terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 22


Michelle praticamente não dormiu, passou a noite inteira pensando, ou melhor, moendo e remoendo os próprios sentimentos. No entanto, por mais que tentasse racionalizar, não foi capaz de compreendê-los. Eram como uma tatuagem recém feita. Inchada, não cicatrizada e ainda vermelha.  Só o tempo tornaria possível enxergá-los com verdade e clareza.
O som de mensagem entrando no whatsapp a trouxe de volta de seus devaneios. Era um áudio enviado por Amanda. Dizia apenas: 
- Desculpe por ontem.
Apesar de não estar claro, não perdeu tempo tentando decifrar. A despeito de haver milhares de coisas pelas quais Amanda poderia estar se desculpando, para Michelle o que importava era a intenção e a emoção, inegáveis na voz dela.
Ouviu de novo, mesmo sem saber por quê. O fato é que o som e o tom lhe trouxe conforto, quase uma leveza.
Escutou uma terceira vez, sorriu e respondeu apenas para si mesma:
- Tudo bem.


Laura bebeu quase dois litros de água antes de sair de casa, mas a ressaca continuou terrível. 
Surpreendeu-se ao encontrar uma sacola plástica dentro de seu escaninho. Soube quem a tinha deixado lá assim que a abriu e se deparou com uma lata de refrigerante e sua barra de chocolate preferida. Nem precisaria ver a letra de Michelle no pequeno bilhetinho que acompanhava: 
“Achei que você poderia precisar. Se o refri não estiver gelado pede gelo na cantina.”


O fato de Michelle visualizar a mensagem, mas não a responder deixou Amanda insegura. Tanto que, no dia seguinte, não enviou nada para ela durante a manhã inteira. 
Estava almoçando na feirinha de produtos orgânicos quando a viu. Saindo da Reitoria em direção ao Centro de Convivência. 
Linda, absolutamente linda. 
Conteve a vontade de ir até ela e ficou ali parada, inteiramente enfeitiçada, admirando Michelle até perdê-la de vista. 
Levou algum tempo para se recuperar. Quando finalmente conseguiu, pegou o celular e enviou uma mensagem.
Continuou sorrindo, feliz, durante o resto do dia. Apenas por tê-la gravada nas retinas.


Michelle não percebeu quando a mensagem de Amanda entrou. Só a viu alguns minutos depois, quando se sentou dentro da agência dos Correios e conferiu o celular enquanto esperava sua senha ser chamada.
Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios ao ler:
“Acabei de te ver. Vc fica linda de azul...”
Era sua cor preferida.


Quando a última aula de Laura terminou, ela ainda continuou na sala, não tinha pressa alguma em voltar para o apartamento vazio. 
Três batidas leves na porta denunciaram que não estava mais sozinha. Virou-se devagar, não foi surpresa ver Michelle olhando para ela e sorrindo:
- Vim te convidar pra jantar comigo.
Sentiu a própria resistência fraquejar. A vontade de aceitar foi quase irresistível. Sair com Michelle era a certeza de uma noite agradável, com boa conversa e uma companhia melhor ainda. Mas a despeito disso, não podia:
- Hoje não dá. Tenho que terminar um artigo.
Pela primeira vez, a resposta dela não era uma recusa definitiva. Chegava quase a ser a promessa de sim em outro dia. Isso por si só deixou Michelle feliz. 
Não pensou, apenas aproveitou a deixa:
- Quando quiser eu estou aqui.


Acabou tomando cerveja sozinha na cozinha de Val. Enquanto a esperava, se pegou relendo a última mensagem de Amanda. 
Apesar de não ter respondido, pois preferia não incentivar. 
Na verdade, estava com medo. Muito medo de retornar e ela tomar aquilo como incentivo. Agora que Laura parecia uma pouco menos na defensiva, suas esperanças de se reconciliarem haviam se renovado e não podia nem queria colocar isso em risco.
Por outro lado, claro que a atenção de Amanda mexia com ela. Levantava a auto estima, no mínimo. Estava tão distraída que só percebeu a chegada de Val quando ouviu:
- Recebeu mensagem da Laura? Pelo seu sorriso, só pode...
Aproveitando o momento em que a amiga ficou de costas para pegar um copo no armário em cima da pia, Michelle disse:
- A mensagem é da Amanda.
Val deixou escapar um longo suspiro. Depois, se sentou na frente dela, se serviu, tomou um gole de cerveja e só depois falou, olhando nos olhos de Michelle:
- Me diz que você não está com vontade de ir lá e repetir.
Michelle foi igualmente sincera:
- Estou. Mas não posso.
Esperou que Val a condenasse, recriminasse, xingasse... Pela confissão. Nunca o que se seguiu:
- Por que não? Você quer e a garota também. Agora que está separada da Laura, por que não se permite viver essa história?
O incentivo não resvalou, a acertou em cheio. Defendeu-se como podia:
- Porque não, porque eu não posso, por que eu quero recuperar o meu casamento.
Não chegou nem perto de convencê-la:
- Agora você falou tudo. Você quer recuperar o casamento e não a pessoa, não é da Laura que você sente falta, é da instituição casamento. 
Michelle não escondeu o choque e a revolta:
- Você fala como se nós não tivéssemos sido felizes.
Val levantou e pegou mais uma lata de cerveja na geladeira:
- Só acho que você está se enganando. Por que o seu casamento...
Encheu o copo de Michelle, depois o dela mesma:
- Não era nem nunca foi assim tão perfeito. 
E voltou a se sentar:
- Quantas vezes você chorou por causa da Laura aqui, nessa mesma mesa? 
Imediatamente, Michelle protestou:
- Val, foram vinte anos! Óbvio que tivemos altos e baixos.
Argumento que Val prosseguiu desconstruindo:
- Quantas vezes você me falou que ela não te valorizava, que não te tratava de igual pra igual, que decidia tudo sozinha sem te consultar, que tinha dias que sequer olhava pra você? 
Só que Michelle não podia nem iria aceitar aquilo:
- Toda relação tem fases ruins.
Durante o silêncio que se seguiu, Michelle esvaziou o próprio copo, ameaçou se levantar, mas com um gesto de mão, Val a impediu:
- Só me diz uma coisa? Quando foi a última vez que você se sentiu desejada dessa forma?
A primeira parte da resposta foi instantânea:
- Isso não vem ao caso. 
O complemento foi dado enquanto Michelle pegava outra cerveja:
- É só uma bobagem de criança. Logo ela encontra outra e me esquece.
Serviu as duas e se sentou. E Val a questionou de novo:
- É esse o seu medo?
Michelle sustentou o olhar dela, foi cortante ao afirmar:
- Eu amo a Laura. Com a Amanda é só sexo.
O sorriso de Val foi muito mais melancólico do que irônico:
- De tanto repetir, quem sabe você acaba acreditando?


Quando o telefone tocou, Laura já sabia quem era. A única pessoa que ligava para o telefone fixo. Exatamente por causa dela ainda o mantinha:
- Oi, mãe.
Apesar de tentar de disfarçar, a preocupação estava claramente impressa em sua voz:
- Liguei pra saber como você está. E em que pé andam as coisas com a Michelle. 
Depois de deixar escapar um suspiro, Laura foi sincera, como sempre tinha sido com ela:
- Tudo na mesma.
A mãe perguntou com um jeitinho bem-humorado:
- Posso te dizer uma coisa?
Deixando em Laura a certeza de que era inevitável:
- Se eu disser que não, faz diferença?
Confirmou o que a filha já sabia:
- Vou falar igual.
Antes que Laura pudesse impedi-la, lançou de uma só vez:
- Laura, você não pode continuar fugindo. Enquanto não resolver, isso vai se estender pra sempre, as coisas vão permanecer em suspenso. Eu sei que faz pouco tempo. Sei que ainda está muito recente. Mas você precisa seguir em frente.
Aquilo provocou um turbilhão incontrolável, pois Laura sabia que a mãe estava certa. No entanto, não estava pronta ou disposta a aceitar, nem para si mesma. Descarregou tanto a indignação quanto a própria frustração em cima dela:
- Você quer que eu me separe? Pensei que você gostasse da Michelle.
A tentativa de criar conflito falhou completamente:
- Eu gosto. Adoro a Michelle. Mas estou preocupada com você. 
Laura voltou a suspirar:
- Eu estou bem.
Não soou nem um pouco convincente.
- Não, não está. Filha, eu te conheço. Sei que você não me contou tudo, ninguém sai de casa do nada, de repente. Depois de vinte anos muito menos. Algo aconteceu.
Tentou cortá-la:
- Mãe...
Inutilmente:
- Não precisa me contar, eu não quero saber. Só acho que você tem que prosseguir com a sua vida, com ou sem a Michelle. 
A verdade saiu acompanhando as lágrimas que escorreram:
- Não é tão fácil. 
A mãe falou com extrema suavidade, tanta que Laura se sentiu embalada por ela:
- Eu sei que não é. Vocês duas construíram uma vida juntas. Mas tenha coragem. Decida de forma sincera, de coração aberto. Descubra o que você quer realmente. 
Fez uma pausa antes de completar, de forma significativamente derradeira:
- Se é que você já não sabe.


Amanda até convidou Marina para sair, mas ela recusou:
- Tenho dois artigos pra entregar, preciso trabalhar neles.
Também tentou estudar, mas não conseguiu se concentrar. Toda hora checava o celular, na esperança vã de que Michelle respondesse. O fato de ela ter visualizado a mensagem horas atrás não a tinha feito perder a esperança. Ao menos não completamente.
Quando abriu o whatsapp pela milionésima vez, tinha recebido um áudio da irmã:
- E aí, como tão as coisas? Vou passar o final de semana com você, chego na sexta. Te explico melhor pessoalmente.
Respondeu apenas: “ok”. 
Pareceu seco demais, mandou alguns emojis para suavizar, mas depois de Michelle, até isso parecia diferente.


Quando a aula da manhã terminou, Michelle continuou sozinha na sala vazia. Pegou o celular na bolsa e sorriu ao deparar-se com uma mensagem de Amanda: “vai continuar me ignorando qto tempo?”
Não pensou, nem planejou. Seguiu o impulso de satisfazer a própria vontade apenas: “Não estou ignorando vc.”
Com a mesma rapidez com que visualizou a resposta, Amanda a retrucou: “então esse silêncio nos últimos dias foi o q?”
Antes que Michelle pudesse formular algo, foi pega inteiramente de surpresa:
- Posso falar com você?
Olhou para Laura sem acreditar:
- Claro.
Ela entrou e fechou a porta, deixando Michele ainda mais perplexa. 
- Eu andei pensando. 
Fez uma pausa que pareceu durar a eternidade antes de completar:
- E acho que não podemos continuar desse jeito. Precisamos nos resolver. Definir a nossa situação de uma vez por todas. 
Michelle permaneceu calada, esperando por uma conclusão que não veio. Obrigando Laura a indagar:
- Não concorda?
Impossível para Michelle disfarçar o nervosismo e a ansiedade, estavam perceptíveis na dificuldade que teve em juntar duas simples palavras:
- Sim, claro.
Sorriu, tentando quebrar um pouco do constrangimento e da tensão quase palpáveis entre elas:
- Tem alguma coisa em mente?
Laura sorriu de volta:
- Na verdade, eu vim te fazer uma proposta.
Deixando Michelle muito mais à vontade. O suficiente para brincar:
- Espero que seja indecente...
Riram juntas, a cumplicidade de tantos anos se restaurando rapidamente. Pareceu quase natural, foi facílimo para Laura propor:
- O que acha de irmos a Gramado na sexta?
Mais ainda para Michelle aceitar, sem nenhuma reticência.


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postado originalmente em 26 de Maio de 2017 às 18:00.








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3 comentários:

  1. Michelle continua atordoada com o que foi capaz de fazer e a saida ė tentar voltar ao que era antes???Missāo impossivel... Recuperar a relação com Laura ou o amor de Laura??? Parece cada vez mais que ela é que amava pelas duas??? Laura parecendo a manipuladora da relação, gostando de ser amada e não quer perder esse poder?...E agora quando aparece Amanda interessada e desejando Michelle... Sera que Michelle vai se dar conta da diferença e Laura sera que vai mudar?? Qual sera o interesse de Laura em recuperar Michelle sera so recuperar o controle??? Hj tb fiquei atordoada com este capítulo cheio de duvidas e dilemas... esta agitação é fantåstica ė como estar à beira mar vendo as ondas de inverno,revoltas, rebentar na areia...Vamos ver que ondas nos vai trazer o passeio delas, se vamos chegar a alguma conclusão do que manteve esta relação durante 20 anos e se há caminho para continuar e recomeçar.. ;)
    Bjs

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  2. Olha, até ler esse capítulo eu só conseguia pensar que seria inconcebível a ideia de Michelle e Laura separadas. Mas após ler o que Val acrescentou no enredo, já não tenho tanta certeza. Porém, também vejo como surreal a ideia da Michelle com a Amanda. Convenhamos, Amanda é meio "ariana torta e vive de amor profundo..." em cada esquina. Sou #teamMichelle (apesar de ser contra traição) mas já não torço por um happy ending nem com Laura, nem com Amanda. E ela, (a girina) realmente achei que a Marina fosse dar um jeito nela. hahaha Mas pelo cap 21, acho que vai rolar uma coisa marota é com a Débora.

    Beijos Diedra, mais uma história envolvente, como sempre :)

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  3. Oii Di
    Capítulo maravilhoso como sempre, mas confesso que to nutrindo uma raivinha da Amanda sou muito mais a Laura.

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