terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 17


Michelle chegou a cogitar ir para a casa dos pais. Mudou de ideia assim que pensou melhor, pois só serviria para preocupá-los, a mãe ficaria nervosa, sua pressão subiria e a do pai mais ainda, algo nem um pouco aconselhável para pessoas com 73 e 75 anos. Falaria com eles quando já estivesse com tudo sob controle.
Ligou para a única pessoa a quem poderia recorrer em um momento como aquele, sua melhor e mais antiga amiga:
- Está em casa?
Val a conhecia bem demais, percebeu de imediato que havia algo errado:
- Sim, estou. Sua voz está estranha, aconteceu alguma coisa? 
Não fez rodeios, falou logo, de uma só vez:
- Eu e a Laura estamos nos separando. 
As lágrimas escorreram enquanto tentava se justificar:
- Pensei em ir para um hotel, mas... Eu não queria ficar sozi..
Val não permitiu que completasse:
- Vem pra cá agora. Onde você está? 
Michelle riu de si mesma:
- Dentro do meu carro, na garagem do prédio ainda.
Omitiu que fazia quase uma hora que estava ali. A preocupação de Val estava impressa na voz dela:
- Está em condições de dirigir? Se quiser posso ir aí te buscar.
Deixou escapar um suspiro profundo antes de responder:
- Não, eu estou bem. Não precisa.
Não serviu para tranquilizá-la como Michelle queria. O tom de sua voz não permitia. Val praticamente ordenou:
- Então vem. Estou te esperando.
E Michelle imediatamente obedeceu, profundamente agradecida.
Conseguiu manter o controle durante todo o caminho, mas quando Val abriu a porta do apartamento não aguentou mais segurar, deixou que as lágrimas escorressem livremente. 
Val a puxou para dentro com todas as malas e bolsas que Michelle trazia e a recebeu com o carinho e a intimidade que os anos de amizade lhe conferiam:
- Chora. Pode chorar. Bota pra fora. Estou aqui pra isso.
A acolhida fez Michelle desabar aos soluços nos braços dela sem o menor pudor. Val apenas a amparou, em silêncio, até que a última lágrima caísse e o choro se extinguisse.
A única coisa que Val perguntou foi:
- Quer um café?
Oferta que, como bem sabia, para Michelle era irrecusável. Puxou-a pela mão:
- Vem, vamos pra cozinha.
Sentada em frente a Val, com a xícara fumegante na mão, Michelle contou tudo que havia acontecido. Val escutou sem disfarçar a perplexidade, tão grande que precisou expressá-la em palavras também:
- Nossa! Esperava isso da Laura, nunca de você. 
Apressou-se em deixar claro:
- Não me leve a mal, não estou te recriminando, só estou muito surpresa mesmo.
A preocupação de Michelle era outra:
- Você disse que esperava isso da Laura. Por quê?
Houve um instante de hesitação, em que Val pareceu ficar em dúvida se deveria ou não responder. Acabou optando pela verdade:
- Era meio óbvia a tensão da Laura, a forma que ela olhava pra garota.
O silêncio de Michelle disse tudo. Pareceu inacreditável para Val:
- Você não percebeu mesmo?
Michelle parou e se questionou. Foi honesta com Val e consigo mesma:
- Não sei... Talvez, mas... Não de forma consciente, eu... Eu não percebi que me sentia atraída pela Amanda também.
Saiu sem querer, Val não se conteve:  
- A girina da discórdia.
Mais do que ironia, na voz da amiga havia uma raiva e uma ferocidade indisfarçáveis, que Michelle não queria alimentar nem permitir: 
- A culpa não é dela.
Defender Amanda só serviu para Val ficar ainda mais indignada:
- Como não? A guria beijou a Laura, trepou com você, detonou o seu casamento! Vai querer me convencer que ela é uma coitadinha que não sabia o que estava fazendo? 
Por mais que concordar com Val fosse mais fácil e confortável, Michelle não podia, pois para ela, uma coisa era certa:
- Se a Laura não quisesse, elas nunca teriam se beijado. Se eu não quisesse, nós nunca teríamos feito sexo. Só aconteceu porque nós permitimos. Eu e a Laura éramos casadas e devíamos algo uma pra outra. A Amanda não. 
Nenhum argumento convenceria Val, ela estava irredutível:
- Nada disso que você falou faz ela ser menos escrota, vagabunda e putinha.
Michelle até entendia a postura da amiga. Ela estava apenas seguindo o que o senso comum dizia. Apontando a espada da acusação para a destruidora de famílias maldita, cravando a letra escarlate no peito da garota tentadora, incapaz de manter as pernas fechadas. Uma culpa unilateral que não resistiria a um olhar despojado de falsos moralismos. Medo. Na realidade, era isso que movia a amiga. 
Michelle se ateve a contestá-la de forma pacífica:
- Você não conhece a Amanda. Ela não é nada disso.
O olhar de Val para Michelle continha o mais profundo ceticismo:
- Conheço você. E sinceramente? Ainda estou tentando compreender.
E, realmente, nada daquilo era nem ao menos remotamente parecido com a forma habitual de Michelle agir. 
Depois de dar de ombros, Michelle deixou escapar um longo suspiro:
- Boa sorte. Por que eu ainda não consegui.


Quando a última aula terminou, Laura se deu conta de que não tinha mais como fugir, precisava encarar o que a esperava: o apartamento vazio. Reflexo de si mesma e das muitas noites solitárias que viriam.
Assim que entrou, livrou-se da bolsa, pasta e sapatos e acendeu todas as luzes. Sem, no entanto, diminuir a sensação de escuro. 
Buscou um pouco de alívio na garrafa de uísque. Serviu-se de uma dose dupla, que virou muito mais rápido do que pretendia. Voltou a encher e esvaziar o copo mais três vezes seguidas. Depois disso, a sobriedade que ainda mantinha finalmente esvaiu-se. Caminhou trôpega até a Jukebox e escolheu uma música capaz de fazer com que tudo aquilo finalmente explodisse. “Não Enche” de Caetano Veloso. Ironicamente, uma das preferidas de Michelle, impossível ouvir sem lembrar de milhares momentos inesquecíveis com ela... Que nunca mais se repetiriam.
Fez questão de constatar para si mesma, por mais que o pensamento lhe causasse a mais profunda, desesperada e lancinante agonia. 
Sofrer. 
Naquela noite, se permitiria.  
Cantou a letra inteira com ferocidade, completamente desafinada, sem conseguir alcançar as notas nem a compreensão do que havia acontecido. Não havia explicação, muito menos justificativa.
A filha de Elaine.
Riu da ironia cruel do destino. 
E da própria burrice. Por nunca ter imaginado que Michelle seria capaz de traí-la. Ela era e sempre tinha sido a mulher perfeita. Apaixonada, companheira, inteiramente íntegra. Acima de qualquer suspeita.
Pelo menos, era o que parecia.
A errada era ela, Laura. A que caminhava com dificuldade, se equilibrando como podia na corda bamba da monogamia.
Sem, no entanto, jamais ter caído.
Tinha bastado uma única noite sozinha com a garota. Linda, encantadora, deliciosamente sedutora, Laura tinha plena consciência disso. Aliás, sabia mais do que ninguém. Assim como conhecia as próprias fraquezas e probabilidades de desvio, o que tornava mais fácil se manter na linha. Mas Michelle... Michelle era o eixo, o centro, o próprio caminho. Como podia ter sido ela a estilhaçar em um milhão de pedaços tudo que haviam construído? Anos trocados por alguns segundos de prazer. Ou horas, ou minutos. 
A noite inteira, talvez...
A mente de Laura deu voltas, esperneou tentando escapar, abster-se do que estava por vir, mas foi inútil. A imaginação deu um triplo mortal e caiu de pé na sua frente, com imagens detalhadamente nítidas, torturantes e reais. Olhou para o sofá e conseguiu enxergar com perfeição as duas nuas e juntas ali. 
O celular começou a tocar. Num primeiro momento, Laura não ouviu. Continuou olhando fixamente para o vazio, preenchendo-o de forma completamente masoquista. 
Só depois lançou-se em direção ao aparelho, que já tinha parado quando afinal o alcançou. Não querendo e, ao mesmo tempo, desejando intensamente que fosse ela, transformou a suspeita em certeza ao ver o nome de Michelle no visor. Agindo sem pensar, seguindo apenas um impulso, retornou a ligação perdida. Foi imediatamente atendida:
- Oi? Alô? 
Ouvir a voz dela fez Laura fechar os olhos, atingida pelo sofrimento mais profundo, quase desesperador. 
Foi de uma maneira absolutamente carinhosa que Michelle perguntou:
- Como você está?
Tirando Laura da melancolia anterior. Respondeu com ironia:
- Como você acha que estou? Ótima!
Para Michelle, ficou clara a intensidade da dor que a agressividade dela continha. Exatamente por isso, preocupou-se:
- Eu vou para aí.
Dessa vez, Laura foi seca. E absolutamente verdadeira:
- Não venha. Você é a última pessoa que eu quero ver na minha frente.
Demorou algum tempo para Michelle ser capaz de interromper o silêncio que se ergueu entre elas:
- Laura, por favor... Me perdoa.
A reação de Laura foi imediata, espontânea e igualmente sincera. Soltou o ar de forma audível, num riso que era sarcástico, no mínimo:
- Você acha que é simples? Eu perdoo você e a gente segue de onde parou como se nada tivesse acontecido? 
Houve uma pausa antes de Michelle falar:
- Eu sei que não é simples. Mas nós podemos tentar.
Naquele momento, era o seu desejo mais profundo, precisava que ela soubesse, acima de tudo.
A proposta, feita num tom delicado, muito doce e suave, fez Laura ter a consciência plena do quanto Michelle ainda a afetava. Na própria fraqueza, encontrou força para rejeitá-la:
- Ah, Michelle, por favor!  Foi pra isso que me ligou? Isso é tudo que você tem pra me falar?
Não fez Michelle desistir, muito menos voltar atrás. Estava preparada para aceitar e acolher a raiva de Laura, estava disposta a implorar:
- Por favor, me escuta...
Laura não queria nem podia:
- Já escutei demais por hoje. 
Não suportava mais:
- Boa noite.
Movida pelo mais profundo desespero, Michelle ainda tentou chamá-la:
- Laura...
Em vão. 
Laura já tinha desligado.
Com uma lentidão resignada e sombria, Michelle depositou o celular no chão. A mesma com que chorou, até adormecer horas depois, deitada no sofá da sala de Val, sentindo-se inteiramente vazia.


Amanda queria protelar ao máximo, mas Bruno insistiu:
- Você tem que ligar pra sua mãe!
De forma tão incisiva, que acabou obedecendo. Escolheu as palavras com cuidado, pois se por um lado, ela nunca, jamais poderia sequer desconfiar da verdade, por outro, não queria mentir:
- Não posso mais ficar com a Laura e com a Michelle. 
Exatamente como esperava, a mãe a bombardeou de perguntas:
- Por quê? O que houve? Aconteceu alguma coisa?
Tinha a resposta pronta, na ponta da língua:
- Eu quero morar sozinha. 
Foi completamente ignorada. Pior, tratada como uma criança que pode ser enrolada e iludida com facilidade:
- Deixa o semestre terminar e aí conversamos.
Só que não era possível:
- Mãe, não dá pra esperar. Eu já peguei as minhas coisas e saí de lá.
O desespero do outro lado explodiu, era quase palpável:
- O quê? Como assim? Onde você está?
Tentou acalmá-la:
- Na casa de um amigo da faculdade.
Mesmo sabendo que era impossível. A primeira coisa que a mãe fez foi repreendê-la:
- Amanda, como você faz isso? Você não pode tomar uma decisão dessas sem me avisar! 
A censura foi seguida daquilo que Amanda mais temia:
- Me dá o endereço, estou indo agora mesmo para aí.



CONTINUA AMANHÃ...

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postado originalmente em 16 de Maio de 2017 às 18:00.








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2 comentários:

  1. k k k
    Val surta, não entende, procura pela amiga tão conhecida q esta perdida e Michelle defende Amanda...
    Laura sofre e Michelle defende Amanda...
    Amanda enfim liga para a mãe q exige, me dá o endereço q vou salvar a minha menina indefesa de fazer
    bobagem na vida...
    Se Elaine soubesse da realidade a metade?? O q seria da girina neste momento.
    Mais uma x mto bom...

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  2. Fui ali apagar um incêndio na minha vida pessoal e qdo volto a Diedra já pôs fogo na Internet com seu novo conto.
    "Só uma palavra me devora, aquela que meu coração não diz":maravilhoso! Como sempre Dileta escritora.

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