terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 29


Após voltar do almoço na segunda-feira, Michelle se surpreendeu ao se deparar com Elaine esperando-a em sua sala.
- O que você está fazendo aqui?
Ela continuou sentada ao responder:
- Sua colega me deixou entrar. 
Esperou em silêncio enquanto Michelle entrava, fechava a porta e colocava a bolsa e as pastas que carregava em cima de sua mesa. Depois, se pôs de pé e foi direta:  
- Eu vim falar sobre a minha filha.
A despeito de nunca terem sido grandes amigas, de Elaine sempre ter sido uma pedra em seu sapato, um fator destrutivo em sua relação - na verdade durante todos aqueles anos, o papel que Elaine ocupara na vida de Michelle era de adversária, rival na atenção e no amor de Laura - a última coisa que Michelle queria era confrontá-la:
- Eu não tenho nada pra falar com você.
Com uma lentidão proposital, Elaine se aproximou, parou a centímetros de Michelle para dizer:
- Eu vim porque quero ver se você tem coragem de olhar nos meus olhos e me confirmar que é verdade.
Impossível para Michelle sustentar aquele olhar. A acusação que ele continha alimentava a sensação de erro, delito e pecado que carregava e que estava tentando arrancar de si mesma. Afastou-se, foi de costas para Elaine que falou:
- Você deveria conversar com a sua filha.
Mas Elaine estava determinada, não tinha enfrentado horas na estrada para deixá-la escapar impune tão facilmente:
- Eu já conversei com a Amanda. O que eu quero entender é o que você pretende com essa relação.
Uma resposta que a própria Michelle não tinha. Ainda estava tateando, fosse o que fosse, era algo novo, muito no início. Não tinha como definir. Disse a verdade, sem encará-la ainda:
- Não foi nada planejado. Aconteceu.
O fato de Michelle permanecer de costas, a confusão e a melancolia impressas em sua voz e a indefinição de uma intenção real por parte dela deixaram Elaine ainda mais enfurecida:
- Aconteceu o quê? Você seduziu a minha filha, está se aproveitando das fantasias românticas dela, abusando da ingenuidade de uma menina de 18 anos. A Amanda é uma criança perto de você!
Conseguiu fazer com que Michelle se virasse para ela, finalmente. Mas o tom que ela usou foi oposto ao de Elaine, controlado, baixo, quase sereno:
- Eu não seduzi a sua filha. Não vou nem tenho que ficar me defendendo porque não me sinto culpada, não fiz nada de errado. Não estou me aproveitando nem abusando dela. A Amanda quis e quer tanto quanto eu.
Quem se alterou foi Elaine:
- Você deveria ter vergonha, Michelle!
Depois de um instante de silêncio absolutamente tenso, Michelle perguntou:
- Era isso que você tinha pra me dizer? 
Completou com a mesma altivez irônica da frase anterior:
- Tenho que dar uma aula agora.
Pegou a bolsa e as pastas e teria saído, se Elaine não a impedisse, segurando-a pelo braço: 
- Só mais uma coisinha. 
Pela primeira durante toda a conversa, os olhos das duas realmente se encontraram. Mantiveram-se presos enquanto Elaine falava:
- Eu sei que isso vai passar. A Amanda vai se cansar de você, ela tem uma vida inteira pela frente. Mas você jogou fora tudo que tinha construído com a Laura. E vai se arrepender.
Soltou Michelle de forma tão abrupta que ela deu dois passos para trás. Só então concluiu:
- Agora sim, eu terminei.
Virou-se e foi embora majestosamente. 
Assim que Elaine saiu da sala, Michelle se deixou cair na cadeira mais próxima, com as pernas e as mãos tremendo. Expirou, colocando para fora todo o ar que tinha nos pulmões e a tensão daquele momento. 
Levou alguns minutos para se recuperar e, quando o fez, não foi completamente. 
As palavras de Elaine - em especial o augúrio final - a acompanharam o dia inteiro.


A primeira coisa que Laura fez quando chegou na academia naquele dia foi procurar a instrutora que tinha destratado no sábado. Descobriu o nome dela com uma das recepcionistas antes de abordá-la:
- Gabriela? Será que eu poderia falar com você?
Ao contrário do que Laura esperava, ela sorriu e foi absolutamente simpática e receptiva:
- Claro. No que posso te ajudar?
Tornou tudo muito mais fácil para Laura:
- Eu queria me desculpar. Fui grosseira com você, por favor, me perdoe. 
A aceitação de Gabriela foi imediata:
- Imagina! Tudo bem.
A maneira que ela sorriu fez com que Laura sentisse uma necessidade inexplicável de se justificar:
- Acabei de passar por uma separação difícil e no sábado recebi uma notícia que me deixou um pouco transtornada. Sei que não exime a minha culpa, mas... Foi por isso.
Gabriela deixou escapar um suspiro:
- Sei bem como é. 
Olhou nos olhos de Laura quando completou:
- Faz quase um ano que me separarei e confesso que ainda não consigo ficar completamente indiferente quando recebo notícias dela.
Laura foi incapaz de disfarçar a surpresa, muito mais por Gabriela ter feito questão de deixar claro que tinha sido casada com uma mulher do que pelo fato de ela ser lésbica. O “lesbian gaydar” de Laura raramente errava, detectava quase com perfeição suas semelhantes. 
A última dúvida que tinha se transformou em certeza com o olhar que ela lhe lançou e o tom que usou quando disse:
- Como te disse no sábado, se tiver alguma coisa que eu possa fazer pra te ajudar... Estou a sua disposição. E já te adianto que sou uma ótima ouvinte.
Estava claríssimo. Apesar disso, a auto estima de Laura estava baixa o bastante para que não acreditasse completamente que uma mulher tão linda como aquela pudesse ter algum interesse nela. Sorriu de uma maneira quase tímida, convidou com uma insegurança visível:
- Quer tomar um açaí comigo?
Apesar de parecer impossível, o sorriso de Gabriela se tornou mais caloroso ainda:
- Vou adorar.
A conversa fluiu com facilidade e foi muito mais agradável do que Laura poderia imaginar. Infelizmente, durou muito menos do que gostaria, porque Gabriela se levantou e propôs:
- Vamos?
Explicou logo em seguida, deixando claro que não queria dar margem a nenhum mal-entendido:
- Já estourei meu tempo de lanche. E você precisa treinar, não pense que vou aliviar pra você...
Piscou para Laura de uma forma implicante e, ao mesmo tempo, deliciosamente provocante e sedutora. 
Depois que voltaram para a sala de musculação, Laura se preparou para se afastar, mas Gabriela disse: 
- Vou te acompanhar bem de perto, observei erros na execução de alguns movimentos que precisamos corrigir.
Laura não se lembrava de já ter percorrido, em tão curto espaço de tempo, emoções e sensações tão diversas e díspares. 
O prazer pela companhia dela misturando-se à inibição causada por estar sendo minuciosamente observada, a ansiedade e a expectativa ao tentar executar os exercícios de forma correta, os arrepios indescritíveis e uma tensão incontrolável cada vez que Gabriela se aproximava e, com uma lentidão intencional - sutil e irresistivelmente sedutora - corrigia a amplitude do movimento, o ritmo de execução ou mostrava o ângulo certo, levando Laura a ter cada vez mais vontade de errar, apenas para que ela a tocasse, para sentir a firmeza suave das mãos dela novamente. 
Quando o treino terminou, não era só por causa do esforço físico que a respiração e a pulsação de Laura estavam alteradas e sua pele parecia arder. 
Anos e anos de condicionamento fizeram com que seu primeiro pensamento fosse ir para debaixo de um chuveiro frio. Só depois se lembrou que não precisava se conter, negar nem fugir da atração, muito menos reprimir a vontade que estava sentindo. 
Era solteira. 
Livre e desimpedida. 
Riu...
De si mesma e da vantagem que seu novo estado civil lhe conferia. Pela primeira vez, via o lado bom e pensava na separação como um benefício. 
Virou-se para a responsável por tal mudança com seu sorriso mais irresistível:
- Você não quer sair...?
Não que fosse preciso, pois estavam em sintonia:
- Que acha de sair...?
Riram juntas, achando graça por terem falado ao mesmo tempo e felizes por estarem sendo correspondidas. 
Foi Laura quem se recuperou primeiro:
- Hoje à noite?
Gabriela não hesitou:
- Eu saio por volta das sete. Assim que estiver livre te ligo. 
Laura passou seu número, mas não anotou o dela, pois tinha deixado o celular dentro da bolsa, no armário do vestiário. 
Já tinha acabado a última aula, estava descendo o primeiro lance de escadas quando o celular tocou. Parou e olhou para o visor: número desconhecido. Ainda era cedo para ser Gabriela, mas mesmo assim, atendeu com a suspeita que se mostrou esplendidamente correta:
- Laura? Sou eu, Gabriela. Consegui sair mais cedo.
Foi com inegável prazer que respondeu:
- Que ótimo! Estou saindo daqui agora, quer que eu te pegue?
A risada de Gabriela soou tão cristalina quanto o que ela disse:
- É o que eu mais quero.
Riu também, adorando...  Fascinada, encantada, magnetizada... Com o jogo de sedução, o clima, a expectativa e todo o resto. Fazia dias, semanas, meses, anos que não se sentia tão viva:
- Também estou ansiosa por isso...
Estava tão entretida que só percebeu que Michelle vinha subindo a escada ao passar por ela. 
Não diminuiu o passo, nem parou de falar. Sequer a cumprimentou, apenas seguiu seu caminho.


Se Michelle dissesse que aquilo não a incomodou profundamente, estaria mentindo. Fazia dias que não via Laura, e tinha resolvido passar por ali exatamente para tentar cruzar com ela, pois era o caminho que sempre fazia. Claro que sabia que Laura seguiria em frente, mas não esperava que fosse tão fácil e tão rápido. Encontrá-la rindo e flertando no celular, ser completamente ignorada fez Michelle mergulhar de volta no que tinha sido uma constante durante todos os anos de casamento: sentir-se em segundo plano, dar mais atenção do que recebia, se satisfazer com as sobras que lhe cabiam. 
“Nunca mais.”
Determinação que a fez dar o primeiro passo para longe do estado de abatimento que ameaçou a engolir. O segundo veio logo depois. De uma forma quase mística, seu celular tocou. Ao ver quem era, atendeu com uma felicidade que a fez reconhecer sua importância:
- Amanda... Que bom que você me ligou! Onde você está?
Na voz dela havia uma emoção semelhante, mas ainda maior:
- Cheguei em casa agora. Senti sua falta o dia inteiro, queria te ver...
Concordou de imediato:
- Passo aí daqui a pouco.
E saiu praticamente correndo.


Para surpresa de Amanda, Michelle chegou em tempo recorde, demorou pouquíssimos minutos apenas.
Esperou-a na porta. Pela rapidez com que galgou os degraus, percebeu que, realmente, ela estava com pressa. 
Abriu um sorriso intenso quando a viu, foi plenamente correspondida. Mais do que isso, Michelle a enlaçou e a beijou antes mesmo de entrarem no apartamento. Deixou-se levar, entregou-se por inteiro à urgência e à impetuosidade que Michelle imprimiu enquanto a empurrava, primeiro para dentro e depois contra a porta que se fechou atrás dela, ao despi-la e se desnudar das roupas e de toda e qualquer outra coisa que não fosse a ânsia de carícias e beijos. 
Fez Amanda gozar ali mesmo. De pé, em seus dedos. 
Teria caído se Michelle não a segurasse nos braços.  Conduziu Amanda até a cama, onde se deitou sobre ela e voltou a mostrar toda a sua necessidade com ardor e veemência. 
Entre gemidos, Amanda perguntou:
- Isso é saudade?
A resposta foi dada da mesma forma ofegante e descompassada:
- Também.
Michelle aproximou a boca do ouvido dela e soprou:
- Estou louca de vontade de você...
De um jeito que, para Amanda, foi tão indescritível quanto a forma como, ato contínuo, Michelle estremeceu em seus braços e gemeu alto, enquanto mergulhava em um espiral intenso e vertiginoso de êxtase e prazer. 

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MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:


postado originalmente em 07 de Junho de 2017 às 18:00.






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Um comentário:

  1. Esta travessia do deserto esta mais do que animada... Michelle e Laura levadas pelo frenesim da liberdade recém conquistada, estão numa onda de tesão desenfreado, será que é assim que se vão encontrar??? E com isso perceber onde deixaram de ser casal??? E nos deixar compreender que tipo de relacionamento elas tinham??? Porque até agora está tudo envolvido numa névoa de duvidas em que só sabemos o resultado e muito pouco do que levou a esta situação de traição dupla...Para já estão a exercitar o físico que faz bem à saúde ... kkkk
    Bjs

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