terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 23


Se existia alguma coisa que Laura e Michelle gostavam e que haviam feito muito durante seus vinte anos juntas era viajar de carro. 
Por isso foi fácil deixar toda e qualquer diferença de lado. Existia uma rotina que já fazia parte, era um pedaço delas, a força do hábito, um acordo tácito, involuntário como respirar. 
Algo que nenhuma das duas parou para pensar ou questionar, apenas deixaram que fluísse. Sem força a favor ou contrária, que fossem aonde tivessem que chegar. 
Laura dirigindo e Michelle sentada ao seu lado administrando as músicas que tocavam, o dinheiro dos pedágios e o conteúdo da caixa térmica no banco de trás. Repetição que pontuava e ressuscitava milhares de momentos anteriores, todas as viagens que haviam acontecido dentro e fora delas.
Conheciam-se, não havia novidade na forma como se complementavam. Laura já esperava que na última parada Michelle se oferecesse para dirigir, assim como Michelle sabia que Laura recusaria, por mais que estivesse cansada, pois Michelle não gostava de dirigir na estrada.
Chegaram de madrugada, Michelle não permitiu que Laura carregasse quase nada, não achava justo, ela já estava exausta.
O primeiro estranhamento se deu quando Laura declarou que estava precisando muito de um banho. Em qualquer outra situação, Michelle iria para o chuveiro com ela, esfregariam as costas uma da outra, conversariam, se beijariam e poderia haver sexo ou não, mas aquele momento serviu para que a realidade do rompimento finalmente surgisse e se estabelecesse entre as duas.
Com o sorriso cálido e acolhedor de sempre, Michelle afastou qualquer possibilidade de constrangimento:
- Enquanto isso vou abrindo um vinho e acendendo a lareira.
Laura sorriu de volta e concordou imediatamente. 
Depois que ficou sozinha, Michelle descalçou os sapatos, tirou o casaco, sentou no sofá, depositou a garrafa e as duas taças na mesinha a sua frente e foi inevitável lembrar da última vez que tinha se colocado à vontade e bebido vinho. Uma coisa levou à outra e se perguntou se haveria alguma mensagem nova em seu celular. Não conferia desde que tinham saído, nem pretendia fazê-lo durante o final de semana, tinha decidido deixar toda e qualquer interferência de fora, mas agora parecia impossível. Estava ali, pairando sobre tudo, dentro de si mesma. 
“Merda! Merda!”
Uma culpa absoluta se instaurou e a tomou, fez Michelle se sentir a pior das pessoas. Era como se estivesse traindo Laura de novo e de novo e de novo...
- Mi?
Foi arrancada do estado de autoflagelação em que se encontrava por Laura, que pareceu realmente preocupada:
- Tudo bem?
Respondeu rápido:
- Sim.
Sabendo perfeitamente que a expressão de seu rosto desmentia a afirmação por completo. Tentou disfarçar, enquanto caminhava até o banheiro:
- Só estou precisando de um banho.
Laura a observou com atenção. Não que precisasse. Conhecia Michelle muito bem. A ponto de sentir a dor dela perfeitamente, quase como se fosse a sua. Alguns dias atrás, achava que vê-la sofrendo lhe traria prazer. Naquele instante, percebeu que não, sua felicidade dependia da de Michelle, continuavam interligadas, de uma forma muito maior, um amor que transcendia o egoísmo, a mesquinhez e até o próprio eu.
Foi com essa certeza que a esperou. Michelle percebeu a mudança em Laura assim que entrou na sala, bastou um único olhar para ela. 
Caminhou em sua direção com um sorriso quase tímido nos lábios, ainda enxugando os cabelos:
- Que foi?
Como resposta, Laura avançou três passos, tirou a tolha das mãos dela, a enlaçou pela cintura e a puxou para si. O corpo de Michelle se encaixou com precisão, estremeceu nos braços de Laura quando a ouviu dizer:
- Eu amo você.
Beijaram-se longa e demoradamente, até perderem a noção do tempo, prolongando a perfeição daquele momento. As duas desejando e ao mesmo tempo temendo que a intensidade doce e ardente pudesse ser perdida ou interrompida. Um medo que fez Laura dizer:
- Estou exausta...
Michelle compreendeu perfeitamente:
- Eu também. 
Caminharam de mãos dadas até o quarto. Deitadas juntas debaixo das cobertas, trocaram um último beijo antes de Laura adormecer. 
Michelle ainda ficou acordada, esperando que o conforto familiar do calor, do cheiro, da textura da pele e do corpo dela a preenchessem como antes. Inutilmente. Algo havia mudado.
Perdeu o sono quando a percepção finalmente veio. 
Não era em Laura que estava a diferença. 


No dia seguinte, Laura levantou cedo. Deixou que Michelle dormisse, ela parecia estar precisando, por mais confortável que o sofá de Val pudesse ser, não se comparava a uma cama.
Decidiu esperar por ela na sala, sentou no sofá e sorriu ao ver as duas taças e a garrafa de vinho ainda fechada. 
“Definitivamente, estamos ficando velhas”.
O pensamento não se deu somente pela incapacidade de virar a noite acordada como faziam com facilidade alguns anos atrás, mas também por causa da covardia que tomara conta dela na véspera. 
O cansaço tinha sido uma desculpa perfeita, mas na verdade tinha recuado por pura insegurança. Chegava a ser cômico. Ou talvez, muito mais irônico. Ter medo de fazer sexo com Michelle. Como se aquilo fosse a chave mestra capaz de abrir ou fechar todas as portas da relação. Natural que tivesse esta impressão, levando em conta que era o motivo de anos de casamento terem caído por terra. Por outro lado, quanto mais martelasse nesta tecla, mais difícil seria, uma cobrança impossível de ser atendida, pois jamais funcionaria sob pressão.
“Vamos deixar acontecer”.
Decisão que fechou essa linha de raciocínio e de questionamento por completo, deixando em aberto outra questão.
Durante alguns segundos, olhou para a bolsa de Michelle em cima da mesa e se sentiu tentada a pegar o celular dela e acabar com a dúvida de vez. No entanto, isso ia contra tudo que acreditava, era algo que nunca tinha feito, a quebra da confiança que tinham construído e mantido durante vinte anos. 
Seu lado mais obscuro soprou de forma tentadora: uma confiança que não existia mais, tinha sido a própria Michelle a rompê-la.
Foi tão convincente que Laura chegou a se levantar. Mas no meio do caminho mudou de ideia.  
“Não vou fazer isso com ela”.
Tinha uma razão ainda mais séria. Queria realmente tentar. E para isso precisava se manter como a mãe dissera, de coração aberto. 
- Por que você não me acordou?
Michelle reclamou da porta, tirando Laura de seus devaneios:
- Não tive coragem, você parecia cansada e estava dormindo tão bem...
Caminhou até Michele e a beijou de leve nos lábios:
- Será que ainda dá tempo de pegar o café?
A barriga de Laura roncou, fazendo as duas rirem.
- Espero que sim!


O dia não poderia ser melhor, nem mais perfeito. Boa parte da conversa era repleta de momentos compartilhados, frases que começavam com: 
- Lembra?
- Daquela vez...
- Quando nós...
Gostos e interesses que não divergiam. Coisas que sabiam uma da outra e das respectivas famílias. A trufa que a mãe de Michelle amava, o vinho que Laura não podia deixar de levar para o pai...
Mais do que isso, os anos de convivência as tinham ensinado a compartilhar o prazer uma da outra com uma satisfação intensa e plena.
Tudo correu às mil maravilhas, até o momento em que Laura contou mentalmente as caixas de chocolate na cesta de Michelle:
- Você não está levando uma a mais?
A pergunta aparentemente inocente continha uma desconfiança clara. Michelle se sentiu ligeiramente ofendida, mas relevou. Afinal, Laura tinha seus motivos. 
Acabou se justificando:
- Pro meu pai, pra minha mãe, pra sua mãe, pro seu pai, pra Val e essa... 
Fez uma pausa e olhou de forma maliciosa e significativa para Laura:
- É pra relembrar Bariloche.
A mensagem foi recebida de imediato. Laura sorriu, deliciada com a recordação:
- Como se fosse possível esquecer...
Uma das melhores noites de sua vida, logo no começo do namoro. Depois de declarar que detestava sexo com comida, especialmente doces, Michelle a tinha feito mudar de ideia, mostrando o quanto poderia ser bom. Na primeira viagem das duas a Bariloche.
Só retornaram ao hotel quando anoiteceu. Michelle foi mais rápida, se dirigiu imediatamente para o chuveiro. Laura acendeu a lareira, abriu a garrafa que estava desde a véspera em cima da mesa, sentou no sofá e bebeu um pouco de vinho.
Michelle não demorou, voltou logo depois, enxugando os cabelos molhados, exatamente como na noite anterior. Só que desta vez, estava só de roupão.
Foi direto para Laura. Ajoelhou no sofá, encaixando-a entre suas pernas. Beijou-a com um ardor intenso e apaixonado, deixando clara sua intenção. 
No início, Laura tentou se esquivar:
- Me deixa tomar um banho primeiro.
Mas Michelle não permitiu:
- Não precisa. 
Desceu os lábios pelo pescoço de Laura, fazendo-a se arrepiar inteira. Quebrou um pouco, mas não toda a resistência dela:
- Não, Mi... Você tá toda cheirosa e eu...
As mãos de Michelle já estavam nos seios de Laura, por baixo da roupa. A voz dela saiu grave e baixa, quase ofegante:
- Tá ótima... Perfeita assim.
Laura cedeu. Entregou-se às carícias e beijos numa tentativa de superar o que realmente a impedia, mas quando Michelle abriu o roupão e ficou nua em seus braços, não conseguiu:
- No sofá não.
A frase cortou completamente o clima. Michelle a soltou, se vestiu e levantou. Ficou de costas para Laura, sem ser capaz de encará-la. Laura se pôs de pé, venceu rapidamente a distância entre elas:
- Desculpa. 
Fez Michelle se virar para ela com o mesmo carinho e suavidade com que voltou a pedir:
- Me desculpa.
Quando os olhos se encontraram, nos de Michelle havia confusão, remorso, dor e algo mais:
- Não. Me desculpa você. Eu... Eu...
Que Laura não soube nem quis definir:
- Vou tomar uma chuveirada e já volto.
Beijou-a de leve nos lábios antes de fugir para o banheiro.
Depois que Laura saiu, Michelle se serviu de vinho. Não voltou para o sofá, ficou de pé no meio da sala, com o pensamento andando em círculos. 
Não sabia mais o que fazer nem como agir. Fato inédito, que em toda a sua relação com Laura nunca havia acontecido. Percebeu que era exatamente isso. Precisava relaxar, deixar fluir. Permitir que Laura decidisse e desse o andamento. Uma passividade que normalmente já lhe seria difícil. Naquele momento mais ainda.
Laura não ficou muito tempo no banho. Demorou mais se enxugando. Na verdade, buscando coragem dentro de si mesma. Fazer sexo com Michelle naquela viagem não era uma obrigação. Mas parecia. De uma forma cruelmente definitiva, era um fator imprescindível. Gatilho, prova e fecho da restauração.
Riu do próprio pensamento, que em qualquer outra situação, classificaria como absurdo. Mas nesta em que se encontrava, não.
Colocou apenas um roupão, menos por estar com segundas intenções do que pelo conforto que oferecia. Respirou fundo antes de voltar para a sala. Entrou decidida a não forçar nada, apenas deixar que as coisas fluíssem. 
Ao se deparar com Michelle levando uma taça de vinho aos lábios percebeu que não seria difícil. Pois o gesto comum, corriqueiro e sem artifícios encantou-a, de uma maneira que lhe era familiar no início, e que a falta que havia sentido dela durante os últimos dias tinha feito ressurgir. 
Percebendo a presença de Laura, Michelle se virou e sorriu, fazendo com que Laura a achasse ainda mais bonita. Caminhou em direção a ela, inteiramente seduzida. Michelle a recebeu integralmente. Corpo, mãos, boca, língua... 
Fundiram-se num beijo sem artifícios, que era ao mesmo tempo início, meio e fim. As carícias evoluíram com uma rapidez incendiária, a necessidade de mais se tornando imperativa.  
Coube a Laura conduzir. Sem parar de beijá-la, levou Michelle para o quarto, deitou na cama de casal trazendo-a junto com ela. Desnudou-a entre carícias, gemidos, sussurros e beijos.
- Meu amor... Meu amor...
Não cansava de repetir.
Entretanto, de uma maneira que nenhuma das duas seria capaz de explicar, apesar de ser inegável o esforço de ambas para que fosse inesquecível, não foi o que aconteceu.
Quando terminou, Laura se deitou de costas ao lado de Michelle, fechou os olhos e levou as duas mãos à cabeça. Trazia consigo uma dolorosa certeza. Por mais que se amassem, que conhecesse cada pedacinho do corpo de Michelle, suas preferências e a melhor forma de satisfazê-la, já não era pleno. Algo havia se quebrado para sempre.
A verdade de Michelle não era outra. Estava se sentindo partida ao meio. Mas ao contrário de Laura, não estava pronta, não podia, não queria nem iria aceitar. Agarrada à própria negação, buscou e encontrou a justificativa perfeita:
- Nós estamos cansadas. E tensas. Não tinha como ser... 
Calou-se, sem ter como completar a frase. Laura virou-se para ela. Falou de um jeito suave, inteiramente carinhoso:
- Qual é a palavra que você está evitando?
Michelle cerrou os olhos com força e respondeu num sopro:
- Eu não sei.
Laura pediu:
 - Olha pra mim. 
Não foi imediato. Michelle demorou para atendê-la. Quando o fez, se deparou com o rosto de Laura bem perto do seu:
- Pode me dizer a verdade. Por pior que seja.
O sorriso que Laura lhe lançou, o amor que viu nos olhos dela, mergulhou Michelle no mais profundo desespero:
- Eu não sei!
Saiu quase gritado. E fez com que Michelle vislumbrasse a verdadeira causa de tanta veemência. Levou as mãos à boca, numa tentativa última de se conter. Inútil. As lágrimas escorreram, lavando morbidamente a última possibilidade de simular e esconder o que era evidente.
Laura a chamou:
- Vem aqui, meu amor. 
E Michelle se lançou nos braços dela. Laura a amparou e embalou, do mesmo jeito amoroso com que falou, acariciando os cabelos de Michelle:
- Não precisa dizer nada. Nós duas sabemos. 
A incredulidade de Michelle foi sincera. Só não era causada pelo fato de Laura estar errada. Pelo contrário. Mais do que nunca, Laura parecia ler nela como num livro aberto:
- Você comparou.
Não foi para Laura que Michelle olhou, foi para si mesma. Impossível negar, não podia mentir. Rendeu-se à inevitabilidade do momento:
- Eu te amo.
Laura acreditava. Sabia. Sentia o mesmo:
- Eu também. 
Mas as palavras silenciadas pesavam mais do que as proferidas. Beijou-a nos lábios com todo o seu carinho, anos e anos de tanto amor:
- Ah, minha querida... 
Abraçou Michelle com força, e doeu mais ainda, o fato de ser inteiramente correspondida: 
- Laura, você é o amor da minha vida.
Não soube de onde tirou forças para dizer a Michelle o que precisava ser dito:
- E você da minha. Mas não tem mais volta. Realmente acabou.


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postado originalmente em 27 de Maio de 2017 às 18:00.






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Um comentário:

  1. Este capitulo trouxe uma onda de tristeza, deram-se conta que amar já não é mais suficiente... A sua rotina de anos jå não lhes chega, tem a sombra da traiçāo que fez estragos...Elas mudaram e jå não podem voltar ao que eram, o que vira aseguir??? Eu não desisto do meu casal Michelle/Laura e acho bom que elas também não desistam ... ;) Muito bom, mesmo transportando este desalento... Venha o proximo capītulo com novas emoções... ;)
    Bjs

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