terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 26


Foi como se estivesse perdida, navegando à deriva, que Laura passou aqueles primeiros dias. Tentando inutilmente compreender, justificar, ao menos aceitar o que tinha acontecido. No entanto, era impossível. Deparar-se com o fato de que tudo que julgava eterno, certo e seguro ser tão efêmero e perecível quanto a sua própria vida. A única certeza que lhe sobrara era a de tudo ser transitório, inclusive ela mesma. 
Conclusão que a impulsionou durante as semanas que formaram o mês que marcou a dissolução do contrato de união estável, a venda do apartamento e a divisão de todos os móveis e coisas adquiridas e compartilhadas com Michelle. Lembranças de viagens, CDs, livros, fotografias. Não passavam de objetos despojados de qualquer sentido. 
Queria se livrar de tudo. Passado, amarras, dores e mágoas. Olhar sem comprometimento para o futuro. 
O que importava, o que tinha realmente ficado de todos aqueles anos, carregava consigo. Uma parte de si mesma que sempre pertenceria à Michelle, mas que a partir daquele momento não mais detinha o protagonismo. 
Quando cogitou se livrar da Jukebox, a mãe interferiu. Tinha a resposta pronta para os protestos dela:
- Estou exercitando o meu desapego.
Não foi capaz de convencê-la:
- Laura, quando isso passar, você vai se arrepender. Não se desfaça de algo que você adora, eu guardo aqui em casa pra você.
Inútil discutir. Acabou com a máquina de música ocupando boa parte da sala do apartamento que tinha alugado. Bem menor do que o anterior, pois sozinha já não precisava de tanto espaço.
Mais uma discussão se deu por conta disso. Desta vez com o pai, que não se conformava. Segundo ele, pagar aluguel era dinheiro perdido. Comprar um apartamento seria o melhor a fazer com a parte dela do imóvel vendido. Aliás, por um preço absurdo, muito abaixo do mercado – o pai de Laura não se cansava de repetir. 
Laura o deixava falar, pois ele não entenderia, sequer a escutaria. Acharia seus argumentos completamente insanos. Jamais concordaria com o fato de Laura não querer mais acumular bens de qualquer espécie. 
Como explicar a ele que, para possuir algo, teria que se deixar ser possuída? 
O oposto do que precisava e desejava, pois estava resolvida a se libertar de tudo que a prendia. Sua forma de lidar com a perda era evitar que se repetisse.
E apesar de todos acharem e lhe falarem que estava confusa, perdida e louca, nunca estivera mais lúcida, nem tão centrada em si mesma. Não a Laura para os outros, preocupada em agradar e fazer concessões para ser aprovada em julgamentos e referenciais de terceiros, mas a verdadeira Laura, plena em sua real essência. 
Ironicamente, devia isto a Michelle. A desconstrução do que tinha se tornado por ela, com ela, para ela.
Inevitável que a mudança interna se refletisse em sua aparência. 
- A separação te fez muito bem!
Frase cuja repetição se tornou uma constante. 
Mas por melhor que pudesse parecer, fazia Laura sorrir apenas. Pois só ela e mais ninguém sabia como se sentia realmente. 
Nadando incansavelmente, sem nunca escapar da correnteza que a puxava e segurava de forma inexorável, impedindo-a de ir para frente. 
Entrou em um aplicativo de encontros. Conversou com várias mulheres, saiu com três, beijou duas, fez sexo com uma. Não se interessou por ninguém. 
Sentia falta de Michelle. Evitava encontrá-la, sempre que possível. De vez em quando se via com o celular na mão, desejando ligar, apenas para ouvir a voz dela. 
Quando beirou o insuportável, e se tornou quase inviável resistir, voltou para o aplicativo. Marcou um novo encontro, se aventurou com mais uma desconhecida. Acabou encontrando aquela com quem sentiu vontade de repetir. Levou-a para casa no segundo encontro. Assim que entraram na sala, ela perguntou:
- Onde está o sofá?
Laura respondeu:
- Não tenho.
Com uma única certeza: continuava andando em círculos.


O final do semestre mergulhou Amanda num turbilhão de estudo, provas, entregas de trabalhos, que foi altamente positivo, pois não tinha tempo para remoer o fato de Michelle visualizar toda as mensagens que enviava, apesar de nunca mais ter respondido.
Administrou como pôde a falta que sentia dela, o sentimento de rejeição que a consumia, a frustração que tudo aquilo trazia. 
Na sexta-feira da última semana de aula, Bruno a chamou durante o intervalo e disse:
- Estou de saco cheio dessa porra!
Sem ter como adivinhar ao que ele estava se referindo, perguntou:
- Do que você está falando?
Ele se exaltou mais ainda:
- De que seria? Débora e Marina.
Durante o mês inteiro, elas tinham se evitado. Quando se encontravam, fingiam uma normalidade que não existia. Para quem via de fora, especialmente para Bruno e Amanda que as conheciam, a tensão entre as duas era evidente. Bem como o fato de só não estarem juntas por medo e teimosia.
- O que você propõe? 
Não conseguiu saber se era sério ou brincadeira:
- Embebedar as duas?
De qualquer forma, uma coisa era certa:
- Acho que basta colocá-las na mesma mesa.
Para Bruno também pareceu infalível:
- Então fechou. Eu levo a Débora e você leva a Marina. É hoje!


Assim que Amanda entrou no bar, a viu. Sentada na cabeceira de uma mesa imensa, ou melhor, de um monte de mesas juntas. Sua surpresa foi tamanha que talvez tivesse dado meia volta se não tivesse combinado com Bruno. 
Na mesma hora, Marina percebeu seu desconforto. Seguiu o olhar fixo de Amanda e descobriu o motivo:
- Aquela ali é a Michelle, né? 
Amanda assentiu com um aceno de cabeça. 
- Quer ir pra outro lugar? 
A pergunta de Marina a fez se recuperar:
- Não. Vamos ficar. 
Tomou a frente e atravessou o bar com uma lentidão proposital, para que Michelle a visse. Escolheu a mesa com um objetivo específico: poder olhar para ela. Era o mínimo.


Naquela noite, Michelle estava se sentindo particularmente sozinha. Não que fosse novidade, agora fazia parte da sua rotina. Mas acabou cedendo à insistência dos alunos da disciplina que ministrava na pós graduação e foi com eles para um barzinho, com o objetivo de comemorar o final do semestre. Fazia semanas, mais de um mês, que não saía. Desde que havia voltado de Gramado, para ser mais precisa.
Tinha sido atropelada não só pelo turbilhão de dias, mas pela avalanche emocional em que estivera imersa durante a separação oficial no cartório, os detalhes burocráticos da venda do apartamento, a recusa de Laura em ficar com qualquer objeto ou móvel que tivesse sido delas. Michelle tinha mantido o que podia. Quase nada, pois em sua casa nova não cabia o passado. Não era uma questão de escolha, mas de ser materialmente impossível, não possuía espaço físico. 
Ultrapassou, mesmo sem saber como, o auge de toda a dor, que foi se desfazer do casamento, da relação e de Laura espiritualmente. Não atravessar o corredor que ela sempre usava, não passar na frente da sala onde ela estava, evitá-la sempre que possível, tornar a existência das duas inconciliável, ao menos em termos de espaço e tempo. Afastar a vontade de procurá-la, de vê-la, de ouvi-la. 
As mensagens que Amanda lhe enviava, com uma persistência inesperada, mas de forma alguma invasiva – e que Michelle nunca respondia -, eram a única coisa capaz de diminuir a dor que sempre trazia consigo, e que cultivava com um prazer masoquista. O mesmo que a fazia dar longas caminhadas pela praia, enfrentando e vencendo a areia úmida que afundava sob seus pés e o vento gélido que a açoitava. O inverno não parecia nem um pouco rigoroso se comparado ao frio, à instabilidade e ao vazio que carregava.
Queria expurgar a culpa que sentia se punindo. Desejo e reparação. Crime e castigo. 
Um auto flagelo que havia servido como base de reconstrução e ao mesmo tempo, tinha fortalecido Michelle a ponto de permitir que estivesse ali.
Estava rindo de algo que um dos alunos dissera quando Amanda entrou no bar. O riso morreu, sumiu de seus lábios assim que a viu. 
Linda, muito linda. E acompanhada pela mesma garota que estava com ela da última vez que a vira. Talvez estivessem juntas.
“Melhor assim”. 
Tentou se convencer, sem resultado. A partir dali, não conseguiu mais tirar os olhos da mesa onde ela estava. Precisava saber. 
Toda vez que olhava, encontrava o olhar de Amanda buscando o seu.
Acompanhou à distância, o que provavelmente era rotineiro para ela. O rapaz e a moça que chegaram. Essa ela conhecia, era a amiga que tinha dormido com Amanda e depois entrado pelada na sala. “Qual era mesmo o nome dela?”. Lembrou-se logo depois: “Débora”. Os quatro jovens ali sentados conversando e bebendo cerveja. A discussão acalorada que se seguiu entre as duas garotas antes da que tinha chegado com Amanda se levantar, seguida de Débora. Mais palavras que não conseguiu ouvir, mas compreendeu, pelos gestos e pelos corpos de ambas, o que se seguiria. Logo depois, exatamente como tinha previsto, as duas estavam aos beijos. 
O que significava que Amanda não estava nem com uma, nem com outra. Conclusão que fez Michelle sorrir, sem nem perceber.
O casalzinho voltou a sentar na mesa, as duas completamente alheias ao resto do mundo e o olhar de Michelle as deixou. 
Procurou Amanda novamente. Ela sorriu e se levantou, encarando-a. Por um instante derradeiro, Michelle pensou que Amanda viria até ela. 
Mas não. Depois de lançar um olhar significativo para Michelle, Amanda caminhou até o banheiro. 
Michelle recebeu a mensagem imediatamente. Fazia tempo, mas ainda era capaz de ler os sinais, de compreender aquele tipo de provocação e convite. 
Poderia permanecer sentada, ignorar, fingir que não tinha percebido. Ao invés disso, resolveu fazer o que queria, aceitar o próprio desejo e atender ao que cada célula de seu corpo pedia. 
Pôs-se de pé e a seguiu.


Amanda tinha lançado sua cartada mais ousada e derradeira. No entanto, nunca, jamais esperaria, nem em seus mais loucos devaneios, que Michelle realmente viesse atrás dela. Depois de dias e dias de silêncio, parecia inacreditável. Irreal. Impossível. 
Por isso, ficou muda e imóvel, praticamente em choque quando a porta do banheiro se abriu e ela surgiu.
Michelle não falou nada, foi sem uma palavra que avançou, segurou o rosto de Amanda entre as mãos e a beijou. Ao ser integralmente correspondida, esqueceu de todo o resto. Quem era, onde estava, com quem estava e até mesmo que a qualquer momento uma de suas alunas poderia entrar naquele banheiro.
Não foi isso que a fez puxá-la para dentro de um dos reservados, mas a necessidade de sentir o gosto, o toque, a textura, o cheiro de Amanda integralmente.
Encostou-a na parede e comprimiu o próprio corpo contra o dela, desceu a boca pelo pescoço, passeou a mão direita pela parte interna das coxas, enquanto com a esquerda lhe acariciava um dos seios. 
Foi quando ergueu o vestido dela, pronta para ultrapassar a barreira da calcinha, que Amanda protestou:
- Não, assim não... Para... Espera...
Michelle a soltou imediatamente, a voz repleta de culpa, vergonha e arrependimento:
- Me desculpe, eu... Nem perguntei se você queria...
Amanda não deixou que ela se afastasse:
- Eu quero. 
Puxou Michelle pela cintura, colou os corpos novamente. Passou os lábios por seu pescoço enquanto a fazia compreender:
- Mas não esperei mais de dois meses pra você me comer dentro de um banheiro de bar.
Inteiramente deliciada e arrepiada, Michelle não foi capaz de responder. Amanda aproveitou para tomar a iniciativa:
- Vou te enviar meu endereço pelo whatsapp.
Segurou Michelle pela nuca e a beijou, com uma intensidade que deixou as duas sem ar. Soltou-se logo depois. Antes de sair soprou:
- Espero por você no meu apartamento.
Deixando Michelle com um gostinho de quero mais e a promessa do que aquela noite poderia vir a ser.

CONTINUA AMANHÃ...

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MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:


postado originalmente em 02 de Junho de 2017 às 18:00.






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2 comentários:

  1. Travessia do deserto penosa para ambas. Para preencher o vazio que se instalou vão por caminhos distintos, uma desbravando com sofreguidão o desconhecido e a outra mais comedidamente mas não menos sôfrega voltando ao "pecado"...parece-me que ambos os caminhos vāo dar ao mesmo entulho ...Amanhã VEREMOS rsrsrs...Para já este capítulo de hoje deixou-me com uma sabor amargo...Mas ansiosa por mais, mesmo não prevendo coisa boa... ;)
    Bjs :)

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  2. Parece que so eu adoro a Amanda.....O menina linda e pecaminosa.....rsrsrsrs. Torcendo por ela e Michele. Já quero é ver o Oco, visto que a Autora resolveu juntar Debora e Marina, já quero Laura e Elaine juntas. Enfim, infelizmente não consigo visualizar Laura e Michele juntas novamente, seria como brincar com a personalidade de cada uma. Talvez se fosse Laura a trair, Michele é mais elevada e conseguiu superar até a eterna paixão platonica de Laura por Elaine, quem sabe? Um relacionamento como o delas talvez não resistisse a um vendaval, que era o interesse de Laura, agora imagine o Tsunami Amanda e Michele, digo isso porque tenho um relacionamento com quase o mesmo tempo e com as mesmas bases, amor, companheirismo e tempo. Claro que no meu sem Amanda!!!Quem resiste a ela?! Quando li os capítulos da traição e os que se sucederam, fiquei em choque! foi uma paulada e uma estocada no coração, cheguei na esposa e disse: se fizer isso te trucido..rrsrsrsrs. a resposta: você anda lendo demais...rsrsrs. Como sei que a Diedra é lógica, mas ao mesmo tempo adora cutucar o obvio (por isso amo seus textos) estou no aguardo, e reafirmo....quero ver o OCO.

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