terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 12


Apesar da insistência de Michelle para que continuasse em casa, Laura estava de pé e pronta para dar aula na segunda feira de manhã.
- Sabe quantas pessoas vão trabalhar podendo ter um atestado médico?  
Laura tomou um gole de suco antes de responder:
- Estou perfeitamente bem. O médico disse que a partir do quinto dia eu poderia caminhar com a bota, desde que não ficasse muito tempo de pé. 
Michelle não estava absolutamente convencida:
- Mesmo assim, eu acho que você...
Antes que pudesse completar, Laura a interrompeu:
- Se eu ficar mais um dia em casa juro que vou enlouquecer. 
Colocou o copo em cima do balcão, enlaçou Michelle pela cintura e a puxou para si:
- Que posso fazer se eu gosto do meu trabalho? Você não é diferente.
Impossível para Michelle discordar:
- Ok, você venceu.
Passou os braços ao redor do pescoço de Laura e beijou-a apaixonadamente. 
Um barulho vindo da sala as interrompeu. Olharam juntas para Amanda, que as olhou de volta com um indisfarçável constrangimento:
- Eu já estou indo.
Falou caminhando o mais rápido possível em direção à porta da rua, sem ouvir quando Michelle perguntou:
- Amanda, você não vai tomar nem um...
A porta bateu ao mesmo tempo em que Michelle completava:
- Café?
Suspirou profundamente antes de virar-se de novo para Laura:
- O que foi isso?
Laura deu de ombros, enquanto se servia de mais suco:
- Como eu vou saber? 
Não precisava ver, podia sentir que Michelle a estava observando atentamente. Levantou os olhos e sustentou o olhar dela:
- Estou feliz porque vai acabar em breve.
Michelle concordou sem devolver o sorriso de Laura. De uma maneira estranha, demasiadamente séria, quase enigmática:
- Eu também.


Débora já estava na sala de aula quando Amanda chegou. Conversando com Bruno, como sempre. Respirou fundo para tomar coragem e sentou-se ao lado dela:
- Oi!
Os dois sorriram de volta e responderam:
- Oi.
Mas continuaram conversando, voltados um para o outro, sem inseri-la no assunto, como fariam habitualmente. Amanda até se viu tentada a seguir a vontade de deixar como estava, não dizer nada e fingir que nada havia acontecido, mas era impossível. Eles já estavam diferentes com ela.
- Débora?
Chamou baixinho, sem saber ao certo o que dizer ou por onde começar. Débora a olhou, ainda sem virar o corpo para ela:
- Quê?
Impossível disfarçar o constrangimento:
- Eu queria conversar com você.
A voz de Débora soou fria, quase cortante:
- Sobre o quê?
Deixou Amanda nervosa a ponto de dizer:
- Ah, você sabe...
Obteve ironia como resposta desta vez:
- Não faço ideia.
Soltou num suspiro: 
- Sobre sábado...
Débora olhou bem para ela e disse:
- Amanda, você não me deve nada. Pode fazer o que quiser. Não me diz respeito, certo?
Com uma firmeza que pareceu completamente intransponível, a ponto de fazer Amanda gaguejar:
- Tá... Certo.
De súbito, a atenção de Débora se voltou para a porta. Amanda seguiu o olhar dela e sentiu o corpo inteiro paralisar ao deparar-se com a professora, que entrava na sala, junto com a garota de sábado. O olhar cruzou com o de Amanda, mas não houve reação alguma por parte da outra. 
“Nem deve se lembrar”.
Foi o que Amanda pensou, sem poder afirmar o mesmo. Sabia muito bem quem ela era, impossível esquecê-la. Marina. O nome estava gravado em sua mente. Não só o nome, foi obrigada a reconhecer.
Dolorosamente ciente dos olhares que recebeu de alguns colegas que também estavam na festa fatídica, percebeu que o acontecido não era inesquecível só para ela. 
Sentiu o rosto queimar e tomou consciência de que deveria estar completamente vermelha. Desejou ter um buraco onde pudesse se enfiar e desaparecer para sempre quando a professora apresentou:
- A Marina é mestranda do nosso programa de pós-graduação e a partir de hoje vai auxiliar nos trabalhos que vocês vão fazer para esta disciplina. Aproveitem! Podem explorar, porque ela é ótima em cálculo!
Em meio ao burburinho que se fez na sala, Amanda pensou: “Ela é ótima em várias coisas...”. 
Bruno a salvou de aprofundar e detalhar o perigoso raciocínio:
- Ae, hein?! Você já sai em vantagem...
Deu uma piscadela safada para Amanda, que replicou:
- Não é uma competição.
Ele riu:
- Não se engane, minha querida, é sim!
Amanda olhou para Débora, numa tentativa inútil de fazer algum contato, pois ela manteve a cabeça baixa e os olhos fixos no próprio caderno.


Durante o intervalo, desceu sozinha para a cantina. Bruno e Débora resolveram permanecer na sala - preferiu acreditar no que disseram ao invés de pensar que era apenas uma desculpa para se livrarem dela - e precisava desesperadamente de um café. 
Enquanto colocava açúcar no copo de isopor, foi surpreendida por Marina, que parou ao lado dela no balcão e sorriu:
- Bom dia.
Amanda afastou o arrepio e a excitação que a abordagem totalmente inesperada causou recordando como havia sido destratada por ela na manhã de domingo. Provocou:
- Ah, então você sabe ser educada?
Marina pediu um café e, quando se virou de novo para Amanda, estava visivelmente confusa:
- Desculpe, mas eu não entendi.
Ficou olhando para Amanda, como se esperasse uma resposta, mas o café veio primeiro. Enquanto ela colocava açúcar mascavo, canela e mexia o líquido no copo, Amanda tentou encontrar algo, qualquer coisa para dizer. Inutilmente. O embaraço de não ter sido reconhecida a fazia se sentir inteiramente idiota, insignificante e incapaz de responder.
Quem afinal quebrou o silêncio foi Marina, com um sorriso absurdamente cafajeste desta vez:
- Meu primo te mandou um beijo.
O tom que falou, o jeito que a olhou, fez Amanda sentir-se despida. Mais do que isso, deixou claro que Marina se lembrava de tudo perfeitamente. 
Ficou sem palavras apenas durante a fração de segundo que a indignação e a raiva levaram para lhe subirem à cabeça:
- Vai à merda! Você e seu primo tarado!
Ignorando as gargalhadas de Marina, deu as costas e se afastou furiosa. Se continuasse perto dela, não sabia o que seria capaz de fazer. Espancá-la ou beijá-la. As duas coisas, provavelmente. 


Quando Amanda chegou em casa, estava estressada, emocionalmente exausta e, pela primeira vez desde que havia se mudado para Florianópolis, desejou estar voltando não para o apartamento de Laura e Michelle, mas para o conforto e segurança dos braços da mãe e dos ouvidos da irmã.
Falava com Juliana no whatsapp o tempo inteiro e a mãe a ligava no mínimo duas vezes por dia, mas nada substituía a presença física das duas. Principalmente num momento como aquele, em que se sentia confusa e perdida, precisando dividir com a irmã coisas que não tinha coragem de falar sem ser pessoalmente. Pois se Juliana sabia tudo sobre Débora e um pouco sobre Marina – não tivera coragem de contar a parte do primo – nem desconfiava do que havia acontecido entre ela e Laura. O mais provável era que não revelasse aquilo a ninguém, nunca. Uma recordação que pretendia enterrar bem fundo dentro de si, trancada a sete chaves como um segredo inominável, algo que nunca deveria ter acontecido. Mas não era fácil, pois se lembrava, cada vez que a via e, por mais que tentasse evitar, não conseguia deixar de imaginar como seria se tivessem ido além daquele beijo tão completamente avassalador e inebriante, com o poder de deixá-la daquele jeito, parada no meio da sala, olhando para o nada, querendo repetir e prosseguir, precisando de mais...
O ruído da porta a fez voltar a si. Antes que pudesse fugir em direção ao próprio quarto, Michelle surgiu, como sempre, sorrindo:
- Olá! Tudo bem?
Michelle era e sempre havia sido uma das pessoas mais simpáticas e gentis que Amanda havia conhecido. O que só a fazia se sentir ainda mais horrível, profundamente culpada e totalmente deslocada ali. Tentou disfarçar da melhor forma possível:
- Tudo bem sim, e com você? 
Enquanto caminhava até a mesa de jantar, onde depositou a bolsa e a pasta que trazia consigo, Michelle falou:
- Dia cansativo, mas bastante produtivo. E o seu?
Amanda deixou escapar um suspiro e a única resposta possível:
- Difícil.
Com o bom humor que lhe era peculiar, Michelle disse:
- Acredito. Nunca nem consegui me imaginar fazendo engenharia. Todos os cálculos e, enfim... Mas não é a isso que você está se referindo, é?
Em nenhum momento passou pela cabeça de Amanda que o objetivo de Michelle fosse outro além do evidente. Deixá-la à vontade e tentar ajudá-la, se possível. Funcionou o suficiente para que não mentisse:
- Não.
Retorno que serviu para que Michelle se sentisse motivada a avançar em sua sondagem mais um pouquinho:
- Essa sua dificuldade teria o nome de uma mulher? Ou, quem sabe, talvez... De mais de uma?
Apesar do tom leve e suave, Amanda se perguntou se por trás da brincadeira havia algo mais. Suspeita, intuição ou talvez... Somente preocupação mesmo. Tentou apegar-se à última hipótese, mas as outras duas a assombraram, pairando como fantasmas que a qualquer momento pudessem se materializar, deixando-a completamente muda e tomada pelo terror.
O silêncio tenso que se seguiu não durou muito tempo. Michelle o interrompeu habilmente:
- Tudo bem, vamos mudar de assunto. Prometo que não vou mais te deixar constrangida.
Não deu a Amanda tempo algum para contestar ou replicar:
- Estou louca de fome e você?
Fazia dias que Amanda não comia direito, por causa da confusão em que sua vida estava virada. Por isso, foi inviável negar:
- Também estou.
O sorriso que Michelle lhe lançou tornou o convite ainda mais irrecusável:
- Então vamos lá pra cozinha?
Para Amanda, não foi esforço algum aceitar.


Quando Laura chegou em casa, deu de cara com Michelle e Amanda na cozinha, rindo às gargalhadas. 
Atravessou a sala tentando disfarçar com um sorriso o incômodo que aquilo lhe causava. Assim que se livrou da bolsa e das pastas que carregava, virou-se para elas e perguntou diretamente para Michelle:
- Alguém pode me contar a piada?
Tentou dar um tom de total leveza e brincadeira na voz, sem resultado. Soou pesado o suficiente para que Amanda ficasse subitamente séria e Michelle estranhasse. Assim mesmo, manteve um sorriso no rosto quando devolveu, de forma propositalmente provocante:
- Só se você me contar porque chegou tão mal-humorada... Uhn... Deixa eu adivinhar... É fome?
Mesmo se quisesse, seria impossível para Laura não sorrir de volta. Michelle sabia muito bem como desarmá-la.
- Vem cá...
Michelle a chamou, estendendo os braços e sacudindo os dedos por cima do balcão, fazendo Laura esquecer de todo o resto. Deu a volta e foi até ela na cozinha quase correndo. Antes que pudesse cruzar a porta, Michelle a alcançou e a beijou com voracidade. Correspondeu de uma forma igualmente intensa, apesar de estranhar o fato de Michelle manter os dois braços bem esticados atrás do ombro dela. Afastou-se e a fitou, questionando-a com o olhar apenas. A comunicação entre elas se deu com facilidade, sem precisar de palavras, pois imediatamente, Michelle esclareceu, mostrando as mãos cheias de manteiga:
- Estamos fazendo arte...
Bastou esquadrinhar a cozinha com os olhos para imediatamente compreender o que Michelle e Amanda estavam fazendo: enrolando brigadeiro. Riu ao constatar:
- Eu não acredito que você estava contando de novo aquela história da sua avó que obrigava todo mundo a assobiar enquanto enrolava doces pra ninguém comer!
O sorriso de Michelle mudou, tornou-se deliciosamente travesso: 
- Já contei faz tempo, agora estava na fase de obrigar a Amanda a assobiar também!
As duas olharam para Amanda que, completamente imóvel em uma das cadeiras, acompanhava a cena com um brigadeiro ainda por terminar de enrolar em uma das mãos, como se estivesse em suspenso.
Se não fossem as mãos besuntadas, Michelle teria batido palmas ao dizer:
- Vamos lá, Amanda! Parou por quê? 
De um jeito muito menos autoritário do que implicante. Amanda sequer cogitou a possibilidade de desobedecê-la. Não satisfeita, Michelle imitou a avó, como tantas vezes Laura já a tinha visto fazer:
- Enrolando e assobiando! Enrolando e assobiando!
De um jeito cômico, que fez Amanda começar a rir, antes mesmo de tentar cumprir a ordem. O que, obviamente, não conseguiu, pois Michelle também voltou a gargalhar, tornando impossível para Amanda fazer qualquer outra coisa além de acompanhá-la, exatamente como antes, quando Laura as tinha interrompido. 
As primeiras risadas de Laura perante a situação - tão engraçada que chegava a ser ridícula - foram inteiramente naturais. Espontâneas e límpidas. Pouco a pouco, vê-las tão à vontade juntas despertou um desejo que a transpassou, invasivamente incisivo, mescla de fetiche e solução para tudo que a afligia. No entanto, realizá-lo era impensável, pois ter as duas sem que elas interagissem entre si era inviável e dividir Michelle com outra era algo que jamais conseguiria, pensamento que fez com que tudo mudasse completamente de figura. Não que o riso que saiu de sua garganta a partir de então fosse menos verdadeiro que o anterior, apenas continha uma amargura profunda, repleta de culpa. Ria de si mesma. Da própria imperfeição, egoísmo e luxúria.

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postado originalmente em 03 de Maio de 2017 às 18:00.








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2 comentários:

  1. Tô amando a estória! Viciante! Esses desejos do subconsciente que ninguém revela, muito interessante!

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  2. Amanda estressada por causa da Marina, chega a ser engraçado pois acredito q Débora deva estar bem mais... k k k
    Laura tá me saindo a mais cafajeste das cafajestes ao menos em pensamentos. O que será q o futuro lhe reserva?
    Acredito q na vida recebemos o q ofertamos e isso com essas 3 chega a ser enigmático. Laura só pensa em papar a
    girininha, mas não admite se afastar de Michelle a quem diz amar. Amanda, essa é da pá virada, saiu do interior e
    soltou a franga total. Até com quem lhe deu abrigo ela cisca, não tem mulher q passe por ela q ela não caia de boca.
    Michelle... até agora a mais adulta e resolvida, pesca as coisas no ar, percebe q Laura tá se digladiando com algo,
    mas, com o q? O fato de ter uma girina aborrecente em casa e assim acabar com a privacidade delas? Será o fato de Amanda lembrar tanto Elaine a qual ela ainda vê como a grande rival e assim perpetuar a dor em q acredita ser apenas aquela q apareceu na hr em q Laura precisou e não q seja realmente amada. Este romance realmente tem mtas possibilidades e eu estou amando tudo isso.
    Tá incrível Diedra Roiz...

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