ao que sua parte sombria internamente lhe soprava. Abriu a pizza metade vegetariana e metade portuguesa que havia comprado, colocou um pedaço de cada sabor num prato e, junto com os talheres e uma garrafinha de água gelada, levou até o quarto de Laura.
Não deu chance nem espaço para que ela recusasse ou a expulsasse:
- Vou dormir na casa da Débora e de lá vou direto pra faculdade amanhã.
A única coisa que Laura disse foi:
- Muito bem.
Concordância que soou serena e verdadeira demais, quase aliviada. O contrário da reação que Amanda pretendia causar. 
Permaneceu alguns segundos parada, de pé na frente dela, esperando Laura dizer mais alguma coisa ou ao menos fitá-la, mas não aconteceu. Sentindo-se sem importância alguma, como se fosse um nada, virou-se e saiu, determinada a ignorá-la também.


 Laura continuou imóvel, com a cabeça abaixada e o olhar fixo no prato em seu colo muito tempo depois que Amanda a deixou sozinha. 
Arrependida era pouco, não definia absolutamente o estado abissal em que se encontrava. Não só pelo fato em si, se ter beijado Amanda já era, por si só, indesculpável, deixar de contar para Michelle era pior. Inominável. 
Laura não era nem nunca tinha sido o tipo de pessoa que justifica as próprias falhas com facilidade, tampouco acreditava na desculpa usual: “foi mais forte do que eu”. Essa sempre tinha sido a forma de Elaine explicar as migalhas que havia lhe dado. Algo que Laura jamais tinha aceitado, pois possuía plena consciência de que, se esse algo dentro dela tinha sido mais forte, era por que de alguma forma o havia alimentado. Uma escolha, não o acaso. 
Não que Laura possuísse qualquer pretensão de ser especialmente forte ou correta, estava muito longe de ser perfeita, como seu passado bem mostrava. Apenas tinha chegado num ponto de sua vida em que se achava protegida, fora de risco, imune a coisas que aconteciam com a força devastadora de uma catástrofe natural. Não por ser casada, mas porque não suportava sequer cogitar viver sem Michelle. Realmente a amava.
Ironicamente, a falta que ela fazia parecia estar materialmente representada ali, naquele prato de pizza, para o qual estava olhando fazia tempo, mas só agora havia realmente enxergado. A fatia vegetariana sem a de alho e óleo perdia metade da graça. Comeu-a assim mesmo, desejando o sabor complementar que lhe faltava. Quando terminou, colocou o prato com o pedaço de pizza portuguesa intocado na mesinha de cabeceira, deitou e virou para o lado com a certeza de que não a queria nem precisava.


Assim que entrou no bar, Amanda a viu. Débora estava sentada em uma mesa com as duas amigas que estavam no churrasco. Amanda não tinha certeza qual era qual, mas sabia que uma era Bárbara e a outra se chamava Claudia.
Caminhou na direção delas. Quando Débora a avistou, ergueu o braço e, com um sorriso largo e ardente, acenou. 
Amanda cumprimentou as meninas rapidamente, sem permitir que elas se levantassem. Com pressa de se virar para Débora, que estava de pé ao seu lado, com o olhar resplandecente que Amanda adorava, pela maneira que a inflamava:
- Que bom que você...
Não a deixou completar. Puxou Débora pela cintura e beijou-a com vontade, louca para derreter e queimar em seus braços.

ATENÇÃO: PARA NÃO FURAR A GREVE GERAL DIA 28 (amanhã), O CAPÍTULO DESTA 6a FEIRA FOI ANTECIPADO PARA HOJE.
Semana que vem retornamos aos dias de postagem habituais (3a, 4a e 6a).

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CONTINUA NA 3a FEIRA..
OU ANTES... SÓ DEPENDE DE...
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MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:



postado originalmente em 27 de Abril de 2017 às 18:00.








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4 comentários:

  1. Não me considero uma ave de mau agouro, mas eu tava prevendo algo desse tipo.
    Laura desde q aceitou sem consultar Michelle a presença de Amanda(girina) no
    lar delas deu espaço para q alguma merda acontecesse. Agora o fato de esconder
    o que aconteceu para mim é tão ou mais importante qto o fato em si, Michelle
    realmente não merece isso...
    Como sempre Diedra sendo maravilhosa, o cap. de hj foi tudooooo de bom.
    Parabéns... tô amando.

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  2. Por instantes sucumbiram à tentação, com uma leveza, apenas levadas pelo fascínio, esquecendo a situação pesada em que se meteram...Mas onde é que Laura anda com a cabeça, para deixar que ilusões do passado ganhem espaço no presente aparentemente perfeito??? Do lado da Amanda é mais fácil perceber as suas atitudes, foi levada pela curiosidade e desejo, e como tem pouco a perder... mas a fuga utilizando Debora também vai dar merda...
    Eu adoro esquadrinhar as atitudes das tuas personagens, vamos ver para onde elas nos vão levar... ;)
    Exímia a tua descriçao das sensações da traição, uma foi envolvida na cena do beijo sem olhar ao contexto e depois caiu no remorso e nas consequências do mesmo... ;)
    Bjs

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  3. Eita! Laura. E agora, Laura? kkkk. Contar ou não contar? Eis a questão. kkkk. Bota a girininha pra morar em outra lagoa. Se livra da tentação. kkkk. Capítulo maravilhoso, Diedra.

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  4. Aaah ;(
    Sou tão fã da girina com a Deb, acho que elas serão bem mais felizes juntas. Torcendo por elas.

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