terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 24


Amanda estava com saudade da irmã e ficou muito feliz ao vê-la, mas teve que se esforçar para não perder a paciência quando começaram a conversar. Pois o assunto principal de Juliana ainda era os últimos acontecimentos em Rio do Sul, mais especificamente novidades sobre os colegas do ensino médio. Coisas que já não faziam mais parte da vida de Amanda. Para ela era passado, pois parecia que anos – e não apenas alguns meses - tinham decorrido desde que se mudara para Florianópolis.
- Você não disse que tinha uma coisa importante pra me falar?
Juliana não se fez de rogada:
- Uma não, várias! 
Frente ao olhar de reprovação total que Amanda lhe lançou, ela jogou tudo de uma só vez:
- Terminei com o Renato. A mãe pediu pra eu te vigiar. Laura e Michelle foram juntas pra Gramado.
Foi demais para Amanda. Ela se deixou cair sentada na cama. Ao vê-la em estado de choque, Juliana se arrependeu: 
- Amanda, por favor... Não surta, ok? Vamos por partes. Sobre o que você quer falar primeiro?
Nem precisaria ter perguntado, a preocupação mais imediata de Amanda não poderia ser outra:
- A Michelle... 
Respirou para ser capaz de verbalizar o que não queria imaginar:
- Ela voltou com a Laura?
Juliana não escondeu a surpresa:
- Vocês não têm se falado?
Impossível para Amanda não rir de si mesma: 
- Eu tenho falado. Ela não. Agora descobri o motivo.
Não foi só para consolar a irmã que Juliana disse:
- Bom, pelo que eu sei elas ainda estão separadas. A Laura disse pra mãe que essa viagem era uma tentativa de reconciliação. Só isso.
As imagens começaram a se formar na mente de Amanda, de forma irreversível. Fechou os olhos e conseguiu imaginar perfeitamente as duas se beijando, se acariciando, se despindo... Uma tortura terrível, que não conseguiu interromper nem mesmo quando se pôs de pé, caminhou até o canto que servia como cozinha e encheu um copo com água do filtro:
- Só isso? As duas sozinhas num final de semana romântico... É óbvio que elas vão se acertar! Pra mim está muito claro! Tenho certeza que sim!
Bebeu toda a água, sem respirar. Juliana apenas esperou, observando-a, preocupadíssima com a irmã. Só falou depois que Amanda depositou o copo dentro da pia:
- Você não sabe nem tem como saber. Vai que...?
Havia uma tristeza profunda na forma como Amanda falou, muito mais para si mesma:
- Não sei como pude pensar que eu pudesse ter alguma chance...
Antes que o clima se tornasse mais pesado ou depressivo ainda, Juliana propôs:
- Vamos mudar de assunto então? Não tá nem um pouco preocupada com as suspeitas da mãe?
 Deu certo. Pois na mesma hora, o foco de Amanda mudou:
- O que ela te disse?
Desta vez, Juliana tentou começar com mais cuidado:
- A Laura falou pra ela...
O desespero de Amanda não permitiu deixá-la terminar. Com as duas mãos na boca e os olhos arregalados, colocou para fora o seu pavor:
- Puta merda! Ela contou?
Querendo evitar mais drama, Juliana se apressou em tranquilizá-la:
- Claro que não! Se ela tivesse contado alguma coisa, quem estaria aqui era a mãe e o pai e não eu. Ela só disse que deveriam te monitorar mais de perto. Daí a mãe me pediu pra vir aqui vigiar você. Coitada, sabe de nada!
O alívio de Amanda era inegável:
- Menos mal.
Só então percebeu o quanto estava sendo egoísta. Tinha ignorado completamente o problema da irmã:
- E você e o Renato? O que houve?
No entanto, Juliana não parecia nem um pouco abalada. Pelo contrário, ela estava com raiva:
- O idiota cismou que queria casar.
Fez uma pausa. Amanda permaneceu esperando, calada. Queria ouvir, permitir que a irmã desabafasse:
- Amanda, quem é que casa com 18 anos? Eu quero terminar a faculdade, aproveitar a vida, me divertir... 
Compreendia totalmente. Sugeriu:
- Então vem morar em Floripa.
Conseguiu fazer Juliana sorrir. Apenas para, logo depois, voltar a explodir:
- Ah, e ainda teve isso. Ele teve a coragem de dizer que não queria, não aceitava que eu viesse, acredita? Como se mandasse em mim! Quem ele pensa que é? Quer casar pra me prender, isso sim! Não quero homem no meu pé não!
Impossível para Amanda não implicar:
- E depois eu é que sou a sapatão...
Levou um tapa de mentirinha no braço:
- Besta! 
Antes de caírem juntas na risada. Juliana abraçou a irmã:
- Só você pra me fazer rir numa hora dessas...
Foi integralmente correspondida. Amanda a beijou no rosto, com todo o seu carinho e amor:
- Quer dizer então que você está solteira?
O prazer com que Juliana se declarou:
- Solteiríssima!
Deixou claro para Amanda que Renato estava excluído da vida da irmã em definitivo. O que possibilitava saírem juntas e se divertirem como há muito não faziam:
- Ótimo! Porque sei o lugar perfeito pra te levar, maninha. Pode começar a se arrumar.
A concordância foi imediata, Juliana estava empolgadíssima:
- Demorou! Vamos aproveitar que só vou embora no domingo!


- Você não disse que você e sua irmã eram gêmeas idênticas?
Tanto Amanda quanto Juliana se surpreenderam com a pergunta de Bruno. Foi Amanda quem respondeu:
- Nós somos.
Débora riu:
- Você tá brincando, né?
Olhou de uma para a outra, como que tentando encontrar a semelhança. Fato inédito para Juliana e Amanda, acostumadas a confundir as pessoas desde sempre. A conclusão de Débora foi ainda mais chocante:
- Olha... A sua irmã me lembra você antes. Quando nos conhecemos, no início do semestre. 
Bruno completou, do jeito espirituoso de sempre:
- Antes de você brigar com a chapinha.
Piscou para Amanda e recebeu como resposta uma careta. Espantou-se de verdade quando a própria Juliana aquiesceu:
- Você está mesmo diferente.
Viu-se obrigada a concordar. Sentia-se outra pessoa. Não mais uma parte da irmã, quase um complemento. O cabelo era apenas o reflexo externo do quanto havia abraçado sua verdadeira essência. Não fazia ideia se a mudança era para melhor, só sabia que nunca tinha se sentido tanto ela mesma. 
Saiu sem pensar:
- Pareço mais velha pelo menos? 
A resposta veio de uma voz muito conhecida atrás dela:
- Não. Continua a mesma bobinha de sempre...
Depois da entrada triunfal, Marina pediu:
- Não vai me apresentar?
Antes que Amanda pudesse atendê-la, a própria Juliana o fez:
- Oi. Eu sou a Juliana, a gêmea não mais idêntica.
Marina riu. Falou primeiro para Amanda:
- Gostei dela.
Depois para Juliana:
- Oi, linda. Eu sou a Marina. 
Beijou-a no rosto, de uma forma propositalmente lenta e com uma das mãos pousada estrategicamente na cintura de Juliana. Amanda praticamente arrancou a irmã dos braços dela. Falou baixinho, para que somente Marina ouvisse:
- Nem pense nisso.
Só serviu para fazer com que Marina risse mais ainda:
- Acho que além do senso de humor dela, a sua irmã também ficou com o seu.
Débora, que desde a chegada de Marina emudecera, finalmente falou:
- Talvez quem acabe com o bom-humor das pessoas seja você e a sua cretinice.
Fuzilou Marina com o olhar. Não era novidade. Estranho foi como Marina se exaltou:
- Que eu saiba você é a única que pensa assim. 
Rapidamente, percebeu a falha. Sustentou o olhar de Débora com um sorriso provocante:
- Ou será o contrário? Eu mexo com você? Te deixo...
Avançou em direção a ela, ficou tão próxima que sentiu a respiração de Débora se alterar quando completou:
- Tensa?
Débora não recuou com a proximidade invasiva de Marina. A insinuação também não a fez perder o controle. Foi absolutamente irônica:
- Quantas vezes eu vou ter que te mandar à merda?
Deu a deixa perfeita para Juliana:
- A conversa está ótima, mas acho que vi uma coisa interessante perto do bar. Vou ali e já volto.
Débora aproveitou:
- Te acompanho.
E Bruno, que tinha notado o moreno fortinho a que Juliana se referia, endossou:
- Também vou.
Depois que os três sumiram no meio da festa, Amanda se virou para Marina:
- Por que você faz tanta questão de incomodar a Débora?
Não houve hesitação alguma por parte de Marina:
- Vamos mudar de assunto? 
Muito menos por parte de Amanda:
- A Michelle viajou com a Laura, as duas estão tentando voltar.
Para Marina, aquilo não foi surpresa:
- Isso já era de se esperar. Um casamento de vinte anos não termina fácil. Nem de uma hora pra outra.
De uma maneira incontrolável, os olhos de Amanda se encheram de lágrimas. Marina se comoveu. Abraçou-a carinhosamente:
- Ah, não fica assim...
Assim que Amanda pareceu melhor, soltou-a. Não queria que pensassem que estavam juntas, isso atrapalharia sua noite, certamente. 
- Vou te ajudar. Me conta mais. Postaram alguma coisa? Mudaram o status de relacionamento no face?
Amanda suspirou profundamente:
- Nada. No face nunca nem deixaram de estar casadas.
Com a testa franzida, Marina pediu:
- Uhm... Deixa eu ver. 
Com a rapidez de um pistoleiro em um duelo num filme de velho oeste, Amanda sacou o celular, acessou o Facebook - que já estava na página de Michelle - e entregou o aparelho para Marina. 
- Meeeeu... A última foto é de meses atrás. É uma que você postou e marcou. Com vocês três.
Na mesma hora, Amanda lembrou:
- Na Praia do Matadeiro. 
Suspirou:
- Ah, se na época eu soubesse...
Enquanto divagava, recordando a primeira vez em que Michelle a tinha tocado, passando protetor em sua pele, Marina vasculhou mais um pouco. Entrou em todas as fotos dos poucos álbuns de Michelle antes de dar seu parecer:
- Bom, aparentemente elas são um casal perfeito, sempre juntas, super apaixonadas...
Deixou Amanda indignada:
- Você está tentando me ajudar?
Antes que pudesse protestar mais, Marina a cortou:
- Se você me deixar terminar... 
Esperou, até obter a atenção total de Amanda, antes de prosseguir:
- Falsas verdades. Já ouviu falar? A verdade distorcida é uma mentira, e uma mentira contada sem se saber que se trata de uma mentira é uma falsa verdade.
Fez mais uma pausa, desta vez para dar o efeito dramático que desejava:
- Se o casamento delas fosse mesmo tão perfeito, se elas fossem realmente tão apaixonadas, nenhuma das duas teria nem te olhado. E vamos combinar? Você conseguiu abalar não um, mas os dois lados! 
O brilho nos olhos de Amanda deixava evidente o quanto a tinha reanimado:
- Verdade.
Não satisfeita, Marina aconselhou:
- Se eu fosse você, agora eu só esperava.
Com o sentimento de missão cumprida, mais ordenou do que sugeriu:
- Esquece isso um pouco e vamos dançar e encher a cara!
Arrependeu-se um par de horas depois, quando teve que resgatar uma Juliana completamente bêbada das mãos do desconhecido que estava pronto para comê-la num canto nem um pouco escuro, de pé, encostada na parede mesmo e na frente de todo mundo.
- Não está vendo que a guria não tá em condições de consentir, porra?
O moreno deu de ombros:
- Você é mãe dela, por acaso?
E Marina respondeu bem ao estilo de Débora:
- Vai à merda!
Carregou Juliana para longe dele com muita dificuldade, pois ela mal ficava de pé. Foi recebida com reprovação por Bruno:
- Não entendi. Qual era o problema? Deixa a coitada da hetero se divertir!
Sentou Juliana em uma cadeira, ela cruzou os braços sobre a mesa, deitou a cabeça sobre eles e adormeceu. Só então Marina respondeu:
- Olha o estado dela. O cara ia se aproveitar, você não viu?
Débora aproveitou para questioná-la:
- Não foi o que você fez com a Amanda?
A indignação de Marina não poderia ser maior:
- É completamente diferente!
Nunca tinha feito nada sem o consentimento de ninguém. Bruno se retirou da discussão dizendo:
- Vou ali ver se alguém se aproveita de mim também.
Afastou-se, deixando as duas sozinhas. A desistência do amigo não fez Débora recuar. Pelo contrário, estava determinada a confrontar Marina:
- É diferente por que ele é homem?
Esta voltou a se defender:
- Por que não sabemos quem ele é.
A réplica de Débora seria incontestável:
- Não sabíamos quem você era também.
Se Marina não tivesse o melhor de todos os argumentos:
- A Amanda não estava quase inconsciente. Pelo contrário, sabia muito bem o que estava fazendo. Pode ter certeza que não me aproveitei, ela gostou bastante de tudo que aconteceu. 
A réplica de Débora foi inteiramente sarcástica:
- Só faltou você dizer que ela “estava pedindo”.
Conseguiu algo dificílimo, quase impossível: deixar Marina enfurecida:
- Ela gostou tanto que quis repetir. 
Arrependeu-se assim que terminou de falar, pois não só calou Débora, deixou-a visivelmente abalada. Pensou em se desculpar, mas não teve tempo. Amanda apareceu naquele exato momento:
- Sobre o que vocês estão falando?
Era a deixa que Marina precisava:
- Que é melhor levar sua irmã pra casa.
Não só pela fala enrolada, mas pela maneira que Amanda se atirou nos braços de Marina, ficou claro que ela não estava em muito melhor estado que Juliana:
- Vem comigo? 
Teve que fazer um esforço gigantesco para conseguir tirar as mãos de Amanda e afastá-la, assim que se soltava ela a enlaçava pelo pescoço novamente. Repetiu o gesto pelo menos quatro vezes enquanto dizia:
- Eu levo vocês pra casa, mas não vai acontecer nada entre a gente.
Amanda praticamente gritou:
- Por que não? Vai ser divertido, sempre foi...
Enlaçou Marina pela cintura, puxou-a para si, esfregou-se nela sem nenhuma sutileza, constrangimento ou pudor enquanto dizia: 
- Depois da Michelle, você foi a melhor trepada da minha vida...
Completamente sem noção, como se Débora não estivesse ali. E realmente, ela já não estaria, teria se afastado se Marina não a impedisse:
- Débora, espera! Por favor, me ajuda. Eu não dou conta das duas.
Só percebeu o duplo sentido depois, pelo jeito que Débora a olhou, ou melhor, a fuzilou com os olhos. 
Levantou as mãos, como quem se rende ou quer mostrar que é inocente. Fez questão de afastar qualquer dúvida que ela pudesse ter:
- Juro que não tem nada de sexual no que eu acabei de dizer.
Fez Débora rir, pela primeira vez desde que se conheciam:
- Tudo bem. 
Marina também riu, deixando Débora à vontade o suficiente para retribuir a brincadeira:
- Vamos levar as gêmeas do barulho pra cama. 
Piscou para ela, de um jeito que Marina achou delicioso e a fez sorrir sem nem sentir. O olhar sedutor que Marina lhe lançou fez Débora cair em si. Voltou a ficar séria, foi quase ríspida ao completar:
- Nada sexual no que eu falei também.


CONTINUA AMANHÃ...

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MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:


postado originalmente em 30 de Maio de 2017 às 18:00.






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