terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 20


Amanda chegou atrasada na aula naquela segunda feira. Pediu desculpas para a professora, entrou na sala e se atirou na cadeira que Bruno tinha guardado ao lado dele. Sentiu o olhar de Marina fixo nela, mas fingiu que não percebeu.
No intervalo, desceu sozinha para a cantina. Enquanto esperava o café esfriar, mandou uma mensagem de “bom dia!” para Michelle no whatsapp. Ela não respondeu nem visualizou. Provavelmente só o faria de tarde.
Uma coisa puxou outra e começou a divagar, pensando se Michelle responderia e, se respondesse, o que diria. Óbvio que nada nem perto do que Amanda desejava, mas naquele momento se contentaria com qualquer retorno que não a rejeitasse.
Estava tão perdida nos próprios devaneios que só percebeu a presença de Marina quando esta se sentou na sua frente:
- Você está bem? Aconteceu alguma coisa? Não te vi mais em lugar nenhum. 
Estranhou, pois só tinha ficado um único final de semana sem sair. A única explicação possível era inconcebível:
- Você me procurou?
A resposta de Marina foi mais inacreditável ainda:
- Talvez.
Ela sorriu para Amanda de um jeito que, há exatamente uma semana, seria irresistível. Mas depois de Michelle, todo o resto parecia sem sentido. 
- Eu estou aqui.
Marina sustentou o olhar de Amanda e voltou a surpreendê-la:
- Na verdade, eu queria me desculpar pelas coisas que te falei naquele dia. Eu realmente gosto de você. Só não estou numa vibe de me amarrar. Nada pessoal.
Amanda deixou escapar um suspiro:
- Tudo bem. 
Não estava mentindo. Depois de seu último encontro com Marina, sua vida havia virado de pernas para o ar. Não que a culpasse. Marina não tinha nada a ver com o que tinha acontecido, Amanda sabia perfeitamente que era a única responsável por seus atos e escolhas precipitadas. Por sempre agir sem pensar. Um hábito difícil de mudar. Tanto que, naquele momento, não fez diferente:
- Eu é que ando numa vibe em que as mulheres só me querem pra trepar.
Arrependeu-se antes mesmo de terminar a frase:
- Desculpa, não é com você. Estou passando por uma situação meio complicada.
O sorriso de Marina foi sincero:
- Tranquilo. Quem nunca?
Ofereceu com uma simpatia inteiramente amigável, sem segundas intenções por trás:
- Se quiser conversar, podemos nos encontrar depois da aula.
A despeito disso, Amanda não podia aceitar. Deu a primeira desculpa que lhe veio à cabeça:
- Não dá, preciso estudar.
No fundo, tinha esperança de que Michelle quisesse encontrá-la. Marina se pôs de pé:
- Se mudar de ideia, sou PhD em situações complicadas. Especialmente se for com mulher.
E piscou de forma absolutamente cúmplice para Amanda antes de se afastar.


Michelle só viu a mensagem de Amanda na hora do almoço. Tinha perdido toda e qualquer esperança de Laura entrar em contato, por isso havia deixado o celular no silencioso dentro da bolsa durante toda a manhã.
Não abriu a conversa no whatsapp, pois se a visualizasse teria que responder e não estava com a mínima vontade. Além disso, precisava manter o foco em seu objetivo. Procurou Laura e a encontrou exatamente onde sabia que estaria. Em meio a um monte de papéis e livros na sala dela.
Não entrou, falou da porta mesmo:
- Tudo bem aí? Precisa de ajuda?
Laura ergueu a cabeça e a olhou por cima dos óculos. Não devolveu o sorriso:
- Não, obrigada.
Ignorando a falta de receptividade dela completamente, Michelle continuou sorrindo:
- Pensei que talvez você quisesse almoçar comigo.
Convite que Laura considerou absurdo, totalmente sem sentido, mas que a desestruturou um pouco. Deu a primeira desculpa que lhe veio à cabeça:
- Já almocei. 
Apesar de saber perfeitamente que ela estava mentindo, Michelle não se deu por vencida:
- Quem sabe outro dia?
Foi cortada por Laura de uma forma quase ríspida:
- Tchau, Michelle.
Despediu-se com o tom mais doce e amoroso que conseguiu:
- A gente se vê por aí...
Depois que Michelle saiu, Laura continuou olhando para a porta durante algum tempo, imersa em pensamentos e recordações longínquas. Pois ela havia acabado de repetir o que fazia vinte anos atrás, quando haviam se conhecido, Michelle ainda no mestrado e Laura terminando o doutorado. Tinha sido assim, com uma persistência suave e não muito sutil, que Michelle conseguira com que, primeiro, Laura reparasse que ela existia e, depois, a seduzira e conquistara de uma maneira avassaladora.
Aquele início era uma lembrança deliciosa, uma das melhores que Laura possuía. Na época, Michelle tinha feito a dor do amor não correspondido por Elaine diminuir a ponto de praticamente não mais existir. Uma sensação que seria de novo irresistível, se a recém adquirida dor causada pela própria Michelle não a impedisse.


No final da tarde, depois que a última aula terminou, Laura conferiu o celular e se assustou ao se deparar com cinco ligações de Elaine. Na mesma hora retornou. Pelo tom de voz que ela usou, soube de imediato que não se tratava de nada grave como havia suposto.
- Estou ligando pra saber como você está.
Laura respondeu rápido, queria mudar logo de assunto:
- Melhor. Nada como o tempo, não é?
A amiga a conhecia o suficiente para fazer o que Laura desejava:
- É verdade.
Além disso, o motivo real da ligação era outro:
- Naquele dia não consegui falar com você direito, eu acho que ainda não te agradeci como deveria. Obrigada por ter recebido a Amanda na sua casa, eu e o Ricardo seremos eternamente gratos pelo que você fez por ela.
Impossível para Laura deixar de pensar que os dois não estariam tão gratos se soubessem o que tinha acontecido. Não seria ela a contar:
- Não precisa me agradecer, Elaine. Fiz o que qualquer amiga faria. Nada demais.
Soou tão irônico que acabou fazendo Elaine perguntar:
- Laura, me fala a verdade. A Amanda te causou algum problema? Ela deu algum trabalho, criou alguma dificuldade entre você e a Michelle? Minha filha tem alguma responsabilidade na separação de vocês?
Era algo que Elaine havia ruminado nos últimos dias, pois apesar da desculpa de estarem mal por causa da separação, parecia estranho - no mínimo - o fato de Amanda não mencionar Michelle nem Laura e que nenhuma das duas a tivesse procurado para saber onde e como estava. Evidente que algo não estava certo.
A primeira reação de Laura foi a de sempre. Tentou tranquilizar Elaine:
- A responsabilidade por uma separação pertence única e exclusivamente às duas pessoas envolvidas, não acha? 
Não estava mentindo. Tinha plena consciência de que Amanda tinha apenas aproveitado uma brecha que já existia. No entanto, Laura era humana. Não resistiu:
- Com relação ao trabalho que a Amanda nos deu, melhor você perguntar isso pra ela.
Lançou sabendo perfeitamente que Elaine engoliria a isca:
- Por quê? O que você quer dizer?
Falou não somente para abrir os olhos da amiga, mas também para tornar a vida de Amanda ao menos um pouco mais difícil:
- Se eu fosse você monitoraria a sua filha mais de perto. 
Depois do silêncio absolutamente incômodo que se seguiu, Elaine tentou recuperar o tom de normalidade anterior, mas não conseguiu. Foi de um jeito bastante constrangido que falou:
- Também estou preocupada com a Amanda. Por isso vou te pedir mais um favor. Vou te mandar o endereço dela. Caso aconteça alguma coisa, você é a pessoa em quem eu confio.
Assim que desligou, enviou uma mensagem no whatsapp com o nome da rua, número do prédio e do apartamento. Durante um instante que pareceu infinito, Laura ficou olhando para o que estava escrito naquele balãozinho branco, tentando decidir se deveria ou não atender ao que cada célula do seu corpo estava exigindo.


Amanda estava terminando de enxugar os cabelos quando o interfone tocou. Pendurou a toalha no box antes de atender, achando que só poderia ser engano. Surpreendeu-se e assustou-se ao descobrir que não:
- Sou eu, Laura. Quero conversar com você.
Era algo que não poderia recusar nem evitar. Mas precisou de toda a coragem que tinha para abrir o portão e dizer:
- Pode subir. 
Esperou-a com a porta aberta, encostada no batente, o coração completamente acelerado, a boca seca e as mãos trêmulas. Não demorou muito, logo depois Laura galgou o último lance de escadas e ficaram frente a frente. Amanda tentou disfarçar o nervosismo em que se encontrava, em vão. A voz saiu falhada e fraca:
- Obrigado por não ter contado pra minha mãe.
Laura a olhou de cima a baixo antes de responder:
- Não fiz por você.
Entrou, parou no meio da sala, esperou Amanda fechar e trancar a porta e só depois se virou para ela novamente:
- Conseguiu o que você queria? Atingiu seu objetivo? Afinal de contas, qual era a sua intenção? 
Amanda respirou fundo. Sabia que não seria fácil. Só não esperava que Laura fosse tão direta. Na verdade, nada poderia prepará-la para aquilo, era um embate completamente desigual. Mas tinha consciência plena de que o merecia e que era preciso. Respondeu com a maior serenidade possível:
- Nada que aconteceu foi planejado e você mais do que ninguém sabe disso.
A raiva de Laura não a permitiu ser mais contida:
- Ah, não foi planejado? Poderia ser comigo ou com ela, tanto fazia? Quem entrasse no seu joguinho, quem caísse primeiro serviria?
Existiam várias respostas possíveis. Mas permaneceu calada. Devia isso a Laura. Apenas ouvi-la.
- Só por curiosidade, você a seduziu da mesma forma que fez comigo?
Impossível para Amanda permanecer impassível. Mais do que injusto, não era verdade, nunca tinha feito nada proposital, tudo havia sido recíproco.
- Eu não te seduzi. Nem a ela.
A resposta de Laura veio acompanhada de uma risada irônica:
- É. Realmente, você não tem esse poder. 
Mergulhada no turbilhão de angústia, ciúme e dor que a consumia, queria humilhá-la, precisava feri-la do mesmo jeito. Foi mais cruel ainda:
- Aconteceu porque ela quis. Afinal, convenhamos, pegar uma garota novinha foi uma forma de recuperar a juventude. A Michelle usou você, já que era fácil, estava à mão mesmo.
Amanda fechou os olhos, contou mentalmente até dez e só depois conseguiu engolir a resposta que tinha na ponta da língua. Não se sentia absolutamente usada, muito pelo contrário. Pois Michelle havia sido intensa, carinhosa e gentil ao extremo. Maravilhosa e perfeita. Antes, durante e depois do sexo.
Exatamente por isso, acabou confessando:
- Eu estou apaixonada pela Michelle.
Havia um misto de despeito, sarcasmo e raiva inegáveis na voz de Laura, ela foi mordaz ao indagar:
- Mesmo? Isso aconteceu antes ou depois do sofá da minha casa?
O choque e a surpresa de Amanda ao ouvir o detalhe que só Michelle poderia ter contado, fez Laura recuperar a própria confiança:
- Me diz uma coisa, criança. Você realmente acha que vai conseguir algo com a Michelle?  Que ela vai querer alguma coisa com você além de sexo?
Dessa vez, Amanda não aguentou. Sustentou o olhar de Laura e a enfrentou:  
- Eu estou disposta a dar o que ela quiser de mim. E você?
Pela forma que os olhos de Amanda brilharam, Laura soube que ela não estava brincando nem mentindo. Assustou-se um pouco com o ardor desenfreado da paixão da outra, tão distante da sua própria. Seu amor por Michelle tinha outro tom, como a superfície serena e segura de um lago ou uma brisa suave. Nunca havia sido nem remotamente parecido com um mar revolto ou um furacão. Comparação que fez com que toda a sua certeza ruísse. 
Por mais que quisesse e devesse, era impossível ignorá-la. Para Laura estava claro que, de uma forma ou de outra, era incontestável, Amanda possuía algum poder sobre Michelle. A ponto desta ter se deixado levar tão completamente, arriscando jogar fora a relação das duas e o próprio casamento.
Olhou bem para Amanda, avaliou-a cuidadosamente. Até compreendia o fato de, assim como ela, Michelle ter se sentido atraída. Mas isso não mudava nada, sequer minimizava o que Laura estava sentindo. 
Falou alto, como se deixasse escapar o pensamento:
- Eu nunca vou perdoar o que ela fez.
Durante um instante, as duas se olharam, em silêncio. Com uma estranha cumplicidade, a afinidade inexplicável que existia entre elas desde sempre. A mesma que levou Amanda a deixar tudo de lado, até mesmo o próprio interesse, para afirmar:
- Ela perdoaria você.
Incapaz de ficar um minuto a mais naquele apartamento, Laura caminhou até a porta, a destrancou e a abriu. Antes de sair, disse apenas:
- Eu sei.


CONTINUA AMANHÃ...

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postado originalmente em 23 de Maio de 2017 às 18:00.








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Um comentário:

  1. Eu desde o início que tento gostar da Laura mas ainda não consegui, e esta cada vez mais difícil ver pelo lado dela. Então vai-me de propósito a casa da Amanda para a magoar?? A resposta dela ao que lhe esta a acontecer é isso??? É ir lá e enfrentar Amanda culpando-a??? Até Amanda não tem sido tão infantil, tem conseguido ler bem a situação em que se meteu... Quanto a Laura parece-me de orgulho ferido, ela ainda não assumiu a sua responsabilidade no assunto. Ela tb se sentiu atraída e traiu.E em vez de analisar e refletir sobre o que levou à sua separação, assume-me o papel da vitima, intransigente, não dando nenhuma oportunidade de mudança... Ela deve gostar de ser amada , mas sera que ama Michelle? e estará disposta a lutar por esse amor??? Não tem demonstrado isso, Michelle falhou não tem perdão??? Mas pensando bem se Laura não lutou por Elaine sera que vai mudar as suas atitudes agora e olhar de verdade para Michelle e ver o que dali pode vir... Laura esta-me a dar nos nervos ... Michelle por seu lado conquistou-me de vez a tentativa de aproximação a Laura perfeita, ela esta a voltar ao início, tentando resgatar a sua relação, tentando descobrir onde falhou.Esta sim tenta aprender com os erros...
    Vamos ver o que nos espera hj...É um prazer tentar descortinar as tuas personagens ;) Uma só ganha em mergulhar no mar de possibilidades que elas nos dão...
    Bjs ;)

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