terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 21


Laura desceu aquelas escadas e saiu do prédio sem saber como. Quando deu por si, estava dentro do carro, as mãos fortemente agarradas ao volante, como se a pressão dos dedos fosse capaz de conter as lágrimas que escorriam. 
Respirou fundo, enxugou o rosto, girou a chave na ignição e dirigiu sem destino certo, vagando pelas ruas com os vidros abertos, o vento no rosto lhe proporcionando um pouco de alívio. 
Só muito depois foi para casa. Precisou de toda a coragem que tinha para voltar ao apartamento completamente vazio. Acendeu as luzes da sala, ligou a Jukebox e a voz de Roberta Flack cantando “Killing me Softly” a preencheu, satisfazendo seu propósito inteiramente masoquista. 
Alimentar o próprio sofrimento. 
Era o que queria.
Foi o que conseguiu.
Dançando de olhos fechados, sozinha no meio da sala, com um copo de uísque na mão, até não ser mais capaz de separar o choro do riso. Derramou ambos, sem distinção, até que se tornassem uma coisa só.
O desejo incontrolável de ligar para Michelle surgiu e quase a tomou. Se a chamasse, ela viria. 
Tinha plena consciência disso.
Se.
Era exatamente o fator condicional que a impedia. Pois se Michelle viesse, o que ela, Laura, faria? Uma linha tênue, perigosamente ínfima separava as vontades que antagonicamente brigavam dentro de si. Beijar, bater, amar, matar Michelle. 
Queria e ela bem que merecia. 
“Ela te perdoaria.”
Uma vez mais, a frase de Amanda ecoou, tornando a possibilidade de redenção cada vez mais impossível. O simples fato de ser ela, a garota com quem Michelle a tinha traído, a lhe dizer isso descartava toda e qualquer possibilidade de absolvição, pois Amanda era a única que não podia nem deveria conhecer Michelle a ponto de afirmar isso com tamanha certeza. 
Foi com a ira criada pelo último pensamento que pegou o celular e ligou. 


Depois que Laura saiu, Amanda reprimiu o impulso que teve, pois Michelle sequer havia respondido ao "bom dia" que enviara pela manhã. Não fazia sentido algum ligar, por mais que quisesse. 
Pegou o celular e se surpreendeu ao encontrar uma mensagem dela. Nada demais. "Boa noite. Só vi sua mensagem agora. Tudo bem com vc?”. Formal o suficiente para deixar claro do que realmente se tratava: um retorno por pura educação.
Apesar disto, aproveitou a deixa, não só pela própria necessidade de qualquer tipo de contato com ela, por menor que fosse, mas também porque Michelle precisava saber: “Laura acabou de sair daqui”.
Em questão de segundos, Michelle ligou. Amanda não teve tempo de dizer nada, assim que atendeu foi bombardeada:
- Você está bem? O que ela te falou? A Laura foi rude com você? Ela te ofendeu?
De forma absolutamente bem-humorada, Amanda a tranquilizou:
- Ela não disse nada que não fosse verdade. E que eu não merecesse.
Encorajada pelo carinho e preocupação de Michelle, sempre tão evidentes, acabou completando:
- Falei pra Laura que estou apaixonada por você.
O tom de Michelle mudou completamente. Mais do que exasperada, ela estava furiosa:
- Amanda, por quê? Pra quê?
Não houve hesitação alguma por parte de Amanda:
- Ela foi sincera comigo, achei que eu também deveria ser.
No entanto, nem toda a convicção do mundo parecia capaz de demover Michelle:
- Como eu te disse antes, você não está apaixonada, só está querendo uma desculpa. Justificar, “tornar mais nobre” o que aconteceu. 
Foi Amanda quem se indignou desta vez:
- É, realmente. Uma pessoa da minha idade – ou melhor, com a minha pouca idade – é incapaz de se apaixonar de verdade por alguém. Pra ser real, quantos anos mesmo eu preciso ter?
A voz de Michelle retomou a suavidade de sempre:
- Não foi isso que eu disse. Só acho que você está confundindo as coisas.
A passionalidade doce e abrasadora com que Amanda falou:
- É tão difícil assim? Acreditar que você é maravilhosa e que é muito fácil se apaixonar por você?
Provocou em Michelle um efeito involuntário e completamente contraditório. Tentou contestar: 
- Amanda, por favor...
Mas o protesto fraco e rouco soou como o que realmente era e significava: o oposto. Só serviu para estimular ainda mais Amanda:
- Sabe porque você não acredita? Por que a Laura é uma imbecil que nunca te deu o valor merecido!
Arrependeu-se do que havia dito assim que terminou a frase. Michelle reagiu exatamente como previa:
- Agora chega. Você já ultrapassou todos os limites. 
O que realmente doeu em Amanda não foi a maneira como Michelle falou, mas a negação como um todo.
- Espero que um dia você enxergue a verdade. Não sou eu que estou confundindo as coisas.
Despediu-se e desligou, sabendo perfeitamente que não havia nada que pudesse fazer ou dizer naquele momento.
Ficou andando em círculos dentro do minúsculo apartamento. Precisava falar, desabafar com alguém. No entanto, sua confidente habitual já não servia, pois duvidava que a irmã pudesse compreender. Na verdade, ela só ficaria mais chocada do que já estava. Pensou em Bruno, mas logo depois desistiu, pois como conselheiro, ele era um excelente ouvinte. O nome da pessoa certa surgiu como uma luz repentina: Marina. Mandou uma mensagem e foi imediatamente respondida. Depois que marcaram no bar de sempre, Amanda se vestiu e saiu. 


Michelle tinha acabado de desligar quando o celular tocou. Primeiro, achou que era Amanda de novo. Atendeu quase correndo, numa felicidade louca, assim que viu o nome no visor:
- Laura? Oi!
Assustou-se quando Laura disparou, parecendo totalmente fora de controle:
- Vocês têm se falado? Têm se encontrado? Ela te ligou?
A voz de Laura e o jeito que falou, enrolando a língua, deixou claro que ela havia chorado e também que tinha bebido. Michelle usou o tom mais carinhoso e apaixonado possível:
- Do que você está falando, meu amor?
Apesar de ser óbvio, só poderia ser sobre uma única coisa:
- Você está sabendo que eu conversei com a Amanda agora há pouco?
A despeito de tudo, Michelle não podia nem iria mentir:
- Sim.
A risada de Laura ecoou, tão sarcástica quanto a forma como ela afirmou: 
- Eu sabia. Eu tinha certeza.
Michelle também sabia. O que Laura estava pensando e o que parecia. Bem como o que Laura esperava dela. Mas parar de falar com Amanda era algo que não podia fazer, sentia-se responsável, devia isso a ela, por que... Por que... 
O questionamento trouxe uma lacuna que preferiu ignorar, pois preenchê-la era totalmente inconcebível:
- Isso não quer dizer nada.
A voz de Laura continha uma tristeza profunda:
- Pelo contrário, minha querida. Isso diz tudo.
E desligou, deixando Michelle mergulhada num desespero intenso e obscuro.


Assim que Amanda entrou no bar, viu Bruno e Débora sentados em uma das mesas. Pensou em voltar e mandar uma mensagem para Marina, mas foi impossível evitá-los, já tinha sido vista. Acenou de volta e caminhou em direção aos dois forçando seu melhor e mais simpático sorriso.
- Ué, você não disse que não vinha?
Bruno perguntou em seu ouvido, para que apenas Amanda ouvisse, ela respondeu do mesmo jeito:
- Você viu a Marina?
Ele riu:
- Entendi. Safadeenha...
Só depois que a soltou informou:
- Ela ainda não chegou.
Débora parou de fingir que não estava prestando atenção:
- Ela quem?
No exato momento em que Marina surgiu:
- Oi, gente!
Bruno e Amanda a saudaram de volta:
- Oi!
E Débora imediatamente se levantou:
- Com licença.
Marina não esperou que ela se afastasse, falou propositalmente alto, para que Débora a ouvisse:
- Nossa... O que que eu fiz pra essa garota?
Amanda deixou escapar um suspiro e Bruno riu:
- Digamos que ela tem motivos bem concretos pra não gostar de você.
Indicou Amanda com a cabeça. Marina riu quando compreendeu:
- Cejura? Tudo isso é ciúme?
Riu mais um pouco antes de completar, desta vez falando para Amanda diretamente:
- Agora só falta você me dizer que a tal situação complicada é ela. 
Antes que Amanda pudesse dizer qualquer coisa, Bruno respondeu:
- Não, meu amor. A situação complicada é um pouquinho mais velha.
Obrigando Amanda a interrompê-lo:
- Ai, Bruno, menos!
Tarde demais. Marina já estava curiosa, precisava saber:
- Sério?
Impossível para Bruno se conter:
- Aham.
Marina olhou de Bruno para Amanda. Foi para ela que perguntou:
- Quanto mais velha?
Mas foi Bruno quem respondeu:
- Mais do que a minha mãe!
Se olhar matasse, Amanda o teria assassinado, certamente. Com um suspiro nostálgico, Marina declarou:
- O meu primeiro amor também era bem mais velha do que eu.
Óbvio que Amanda se interessou:
- Mesmo?
Aproveitando a deixa, Marina contou:
- Eu tinha seis anos e ela vinte e seis. Era minha professora. Infelizmente, nunca me deu uma chance.
Riu às gargalhadas com Bruno, o que fez Amanda ficar ainda mais irritada com os dois:
- Se vocês vão ficar de deboche, eu vou embora.
Na mesma hora, Marina parou. Segurou Amanda carinhosamente pelo braço, impedindo-a de se afastar:
- Ei... Calma... Onde está seu senso de humor?
O suspiro melancólico que Amanda deixou escapar disse mais do que mil palavras:
- Confesso que não anda mesmo muito bom.
Num misto de carinho e empatia, Marina acariciou o rosto de Amanda:
- Fica assim não, garota. Não tem nada nessa vida que não se resolva. 
Segurou-a pela mão, para puxá-la em direção a mesa:
- Vem. Quero saber tudo, pode ir me contando.
Ao virar-se, deu um forte encontrão em Débora, que ia se sentar, mas ao vê-las ainda ali tinha mudado de ideia. Teria caído se Marina não a segurasse, mas livrou-se das mãos dela com a mais profunda revolta e irritação:
- Não olha por onde anda, não?
A primeira reação de Marina foi pedir:
- Desculpa. 
Chegou a se justificar, surpresa e estranhamente constrangida:
- Foi sem querer.
Antes de recuperar a desenvoltura que lhe era habitual e falar para Amanda:
- Vamos sentar ali? Onde a minha presença não vai incomodar?
Acomodaram-se numa mesa distante, mas não o bastante para que o olhar de Débora não a fuzilasse. Marina parecia indignada:
- Definitivamente, essa garota me odeia. Isso nunca me aconteceu.
Pela primeira vez em muitos dias, o sorriso de Amanda foi realmente divertido:
- Bem, pra tudo tem uma primeira vez.


Claro que Marina não ouviu calada. Segundo ela, esqueceria se não fizesse seus apartes na hora certa. Conversar com ela deixou Amanda muito mais aliviada, pelo menos. Finalizou indagando:
- Desde quando se apaixonar é infantilidade?
Impossível para Marina não rir:
- Se apaixonar não, mas dizer que está apaixonada depois do primeiro encontro, ou melhor - da primeira trepada, no caso de vocês - é muita infantilidade, sim!
Amanda não gostou nem um pouco:
- Ah, é? E o que eu deveria fazer?
Marina não era mesmo de medir as palavras:
- Pra começo de conversa, nunca, jamais diga que está apaixonada tão cedo. Assustou a tal da Michelle. Eu ficaria apavorada também.
O suficiente para Amanda cair em si, Marina nem precisaria ter dito:
- Se coloca no lugar dela. 
Era o que Amanda já estava fazendo. Lembrando do quanto tinha ficado perplexa e assustada quando Débora lhe dissera que estava apaixonada, naquele mesmo bar. Depois disso, tinha se afastado completamente dela. E no caso de Michelle era pior, envolvia um mundo de questões bem mais complexas. Um casamento de vinte anos. Uma traição. Uma separação. E o fato de ser mais velha. Por mais que tentasse, não conseguia imaginar o conflito que Michelle deveria estar atravessando, toda a dor, culpa, responsabilidade e arrependimento que ela deveria estar sentindo... 
Levou as duas mãos à cabeça:
- Ai, merda! Eu sou uma besta humana! Sou uma babaca, sou uma boçal, sou uma idiota completa!
Ao invés de contestar ou tentar consolar Amanda, Marina foi objetiva e direta:
- Tá. Você é mesmo tudo isso. Mas foca no lado bom: a Michelle realmente não parece imune a você. Ela poderia e deveria ter te cortado, mas não fez.
Só então Amanda tirou as mãos da frente do rosto e voltou a olhar para Marina:
- É, mas isso não quer dizer nada. A Michelle é... Especial. 
A forma melosa como Amanda falou, quase desmanchando o nome da outra na boca, fez Marina achar graça:
- Sei.
A ironia fez Amanda tentar justificar: 
- Ela é gentil com todo mundo.
Sem muito resultado:
- Você é suspeita.
Mais do que isso, precisava convencê-la:
- Sério! A Michelle realmente se preocupa com as pessoas.
Com um sorrisinho safado, Marina provocou:
- Especialmente com você...
Como resposta, Amanda suspirou:
- Ela é maravilhosa...
Restando a Marina observar com uma careta:
- Uia! Tá apaixonada mesmo, hein? 


Após muita insistência de Amanda, Marina concordou em voltar para a mesa onde estavam Bruno e Débora. Não foi muito confortável, obviamente. Por mais que Bruno e Amanda tentassem, a conversa não fluiu fácil, nem poderia, com Débora determinada a se manter calada e emburrada e Marina demasiadamente provocante, determinada a sabe-se lá o quê. Nem Bruno nem Amanda foram capazes de compreender. 
Quando começou a tocar Seu Jorge cantando “Carolina”, Marina declarou:
- Eu adoro essa música!
 Bebeu a cerveja que restava em seu copo de um só gole e convidou Amanda:
- Quer dançar?
Ela recusou, sem hesitação alguma:
- Obrigada, mas não estou no clima.
Então, Marina dirigiu para Débora seu sorriso mais sedutor:
- E você? Tá afim?
Irresistível para a maioria das mulheres. Para Débora, inteiramente ofensivo:
- Vê se te enxerga!
Não abalou, sequer arranhou a confiança de Marina:
- Certeza que não quer nem tentar? Você poderia gostar...
Fazendo Débora perder o controle. Ela praticamente gritou:
- Vai à merda!
Antes de levantar e se retirar da mesa. Amanda ficou ainda mais perplexa ao seguir o olhar de Marina, que acompanhou Débora. 
Bruno foi logo avisando:
- Com essa conversinha não vai conseguir nada com ela.
A risada de Marina ecoou, muito mais irônica, abusada e cafajeste do que costumava ser:
- E quem disse que eu quero?


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postado originalmente em 24 de Maio de 2017 às 18:00.








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