terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 11


Foi um alívio para Amanda chegar em casa no dia seguinte depois da faculdade e perceber que Laura estava no quarto dela com a porta fechada. 
A despeito disso, tomou banho o mais rápido possível e foi se arrumar no próprio quarto. Não queria vê-la, sequer cruzar com ela no corredor.
Estava terminando quando recebeu uma mensagem de Débora dizendo que a mãe dela tivera um imprevisto e ainda não tinha chegado com o carro, por isso iria atrasar uma hora no mínimo.
Impensável ficar uma hora trancada ali, por isso perguntou se Débora se importaria se ela fosse logo, ao invés de esperá-la. Gentil como sempre, Débora disse que estava tudo bem, a encontraria na festa. 
A porta de Laura continuava fechada quando Amanda saiu para pegar o uber que a esperava lá embaixo. Dentro do carro, enviou uma mensagem para ela dizendo que dormiria na casa de Débora de novo. Laura não demorou para visualizar nem para responder, com um frio e seco “ok”.


Amanda entrou naquela festa com o objetivo de se embebedar, mas assim que a viu, Bruno a pegou pela mão e a puxou para um canto:
- Quer ficar muito louca?
Sem hesitação alguma, ela fez que sim com a cabeça. Ele abriu o maior dos sorrisos:
- Então abre a boca.
Obedeceu como se não existisse mais nada. Preocupações, riscos, consequências, Débora, Laura, nem mesmo um amanhã. 
Engoliu o comprimido junto com a água que Bruno ofereceu:
- Não bebe nada. Só água.
A concordância foi igualmente inconsequente:
- Ok. 
Talvez nem se lembrasse dela depois.


Dançou e dançou e dançou e dançou... 
Em meio a uma felicidade alucinante, flutuando num espaço longínquo, muito acima de todos problemas. Todas as dificuldades e frustrações desaparecem. A realidade já não fazia parte dela e aquilo era bom demais para ser negado ou desperdiçado. Só o que importava era a pele queimando dentro de si e ao redor... 
Um par de olhos brilhantes, absolutamente narcotizantes parou em sua frente e sorriu. 
Não disse nada, nem precisava. Não iria mesmo ouvir. 
As bocas se encontraram quase com fúria, as mãos buscando, tateando, aprovando e comprovando que sim, o seu corpo queria, precisava do corpo da desconhecida. 
Pulsação que a acompanhou contra a parede onde se deixou acariciar sem pudores nem limites e, depois, no banco de trás de um táxi, com a garota em cima dela ainda agindo como se estivessem sozinhas. 
Mas não estavam.
Amanda sentiu o olhar do motorista antes mesmo de levantar a cabeça e deparar-se com o espelho retrovisor que refletia a boca da outra em seu seio despido. 
Tentou empurrá-la, mas ela apenas levantou a cabeça durante o tempo necessário para compreender o motivo e dizer, sorrindo:
- Não esquenta, é meu primo. Não vai encostar na gente, ele gosta de olhar. 
Voltou a colar a boca no seio de Amanda, subiu o vestido dela e enfiou uma das mãos dentro da calcinha. 
Ignorando o ligeiro protesto e a breve resistência, não parou. Pelo contrário, intensificou as carícias, arrancando um gemido mais forte de Amanda quando falou de um jeito rouco, sedutor, erótico ao extremo:
- É o mínimo que podemos dar... Como pagamento pela corrida...
E apesar de achar aquilo completamente obsceno, Amanda nunca tinha sentido uma excitação tão forte nem tão derradeira, a ponto de fazê-la ter seu primeiro orgasmo da noite ali mesmo, com o cara assistindo a tudo através do espelho.


Acordou no dia seguinte sem saber direito onde estava. Mas lembrava perfeitamente do sexo deliciosamente intenso. Olhou para a garota nua dormindo a seu lado e percebeu que não fazia a menor ideia de quem era, sequer havia perguntado o nome dela. 
Tocou-a no ombro e tentou acordá-la:
- Oi?
Sem resultado. Sacudiu-a mais forte e ela gemeu. Insistiu e levou um tapa. 
- Que foi? Caralho!
A outra reclamou sem abrir os olhos nem se virar para a Amanda, que mesmo assim informou:
- Eu já vou.
Não houve reação alguma, ela não olhou para Amanda, sequer se moveu:
- Quando sair bate a porta.
Continuou dormindo enquanto Amanda procurava e apanhava as roupas, se vestia e pegava a bolsa, encontrava o celular e via que a última mensagem de Débora, ainda não lida, era: “estou a caminho”. Nenhuma depois disso, o que só poderia significar uma coisa. Ela sabia. Ou pior, tinha visto.
Deixou escapar um suspiro antes de sair do quarto. Assim que atravessou a porta parou, ao deparar-se com três pessoas sentadas na sala. Nenhuma delas era o primo voyeur, felizmente. O rapaz saudou:
- Oie!
As duas garotas apenas acenaram com a cabeça. Ela fez o mesmo, sem vontade alguma de falar. Mas ele parecia disposto a fazer sala ou sabe-se lá o quê. Apresentou:
- Eu sou o Bernardo. Essas são a Taiana e a Raíssa. A gente divide a casa com a Marina.
Não teve ação nem reação, a situação era mais do que inusitada. Surreal saber daquele jeito o nome da garota com quem tinha acabado de passar a noite. Inteiramente sem palavras, Amanda voltou a sacudir a cabeça.
- Senta aí.
O convite a fez recuperar a fala:
- Tenho que ir.
Dessa vez, quem sacudiu a cabeça foi ele:
- Valeu.
Amanda caminhou até a porta da rua e a bateu atrás de si como havia sido instruída a fazer. O sol a atingiu em cheio. Fechou um pouco os olhos. No entanto, isso não impediu que doessem. Ainda lutando contra o excesso de luminosidade, tentou descobrir onde estava, para poder chamar um uber. Não olhou em volta, mas para o celular onde o waze, com sua precisão maquinal de aplicativo a localizou no mapa, mas não a fez se sentir menos perdida de si mesma.


O alívio que tomou conta de Laura quando Amanda dormiu fora de casa pela segunda noite seguida a fez se sentir um pouco culpada e ainda mais ansiosa com a volta de Michelle. Estava absolutamente acostumada a contar tudo, não tinham segredos entre elas. Claro que em vinte anos, Laura já havia mentido. Nada de grave, apenas pequenas inverdades para deixar Michelle tranquila, como da vez em que tinham ido viajar e no meio da estrada Michelle perguntara se tinha molhado as plantas antes de sair. Laura afirmara com convicção que sim, mesmo tendo esquecido. Guardara a preocupação apenas para si. Omitir que tinha beijado Amanda tinha o mesmo objetivo. No entanto, a gravidade era inegavelmente outra e, por isso mesmo, não havia escolha, pois saber só serviria para fazer Michelle sofrer. 
Foi disso que Laura tentou inutilmente se convencer. Tinha plena consciência do egoísmo de sua escolha. O que realmente queria era, independentemente de qualquer coisa, manter seu casamento.


Michelle já chegou preocupadíssima. Ficou mais ainda quando encontrou Laura no quarto em cima da cama. Beijou-a mil vezes, apertou-a contra si com força, todo o amor e carinho habituais exacerbados pela saudade e por ter deixado Laura sozinha num momento em que precisara tanto dela:
- Como você está? Eu queria tanto estar aqui, meu amor... Meu amor...
Impossível para Laura disfarçar ou reprimir, a emoção transbordou num choro incontrolável, que deixou Michelle ainda mais aflita:
- Está sentindo dor?
A única coisa que Laura conseguiu dizer entre as lágrimas foi:
- Não...
A negação sufocada soou exatamente como o contrário, principalmente pela forma como Laura se agarrou a ela, quase em desespero. Michelle insistiu:
- Por favor, me fala. O que foi?
E uma vez mais, Laura afastou a possibilidade de honestidade:
- É só... Saudade... E carência...
No tom bem-humorado de sempre, Michelle brincou:
- Amanda não cuidou de você direito?
Se a pergunta tinha alguma outra intenção além da implicância cúmplice costumeira, Laura preferiu ignorar. Foi absolutamente sincera:
- Como poderia? Ela não é você, meu amor...


Amanda respirou fundo, tentando se preparar antes de abrir a porta do apartamento, apesar de saber perfeitamente que nada a deixaria pronta para aquele momento. 
Michelle a recebeu sorrindo, com a simpatia e a doçura de sempre. Laura lhe lançou um olhar que era aparentemente neutro, mas para Amanda foi o reflexo da tensão e do desconforto que ela mesma trazia por dentro. 
Rejeitou o convite de Michelle para almoçar sem hesitar, incapaz de sentar na mesa e manter qualquer tipo de conversa com elas:
- Obrigada, mas estou sem fome. 
Teria sido suficiente, se a culpa não a compelisse a justificar um pouco mais: 
- Estou exausta, vou tentar dormir um pouco. 
Depois, já trancada em seu quarto, ficou alguns minutos tentando pensar o que elas deveriam estar pensando e acabou desistindo, pois não tinha como. Além disso, se pretendia continuar vivendo com as duas, precisava aprender a relaxar, ligar o “foda-se”. Fingir que nada havia acontecido. Esquecer.
“Como se fosse possível.”
O beijo de Laura estava gravado em seu corpo inteiro, das profundezas da mente até a superfície de sua pele. Mesmo após a noite passada com Marina e a anterior com Débora.
“Merda!”
Só então lembrou que ainda não tinha falado com ela. Mandou uma mensagem para Débora no whatsapp, na mesma hora ela visualizou, mas não respondeu. 
“Puta merda!”
Mandou um áudio:
- Tá muito puta comigo?
Com a voz mais doce e arrependida que conseguiu. O whatsapp indicou que Débora ouviu, mas nem assim houve retorno.
Atirou o celular na cama, respirou fundo, pegou roupas limpas na gaveta e, no melhor estilo Scarlett O’Hara, caminhou em direção ao banheiro pensando: “Amanhã eu me resolvo com ela”.


- Aconteceu alguma coisa?
A pergunta de Michelle não pegou Laura de surpresa. Muito pelo contrário, já esperava, tinha certeza que ela perceberia que algo estava diferente.
- Acho que isso da Amanda morar conosco não está dando certo.
A rapidez da resposta deixou claro que se tratava de coisa pensada, nem um pouco repentina. 
Michelle se sentou ao lado de Laura no sofá, de frente para ela:
- Bom, então só me resta repetir a minha pergunta: aconteceu alguma coisa?
Laura falou sustentando o olhar de Michelle:
- Faz duas noites que a Amanda não dorme em casa. 
O estranhamento de Michelle estava nitidamente expresso na forma como ela franziu o rosto:
- Ela te avisou, não avisou?
A confirmação, dada por Laura com um aceno de cabeça, só serviu para deixar Michelle ainda mais incrédula:
- Desculpe, mas ainda não entendi qual é o problema.
Desta vez, Laura não foi capaz de manter o olhar no dela:
- O problema é que, como sempre, você tinha razão. Além de termos perdido toda a nossa privacidade, ter uma adolescente inconsequente em casa é responsabilidade demais e além disso... 
Michelle tentou interromper o estado de inquietude total em que ela se encontrava:
- Laura...
Sem resultado:
- E se acontecer alguma coisa? 
Segurou as mãos dela e voltou a chamá-la com suavidade:
- Meu amor...
Nem assim Laura recuperou a serenidade:
- O que vamos dizer para os pais dela? 
Seu verdadeiro medo era que Michelle pudesse captar o que não estava dizendo, compreendesse o real motivo de sua preocupação ou, durante um único segundo, visse em seu olhar o que estava em seus pensamentos. Mas não aconteceu:
- A não ser que eu tenha entendido muito errado, essa situação é provisória, não é? A Amanda vai ficar com a gente só até se adaptar, não será durante a graduação inteira.
Uma risada sarcástica antecedeu as próximas frases de Laura:
- Adaptada ela já está. O suficiente pra fazer a nossa casa de motel.
Michelle soltou as mãos dela, deixou escapar um suspiro e levantou do sofá:
- Tudo bem, você não quer me contar.
Laura chegou a se mover para frente. Teria se posto de pé se não fosse o tornozelo imobilizado:
- Meu amor... Não é nada disso que...
Não conseguiu completar, Michelle virou-se para ela, interrompendo-a:
- Disso o quê? Uhn?
O silêncio que se seguiu foi interrompido pelo som que Laura deixou escapar – muito mais uma respiração do que um riso propriamente dito - enquanto sacudia a cabeça tentando negar, ou ao menos minimizar tudo aquilo. Michelle voltou a sentar no sofá, um pouco mais afastada desta vez. Observou-a atentamente:
- Laura, eu te conheço muito bem. Alguma coisa aconteceu.
Laura repetiu o aceno de cabeça e a respiração-risada com mais ênfase antes de dizer, numa clara tentativa de defesa:
- O que você está insinuando?
O sorriso que Michelle lhe lançou foi límpido:
- Não sei. Me diga você. Tem algo pra me dizer?
Teve o poder de deixar Laura tranquila. Se deslumbrasse o mais leve toque de agressividade ou ironia naquele momento, teria certeza de que ela sabia.
Mas toda a segurança e tranquilidade de Laura esvaiu-se no instante seguinte. Quando Michelle se pôs de pé e caminhou até a Jukebox dizendo:
- Quem sabe... Algo tipo isso...
Depois selecionou e colocou uma música que fez Laura empalidecer. “*Mrs. Robinson” (ver nota da autora no fim do capítulo) de Simon e Garfunkel.
Passou por uma infinidade de sentimentos num único segundo. Falou antes mesmo de recuperar-se por completo:
- Michelle, pelo amor de deus! Você acha isso engraçado?
O sorriso de Michelle foi profundamente enigmático:
- Você não?
Antes que Laura pudesse responder, falou, seriíssima:
- Liga pra Elaine e diz que só vamos ficar com a Amanda aqui em casa até o fim do semestre.
Depois se virou e caminhou até a cozinha, deixando Laura com a mais intensa dúvida como companhia.

*nota da autora: “Mrs. Robinson” é uma canção de Simon & Garfunkel que faz parte da trilha sonora do filme “A Primeira Noite de um Homem”(The Graduate) - Anne Bancroft (super diva) e suas pernas em formato de triângulo são um marco do cinema, assim como a frase “Sra. Robinson, você está tentando me seduzir”. A personagem de Bancroft (Mrs. Robinson) é a sedução em pessoa, uma mulher belíssima e solitária que vê no filho do sócio de seu marido a solução para seu chato cotidiano burguês. A música ficou para sempre associada à mulheres mais velhas que seduzem pessoas mais jovens. Quem puder veja o filme, pois é um clássico imperdível!

CONTINUA AMANHÃ...



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postado originalmente em 02 de Maio de 2017 às 18:00.








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2 comentários:

  1. k k k
    Sensacional...
    O q faz uma consciência pesada.
    Michelle 'deu tiro dado bugio deitado' (acertar de 1ª) mesmo sem saber disso.
    Amanda completamente insana, a guria saiu da barra da família e só faz merda.
    Quero ver ela encarar Débora agora, se bem q acho q ela tá nem aí pra guria.
    Laura nem respira mais fundo pra Michelle não suspeitar de nada, mas se entrega
    assim mesmo.
    Mto bom...

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  2. Ilusões forçadas no caso de Amanda ou pensadas no caso de Laura, ambas tentando fugir do que aconteceu, mas sem grande sucesso, só se encrencam mais...Michelle astuta vendo alėm do que lhe dizem, a jukebox assumindo o seu papel principal...A trama estå otīma kkk

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