terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 18


Em questão de horas, Elaine estava em Florianópolis. Esperou por Amanda no estacionamento da universidade. O fato de ela se recusar a faltar à aula a fez ficar um pouquinho menos angustiada. Na verdade, sua maior preocupação não era essa. Com relação aos estudos, Amanda nunca tinha dado trabalho. O que realmente afligia Elaine era o real motivo da filha ter saído da casa de Laura.
Foi nesse momento que Amanda surgiu na frente do carro, acompanhada por um rapaz que bastou um único olhar para Elaine saber que era homossexual. Cumprimentou-o, aliviada em parte. Sem conseguir evitar pensar:
“Ao menos não está comendo a minha filha”.
Não que tivesse ilusões sobre Amanda. Sabia perfeitamente que, apesar de nunca ter namorado ninguém, ela não era virgem nem santa. O que a deixava feliz, pois não eram adjetivos que considerava positivos para uma garota de 18 anos.
Por outro lado, o amigo afeminado deixou Elaine no mínimo desconfiada. 
“Minha filha enfiada no universo gay”.
Talvez por isso o desejo de morar sozinha, sair do apartamento do casal de lésbicas? Era o que Elaine esperava.
Levou Bruno para casa, conheceu a mãe dele, estranhou o fato de ela ser cheia de tatuagens, mas ficou tranquila e profundamente grata por ter acolhido Amanda e por elogiá-la:
- Um amor de menina a sua filha.
Depois de um milhão de agradecimentos e de trocarem números de celulares, pegou as coisas de Amanda e a levou para um hotel.
Sozinhas no quarto, conseguiu finalmente perguntar:
- O que aconteceu?
Obrigando Amanda a mentir:
- Não aconteceu nada. Só não era confortável, nem para elas nem pra mim.
Não foi capaz de olhar a mãe nos olhos, muito menos disfarçar a própria tensão. Era perceptível. 
- Amanda, me fala a verdade. Seja qual for. Você sabe que pode confiar em mim.
Naquele instante, foi como se uma pequena brecha se abrisse. Amanda chegou a cogitar a possibilidade de contar. Não o que havia acontecido entre ela e Laura ou entre ela e Michelle, obviamente. Começaria pelo mais básico. A verdade sobre si mesma. Talvez a mãe desconfiasse ou até mesmo já soubesse. Sondou-a para descobrir: 
- Do que você está falando?
Quando Elaine a olhou nos olhos e sorriu, de uma maneira amorosa e acolhedora:
- Você sabe muito bem.
Sentiu-se ainda mais incentivada. Preparou cada célula de seu corpo para confirmar: “Mãe, eu sou lésbica”. Mas foi interrompida antes que pudesse ter a revelação concretizada.
- A Laura ou a Michelle... Alguma das duas tentou algo com você?
Elaine falou no tom sussurrado que se usa para falar sobre algo indizível, que não pode nem deve ser mencionado. Amanda rastejou dentro de si mesma, buscando algo em que pudesse se apoiar, a coragem que tivera ao se entregar a Michelle e para esperar pela reação de Laura, mas o preconceito nem um pouco velado e a própria presença da mãe a prendiam a sentimentos que não conseguia evitar. Espremida por toda vergonha e culpa que carregava, refém do medo que lhe impunha a certeza de que não poderia nem deveria mostrar quem era de verdade, enfrentou-a com uma indignação real:
- Que absurdo! Se é isso que você pensa, não deveria ter me deixado morar com elas, em primeiro lugar.
O motivo estava longe de ser o que Elaine pensava. Defendê-las era como defender a si própria, não se tratava absolutamente de encontrar vítimas ou culpadas. Não existia abuso de nenhum dos lados. Havia consentimento e reciprocidade em cada um dos atos praticados. No entanto, a mãe jamais entenderia, tampouco aceitaria. Culparia Michelle e Laura e a levaria de volta. E isso era a última coisa que queria. Não precisava ser salva. Sua real necessidade naquele momento era algo que ninguém poderia lhe proporcionar. Parar de agir sem pensar, se responsabilizar e enfrentar as consequências de seus atos. Olhar para dentro de si mesma, descobrir o que estava sentindo e o que realmente desejava. 
Elaine a surpreendeu, dando o assunto por encerrado:
- Vamos fazer o que deveria ter sido feito desde o início: alugar um apartamento pra você.
Não poderia haver um alívio maior para Amanda:
- Na verdade eu já andei vendo alguns lugares. Tem um conjugado vazio no prédio de um colega bem perto da universidade.
Imediatamente contagiada pela empolgação da filha e orgulhosa por ela estar mostrando independência e iniciativa, Elaine sorriu:
- Então amanhã vamos lá ver. 
Abraçou Amanda, a beijou e apertou como fazia quando era pequena:
- Agora quero aproveitar pra matar a saudade da minha filhinha!
Por mais que Amanda e Juliana estivessem crescendo e virando adultas, para ela sempre seriam suas duas crianças. Os seus bebês.


Durante a manhã inteira, Michelle tentou se preparar para aquele momento. Percebeu que não estava pronta assim que Laura entrou na sala, cumprimentou a todos e, durante toda a reunião do núcleo de pesquisa e extensão, só a olhou quando estritamente necessário. O fato de vê-la, sem tê-la. Quase como uma presença fantasma, espectro de um passado irrecuperável, e o sofrimento que isso causava, era quase insuportável.
Por mais que Laura preferisse não se encontrar com Michelle, foi impossível evitar. Trabalhavam juntas, acabaria acontecendo mais cedo ou mais tarde. Claro que eram adultas e civilizadas o suficiente, o problema não era esse. A verdadeira dificuldade era ser capaz de manter a dor num limite tolerável. Talvez um dia fosse possível, mas não naquela tarde. Assim que a reunião terminou, pegou suas coisas e foi embora para casa.
O celular tocou segundos depois que fechou a porta. Olhou para a tela do aparelho resolvida a ignorar, mas como não era quem esperava, acabou atendendo. Afinal, se devia algo a alguém, era uma explicação para Elaine.
Alguns minutos depois, estavam frente a frente. A expressão de Elaine mudou assim que colocou os olhos em Laura, a conhecia bem demais, o suficiente para não fazer rodeios:
- Onde está a Michelle?
Laura não tinha razão para mentir:
- Estamos nos separando. Ela saiu de casa. 
A informação inesperada fez Elaine retroceder em quase tudo que tinha pensado em falar e perguntar. Já não importava, ou melhor, era desnecessário, a razão de Laura não ter ligado avisando que Amanda tinha se mudado estava clara. Bem como o desconforto da filha em permanecer ali e sua recusa em dar uma justificativa mais exata. O clima entre as duas e dentro daquele apartamento devia ter se tornado no mínimo desagradável. O motivo do término era a única coisa que ainda ignorava:
- O que você fez?
Laura olhou para Elaine com a mais absoluta perplexidade. Logo depois, o sentimento se transformou em uma mistura feroz de revolta, indignação e raiva:
- A culpa é minha, é isso que você acha?
Passou as mãos nos cabelos, jogando-os para trás e riu, com um sarcasmo amargurado. De si mesma, da ironia cruel da situação, de Elaine, querendo opinar estupidamente sobre um assunto a respeito do qual - exatamente como sobre a própria filha - não sabia nada. Poderia facilmente tirá-la de seu lugar tão confortável, para acabar com a ignorância dela bastava dizer a verdade. Por um momento derradeiro, se sentiu tentada a contar. Não passou de um instante breve, que rapidamente passou. Por mais que estivesse magoada e se sentisse traída, ainda amava Michelle e não podia nem iria expô-la. 
- Laura, me desculpe... Eu fui insensível, você deve estar arrasada... Eu sinto muito...
Enquanto falava, Elaine avançou para ela e a tomou nos braços. O contato levou Laura a um estado completamente diferente. Fechou os olhos, se deixou embalar e confortar, as lágrimas escorrendo junto com as palavras e o sentimento que desabafou:
- Eu não sei como viver sem ela... Nem o que fazer com essa dor...
A intenção de Elaine era ajudar:
- Tem certeza que é definitivo? Será que...?
Mas não existia nada que ela nem ninguém pudesse fazer, dentro de Laura não existiam dúvidas, questionamentos nem reticências:
- Não tem volta.
Apenas uma certeza dolorosamente sólida.


Apesar de achar que Laura não diria nada, impossível para Amanda deixar de ficar nervosa e preocupada ao saber que a mãe tinha ido procurá-la. Só conseguiu se tranquilizar e ter certeza depois que ela voltou, agindo da forma habitual. A primeira coisa que Elaine fez quando entrou no quarto de hotel foi perguntar:
- Por que você não me contou que Laura e Michelle se separaram?
Disfarçou como pôde a reação imediata que a revelação lhe causou:
- Eu não sabia.
Ficou esperando pelo que a mãe certamente lhe daria: mais informação.
- Michelle saiu de casa e Laura está completamente arrasada. Bom, agora que você as conhece melhor, deve imaginar.
A única coisa que Amanda conseguiu dizer foi:
- Sim.
Enquanto internamente se recriminava e tentava reprimir o sentimento que não deveria, mas já a tinha tomado. Tão inaceitável que se recusou a identificá-lo ou nomeá-lo.


Foram dias terríveis para Michelle, a semana se arrastou, pareceu durar uma eternidade. Conteve como pôde a vontade e a necessidade de ligar para Laura, pois sabia que ainda não era o momento de voltar a procurá-la.
Ao mesmo tempo em que queria dar o espaço e o tempo que ela precisava, não poderia continuar muito tempo daquele jeito, com a própria vida em suspenso, morando de favor no apartamento de Val.
A amiga tinha uma posição clara:
- Vocês não são mais crianças. Precisam conversar, resolver a parte prática, financeira e material. Tudo que vocês compraram e construíram juntas pertence às duas. Essa história de “dessa casa eu só vou levar o meu violão e o nosso cachorro” fica muito bonita na música, mas não na vida real. Não importa o que você fez, a Laura não pode deixar você sair desse casamento com uma mão na frente e outra atrás, não é justo com você.
A última coisa que Michelle queria era pensar em divisão de bens. Quando acontecesse, seria o fim definitivo, não haveria mais qualquer possibilidade de retorno, e isso era algo para o qual não estava pronta nem podia aceitar:
- Val, eu entendo e agradeço a sua preocupação. Mas eu só quero uma única coisa: ter a Laura de volta. O resto não me importa.
Afirmou com uma convicção tão passional que fez Val se calar.


Em questões de dois dias, Amanda já estava devidamente instalada no apartamento que a mãe tinha alugado. Como a mudança foi no sábado, o pai e a irmã vieram de Rio do Sul para ajudar. Na verdade, muito mais para estarem juntos, ver como ela estava e matar as saudades, já que o conjugado era todo mobiliado e na véspera a mãe já o abastecera com tudo que seria necessário. As únicas coisas que Amanda teve que levar foram a mochila, a mala e o resto das roupas e algumas caixas que a mãe tinha trazido no dia em que estivera com Laura.
De noite, depois de jantarem e conversarem, os pais foram para o hotel, mas Juliana preferiu dormir no apartamento de Amanda. Assim que ficaram sozinhas, virou-se para ela e foi direta:
- Pode começar a falar. Me segurei o dia inteirinho, estou louca pra saber. 
Amanda tentou se fazer de desentendida:
- Falar o quê?
Óbvio que com a irmã gêmea, nunca iria funcionar:
- Você pode enrolar o pai e a mãe, mas a mim você não engana. Essa história tá muito mal contada. Você tá super estranha, Amanda. Aconteceu alguma coisa.
Não tinha como nem por que negar. Juliana era sua eterna confidente, aquela de quem nunca tinha escondido nada. Sentou-se de frente para ela no sofá cama e contou tudo com riqueza de detalhes, cada momento, impressão e sentimento como se voltasse a vivenciá-los. Quando terminou estava chorando, num misto de confusão, culpa, vergonha e medo do que a irmã iria pensar. 
Juliana não escondeu o quanto estava assombrada. Deixou evidente durante toda a narrativa, na expressão de seu rosto e nas interjeições que vez por outra deixava escapar. Mas bastou ver a irmã chorando para sua atitude mudar. Abraçou Amanda com a mesma sinceridade com que confessou:
- Não sei o que te dizer. 
Era um fato inédito. Deixar Juliana sem palavras. Só serviu para que o desespero de Amanda aumentasse ainda mais:
- Tá achando que eu não valho nada, né? Eu sou a maior vagabunda, a pior pessoa do mundo, pode falar.
Juliana demorou um tempo que pareceu uma eternidade antes de responder, afinal:
- Ai, Amanda... Quem sou eu pra te julgar? Mas não tenho como achar o que você fez legal nem normal. Você acabou com o casamento delas. Tem noção?
A mudez de Amanda veio acompanhada de mais lágrimas. Mas desta vez, o choro não teve o poder de comover a irmã. Precisava esclarecer o que realmente a incomodava e preocupava:
- O que você sente pela Michelle?
A perspicácia dela não surpreendeu Amanda. Juliana a conhecia, sabia distinguir a menor mudança de respiração, entonação ou olhar. O jeito que tinha descrito os momentos passados nos braços dela e o carinho com que havia sido tratada depois, até mesmo a forma de dizer o nome de Michelle, continha uma diferença que a irmã jamais poderia ignorar. Foi absolutamente sincera:
- Não consigo parar de pensar nela.  
Parou e respirou, tomando coragem de confessar para si mesma:
- Estou completamente apaixonada pela Michelle.

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postado originalmente em 17 de Maio de 2017 às 18:00.








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4 comentários:

  1. Comentar este cap. ainda mais com essa última frase na cabeça. Vai ser longoooo...
    Amanda girina safada saiu de Rio do Sul amando Rafaela, chega em Florianópolis e beija
    Laura trepa com Débora e Marina e como um triunfante desenrolar com Michelle acabando
    assim com o casamento de quem lhe deu pousada na capital. Qtos meses passaram? 4, 6??
    E Amanda girina safada RESOLVE que está apaixonada por Michelle??? Nada inconstante a
    girina né? Elaine chega como um furacão, pronta para culpar Laura e Michelle (qta ironia)
    de maus tratos a sua filhinha e como não tem motivos para isso não consegue ver o q está
    na sua frente. Tão cega q não percebe q Amanda girina safada estava pronta para deixar o
    armário ao menos para ela. E como esquecer q AMIGA é Elaine. Rainha em apontar, em magoar.
    Como não sente o qto a amiga está sofrendo??
    Mais um cap. sensacional...
    Isso q nem falei de Michelle x Laura...
    Sabe como é, isso se trata de m comentário e não de uma dissertação.

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  2. Rindo do comentário de Rê, falou tudo kkkk Apesar de achar Amanda a menos culpada nesta histöria, com 18 anos esta na idade de uma certa volubilidade e iresponsabilidade, mas tb já enerva tanto egocentrismo, ela já se podia dar conta do efeito dramático que as suas acçőes tem, e não é agora imaginar-se apaixonada, ela deve gostar de drama na vida dela, e de causar estragos, idade da parvalheira...pobre Michelle que ainda vai ter de aturar mais essa...O meu casal esta irredutīvel, nas suas resoluções, que são contrárias, Michelle quer voltar mas Laura não quer volta nenhuma...Esta histöria ainda vai ter que dar mta volta...Capitulo Perfeito, uma a pensar que a vinda de Elaine ia aumentar o caos, mas não, essa continua no seu mundinho de faz de conta que não quer ver o que a rodeia...No próximo vamos ver na pratica e no confronto para onde nos vai levar tanta determinação ;)
    Bjs :)

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  3. Gente, agora a Laura e a vítima, mas esqueceu q beijou a girina, isso tbm é trair, esqueceu do q sentia pela Amanda, as coisas q pensava, e agora é a única injustiçada. Fala sério, né?!
    Eu sou #temMichelle declarada, essa determinação dela, o que jeitinho... Aí!!
    Ah, nos poupe né, Amanda! Pessoa covarde e mais volúvel de sentimentos tô pra conhecer, sei é bem difícil o q ela fez, q falar isso pra mãe é pior, mas ela poderia ser mais sincera, poderia mostrar um pouco mais de coragem e contar a mãe, pelo menos, q é lésbica e tirar um pouco o peso das costas.
    Minha xará só me envergonha... Rsrs
    Bjo, Di! :*

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