terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 25


Quando Amanda acordou no dia seguinte de manhã, a primeira coisa que viu foi Juliana, desmaiada ao seu lado na cama. Assim como ela, sem sapatos, mas ainda com a roupa da véspera. Pouco a pouco, a memória foi voltando, mas não completamente. O que lembrava era o suficiente para lhe dar a devida parcela de arrependimento e constrangimento.
Sem querer acordar a irmã, ligou para Marina do banheiro. Ela demorou, mas atendeu com o humor ácido de sempre:
- Estás viva?
Amanda não fez rodeios:
- Você e a Débora nos trouxeram aqui em casa? Ou eu sonhei?
Marina fez uma pausa do outro lado antes de responder:
- Não foi sonho. A Débora me ajudou, tivemos quase que carregar vocês. Depois levei ela em casa.
Impossível para Amanda esconder a surpresa:
- E as duas sobreviveram?
A pausa que Marina fez foi ainda maior do que a primeira. E, por fim, acabou dizendo apenas:
- Prefiro não falar mais sobre ontem.
Aquilo causou em Amanda a mais terrível desconfiança:
- Eu fiz alguma coisa da qual devo me arrepender?
A resposta veio de uma maneira absolutamente debochada:
- Deixa eu ver... Você tentou me agarrar, se esfregou em mim em público, insinuou que a Débora é ruim de cama e todo mundo que estava na festa ontem sabe que você pegou uma professora chamada Michelle. Ou melhor, que ela pegou você. Só isso. Nada demais.
Só havia uma única coisa a dizer:
- Puta merda!


Assim que encerrou a ligação com Marina, ligou para Débora:
- Eu queria me desculpar por ontem. A Marina me contou que...
Débora nem a deixou completar:
- O que ela falou? Com certeza quis contar vantagem!
Confundiu Amanda completamente:
- Como assim? Não estou entendendo... 
A indignação de Débora era tão grande que a impediu de perceber que estavam falando de coisas diferentes:
- Ué, ela não te contou sobre ontem à noite?
Apesar do medo que estava de perguntar, Amanda precisava saber:
- Afinal, o que foi que aconteceu?
O desespero na voz de Amanda fez Débora finalmente compreender que tinha falado demais. A primeira reação que teve foi surpresa. Marina não tinha se vangloriado, sequer havia contado. Era algo que jamais esperaria dela. Preferiu não pensar no motivo que a levara a ser tão discreta. Por fim, acabou dizendo:
- A Marina me beijou.
Revelação que não era totalmente inesperada. Impossível deixar de perguntar:
- E você não beijou ela de volta?
Óbvio que Débora não iria, não tinha por que mentir:
- Beijei, mas... 
Uma breve pausa antecedeu o momento em que se permitiu desabafar:
- Ah, nós ficamos. No seu apartamento e depois no carro dela. Mas a gente só se beijou, não rolou nada mais do que isso.
Débora acolheu como verdade a ideia de que provavelmente era essa a razão de Marina ter se mantido calada. Afinal, não seria nem um pouco positivo para a reputação dela não ter conseguido nada além de beijos bem comportados, sequer tinham entrado em preliminares. 
Sem saber o que era mais inacreditável, Débora e Marina terem ficado ou não terem feito sexo, Amanda só conseguiu dizer:
- Não acredito! 
Assim que se recuperou do choque, foi tomada pela mais intensa curiosidade:
- Mas como assim? Me conta isso direito! O que você achou? Como é que foi?
Saiu numa explosão:
- A Marina é louca! É uma inconsequente, uma safada que não vale nada! Uma vadia! Uma cafajeste!
Amanda riu:
- Não foi isso que eu perguntei. 
Mudou completamente o tom, foi incisiva quando a questionou:
- Você gostou ou não gostou?
Débora, suspirou, hesitou, mas não negou. Confessou muito mais para si mesma:
- Gostei. 
No entanto, aquilo não mudava nem o que pensava sobre Marina, muito menos o que já tinha decidido:
- Mas não vai acontecer de novo.


Depois que a conversa com Débora terminou, Amanda ligou para Marina outra vez:
- Eu não acredito que você ficou com a Débora ontem e não ia me contar!
Na voz de Marina havia uma tensão e uma ansiedade que não lhe eram habituais:
- Ela te contou? O que ela falou?
Amanda se ateve aos fatos:
- Que vocês ficaram, aqui em casa e no seu carro, mas que só se beijaram e não aconteceu mais nada.
Marina deixou escapar um suspiro:
- É. Foi isso.
E se calou, obrigando Amanda a dizer:
- Tá, mas quero saber mais. 
Nem assim conseguiu quebrar o silêncio de Marina. Insistiu:
- Como é que foi, o que você achou? Foi bom?
Saiu numa explosão:
- A Débora é muito certinha, toda comportada, colocou limites, tirava a minha mão, e... Não deixou rolar nada, me deu só uns beijos e me cortou. Me senti de volta aos tempos da escola.
Chegava a ser engraçado ver Marina daquele jeito. Amanda riu e perguntou, exatamente como tinha feito com Débora:
- Mas você gostou?
Não houve hesitação alguma por parte de Marina. Pelo contrário, ela aproveitou para desabafar:
- Gostei. Mas não fiquei nem um pouco satisfeita. Ah, eu queria mais, né?
Era surpreendente:
- Quer dizer então que a Débora te deixou com um gostinho de quero mais? 
Impossível para Amanda deixar de pensar: “Garota esperta!”
Mesmo sabendo que Débora não tinha agido de forma calculista nem proposital. O resultado tinha sido melhor do que o esperado, pois nunca tinha visto Marina tão desconcertada:
- Depois a gente fala sobre isso.


Amanda estava sentada com Juliana, Débora e Bruno no barzinho de sempre, quando Marina chegou. Não foi coincidência, a própria Amanda tinha avisado onde estariam, “caso Marina quisesse aparecer”. 
Algo lhe dizia que não faria mal dar um empurrãozinho nas duas cabeças duras. E, pelo visto, estava certa.
Ao invés do “oi” geral de sempre, Marina andou ao redor da mesa, cumprimentando cada pessoa individualmente. Deixou Débora por último. Segurou-a pela cintura com uma intimidade que só Amanda compreendeu. Roçou os lábios em seu rosto e, antes de soltá-la, soprou em seu ouvido, algo que só Débora escutou e que a deixou involuntariamente vermelha. Depois, puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela:
- E então, Amanda? Novidades?
Resposta veio acompanhada de um suspiro:
- A Michelle e a Laura postaram fotos de Gramado.
Na mesma hora, Marina perguntou:
- Fotos das duas juntas?
Amanda foi igualmente rápida:
- Não. Só de paisagens.
Marina tentou tranquilizá-la:
- Isso é um bom sinal, não acha?
Mas Amanda conhecia Michelle e Laura o suficiente para saber:
- Isso não quer dizer nada.
No entanto, Marina discordava:
- Como não? Postariam fotos delas se estivessem mesmo juntas.
Débora a contestou, de uma maneira absolutamente agressiva, irônica, quase ácida:
- Não é todo mundo que tem a necessidade de se exibir. Tem quem prefira não se expor.
A réplica de Marina foi dada no mesmo tom:
- É, tem quem prefira esconder o que faz.
Olhou significativamente para Débora, que sustentou o olhar dela, mas não foi capaz disfarçar o próprio desconforto:
- Tem coisas que é melhor esquecer, fingir que nem aconteceram.
A mensagem foi imediata e inteiramente compreendida por Marina. Havia uma mágoa indisfarçável na voz dela quando disse:
- É, acho que é esse o caso. 
Antes de se levantar, lançou para Débora:
- Vou jogar sinuca na mesa apropriada.
Depois que Marina sumiu de vista, um Bruno completamente chocado se virou para Débora:
- O que foi isso? 
Foi sumariamente cortado:
- Nada que mereça comentários.
Antes que Bruno pudesse insistir, Amanda interveio, distraindo-o da única forma possível:
- Ai, gente... Será que elas voltaram ou não? Essa dúvida está me enlouquecendo!
A conversa voltou a ser sobre Michelle e Laura, mas a atenção de Amanda estava em Débora. Observou a amiga atentamente. Ela permaneceu distante, o pensamento longe, parecendo incomodada e inquieta. De repente, se pôs de pé e anunciou:
- Vou ao banheiro.
Afastou-se rápido, deixando Amanda com uma desconfiança que a fez sorrir internamente.
Suas suspeitas foram confirmadas meia hora depois, quando a demora de Débora fez Bruno ir atrás dela e ele retornou inteiramente perplexo:
- Gente, tô passado! Vocês não vão acreditar no que eu acabei de ver!
Completou com o que Amanda já esperava:
- A Débora e a Marina estão se pegando lá dentro!
Amanda não disse nada, sabia muito bem ao que ele se referia. Juliana quis ter certeza, já que a expressão tinha duplo sentido e a primeira coisa que lhe veio à mente parecia impossível:
- Brigando ou se agarrando?
Bruno esclareceu, confirmando que, por mais inconcebível que fosse, era mesmo aquilo:
- Aos beijos, no maior amasso!
Teria dado maiores detalhes, se Débora não tivesse voltado para a mesa:
- Eu já vou indo.
Pegou a bolsa, deixou a parte dela da conta em dinheiro em cima da mesa, se despediu depressa e saiu mais rápido ainda. Antes que pudessem contar até cinco, Marina passou por eles. Acenou, também aparentando pressa:
- Deixei duas cervejas pagas. Tchau!
E foi embora também. Não precisava ser um gênio para compreender. Juliana deixou escapar:
- Genteeee... 
Bruno concordou em gênero, número e grau:
- Inacreditável!
Amanda apenas sorriu, feliz pelas amigas. Para ela, não parecia absurdo. Pelo contrário, fazia total sentido.



Amanda não voltou a ver nem a falar com Bruno, Débora e Marina durante o resto do final de semana. Encontrou-os na aula na segunda-feira de manhã. A primeira coisa que Bruno perguntou foi:
- E a sua irmã?
Amanda sem tirar os olhos de Débora:
- Foi embora ontem.
Sem aguentar de curiosidade, perguntou diretamente para ela:
- E aí? Alguma novidade?
Mas Débora não parecia disposta a falar nada:
- Não. Por que teria?
Bruno segredou para Amanda:
- Acho deu alguma merda entre ela e a Marina. 
Por um instante terrível, Amanda cogitou a hipótese do táxi e do primo, mas a afastou rapidamente, pensando: “Não, a Marina não faria isso”. 
Parecia improvável, mas não era impossível.
Tentou avaliar a atitude das duas, sem grandes resultados, pois durante toda a aula, Débora não ergueu os olhos da própria mesa e Marina também não olhou para Débora.
Na hora do almoço, Marina a chamou para ir a um dos restaurantes do Centro de Convivência com ela. Assim que se sentaram, foi dizendo:
- Você já se interessou por uma pessoa complicada?
Amanda riu:
- Sempre.
Pura verdade. Nenhuma havia sido fácil. Nem mesmo a própria Marina. Aproveitou para sanar a dúvida que durante toda a manhã a tinha preocupado:
- Você não fez nada que envolva táxis e primos com a Débora, fez?
A reação de Marina foi imediata:
- Lógico que não!
Indignação completamente incoerente. Amanda fez questão de lembrá-la:
- Ué, vai saber... Fez comigo.
Na mesma hora, Marina retrucou:
- É completamente diferente.
Fazendo Amanda se surpreender:
- Mesmo? 
Ficou curiosíssima:
- Diferente como? 
Percebendo que já havia dado mais informação do que pretendia, Marina se calou. Mas Amanda não ia desistir:
- Você está apaixonada pela Débora?
Óbvio que Marina negou:
- Epa! Quem falou em estar apaixonada aqui? Que mania que você tem de estar apaixonada! Eu não estou apaixonada, eu estou interessada na Débora.
No entanto, Amanda não ficou nem um pouco convencida:
- Tá.
Tentou compreender:
- Afinal de contas, o que aconteceu? O que você fez?
A última pergunta deixou Marina indignada:
- Por que você tem tanta certeza de que fui eu que fiz algo?
Amanda chegou a rir:
- Quem mais? 
A seriedade de Marina fez Amanda começar a acreditar:
- Se quiser mesmo saber, posso te contar.
Sem grandes detalhes, e com uma emoção visível, Marina falou sobre a noite que havia passado com Débora e a manhã seguinte. Quando terminou, Amanda estava perplexa:
- “Foi só uma trepada, não vamos complicar”? Foi isso mesmo que a Débora te disse?
Mais ainda ao ter a confirmação do inimaginável:
- Sem tirar nem pôr, com todas as letras.
Só lhe restava ser sincera:
- Não sei nem o que dizer. Estou passada.
Felizmente, Marina era Marina, mesmo numa situação como aquela. Ao invés de se lamentar, deu risada, achando graça e debochando de si mesma:
- Antes isso do que: “aqui se faz, aqui se paga”.
Nesse exato momento, Amanda sentiu que alguém a olhava. Ficou paralisada ao deparar-se com Michelle parada, apenas alguns metros atrás de Marina. 


Michelle viu Amanda assim que entrou. Sentada em uma das mesas com outra garota, inteiramente entretida. Pensou em aproveitar para passar despercebida, mas foi mais forte do que ela. Não pensou, apenas parou para observá-la. Quando se deu conta, Amanda já a tinha visto. 
Cumprimentou-a com um aceno de mão e saiu o mais rápido possível dali. Não estava preparada, não podia nem queria pensar sobre isso. 
O final de semana com Laura, o término do relacionamento delas em definitivo era como uma ferida não cicatrizada e inflamada, com pus saindo. 
Não se conformava com o fato do ponto final ter sido depois de terem ido para a cama. Devia ter disfarçado, mentido, mas no fundo, por mais que quisesse, seria impossível. Não só para ela, para Laura também, o sexo tinha sido ruim. Pior do que isso, pois tanto o amor quanto o tesão ainda existiam. Em pedaços, estilhaçados, partidos, mas estavam ali. 
Tinham dormido abraçadas depois, trocado um último beijo pela manhã. O regresso na estrada num clima inversamente contrário ao da ida. Um silêncio terrivelmente doloroso se estabelecendo cada vez que um dos CDs terminava e Michelle não percebia. Também errou o valor de todos pedágios, deu menos ou mais moedas do que deveria, se sentindo mais vazia do que a caixa térmica no banco de trás, que também não tinha sido reabastecida.
Quando finalmente chegaram a Florianópolis, não houve alívio. Laura estacionou em uma das vagas de visitantes do prédio de Val e Michelle só conseguiu desejar ter uma palavra mágica que pudesse fazer com que pudesse voltar. Para sua casa, seu casamento, sua vida com Laura. Mas não existia tal palavra, nenhuma magia capaz de fazê-la recuperar o que já era passado. Ao invés disso, vislumbrou o futuro projetado e lançado por Laura, tão definitivo quanto uma sentença transitada em julgado:
- Eu quero que você se sinta livre pra viver a sua história. A partir de agora eu vou fazer o mesmo.
Depois de ter sido escondido e reprimido durante anos e anos, o protesto de Michelle saiu com uma facilidade incrível:
- Eu não acredito que, mais uma vez, você está deliberando a minha vida.
Laura não se abalou:
- Estou apenas decidindo a minha.
Estava realmente determinada:
- Michelle, por favor, não faça ser mais difícil do que já é. Não me procure nem me ligue para nada que possa ser remotamente pessoal. Precisamos seguir com as nossas vidas.
Michelle olhou profundamente para Laura, com uma tristeza infinita. Duas lágrimas desceram quando, com um gesto de cabeça, assentiu antes de sair do carro:
- As you wish.
Referência direta a um filme que ambas adoravam: “The Princess Bride”, em português “A Princesa Prometida”. Tinham perdido a conta de quantas vezes o tinham assistido juntas. Exatamente por isso, Michelle sabia que Laura compreenderia o que queria dizer. Que de forma incondicional, a tinha amado, a amava e sempre amaria. 
Foi arrancada de seus devaneios pelo som do celular. Pegou o aparelho dentro da bolsa apenas para confirmar o que já suspeitava. Era Amanda no whatsapp: “estava com saudade. adorei ver vc”
Não pensou, respondeu a verdade: “Foi bom te ver também”
Levou algum tempo para que a próxima mensagem entrasse: “vcs voltaram?”
Surpreendentemente direta. Michelle admirou a coragem. Inspirou-se nela para ser capaz de expor, assumir e aceitar a verdade: “Não.”
Desta vez, Amanda não demorou nada. Enviou quase de imediato: “Desculpe, mas não posso dizer que lamento”.
Deixou Michelle sem palavras e com uma única certeza.  Não estava pronta, era cedo demais. Precisava chorar, sofrer e expurgar as próprias perdas primeiro.


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postado originalmente em 31 de Maio de 2017 às 18:00.






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