terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 32


Laura acordou adorando o fato de ser sábado e não ter que se preocupar com que horas eram. Virou-se para o lado, colou o corpo no de Gabriela e a abraçou por trás. Ela deixou escapar um som delicioso, misto de gemido e suspiro, e se encaixou ainda mais.
Beijou-a na curva do pescoço, enfiou o rosto nos cabelos cacheados e foi a sua vez de suspirar. Entregando-se completamente ao misto de preguiça e moleza que a tomou, Laura não se levantou. Ficou ali, agarrada nela. Aproveitando, se deleitando com a maravilha que era sentir o calor, o cheiro e a textura da pele de Gabriela. 
Acabou adormecendo de novo. Despertou sem saber quanto tempo havia se passado, com um toque suave em seu rosto, que deslizou até os lábios. Recebeu e correspondeu ao beijo ainda sem abrir os olhos, saboreando a boca carnuda que já a instigava de uma maneira exigente, voluptuosa e insaciável.
Primeiro, Laura deixou que Gabriela se esfregasse, abusasse, a usasse quase com passividade. Tentou acolher a vontade e o desejo da mulher montada nela, incentivando com palavras sussurradas, gemidos, beijos e carícias que a arrepiavam, mas não aguentou. Girou com ela e, com as posições invertidas, finalizou o ato com toda a intensidade e vigor que o próprio tesão exigia.
Depois, ficou largada em cima de Gabriela, o rosto apoiado em seu peito, as mãos dela em seus cabelos. Beijou um dos seios com carinho antes de se apoiar nos cotovelos para fitá-la:
- Bom dia! 
Gabriela sorriu e roçou os lábios nos dela:
- Ótimo dia! Já começou muito bem, aliás.
Passou a mão pelo ombro direito de Laura, escorregou numa carícia até o meio do braço, acompanhando o contorno negro dos galhos secos tão bem desenhados que pareciam ter relevo:
- Adoro essa sua tatuagem. É um tesão. 
Ato contínuo, subiu a boca percorrendo o caminho contrário que os dedos haviam acabado de traçar, em pequenas mordidas que deixaram a pele de Laura arrepiada.
Olhou para o próprio braço, analisando e ao mesmo tempo lembrando o que realmente estava ali gravado. Era recente, o suficiente para não estar registrada em sua mente. Muitas vezes se esquecia de que a tinha. Havia feito três dias depois que voltara de Gramado, desejando que a dor física aliviasse um pouco a dor espiritual. Mais do que isso, os galhos secos a representavam, eram um reflexo do seu estado emocional. Pretendia completá-la com folhas, talvez até flores. Um dia, quando se sentisse inteiramente recuperada, viva o suficiente para possuir de novo algo que brotasse. 
Sorriu para Gabriela:
- Ainda não está terminada.
A mão esquerda de Gabriela voltou a acariciar a tatuagem. Depois, subiu pelo pescoço, segurou Laura pela nuca e a puxou ao encontro de sua boca. 
Trocaram um beijo longo, repleto de sensualidade e também de ternura. Depois, Laura rolou para o lado e se deitou de costas no colchão. 
Com a cabeça apoiada em uma das mãos, Gabriela se virou para ela:
- No que você está pensando?
A pergunta fez Laura perceber que estava longe. Na mesma hora voltou e disfarçou:
- Que não tem nada na minha geladeira. E estou com fome. 
Virou o rosto, olhou para Gabriela:
- E você?
Ela não hesitou:
- Também estou.
Aproveitou a deixa para propor:
- Que acha de comer uma coisinha na padaria só pra enganar e ir almoçar na Lagoa?
Seria a melhor opção, se não fosse uma única coisa:
- A essa hora? Vamos pegar um puta trânsito.
Mas Laura já tinha calculado tudo:
- Se formos de moto não.
Andar de moto com Laura era algo que Gabriela adorava, a excitava, achava delicioso. Na mesma hora concordou.


Assim que chegaram na Lagoa, Gabriela pediu para Laura parar a moto, por isso ela encostou no meio fio:
- Que foi?
Gabriela soltou a cintura de Laura e, com as mãos apoiadas nos ombros dela, desceu antes de responder:
- Essa luz está tão linda, quero tirar umas fotos.
Laura também desmontou. Ao ver a dificuldade de Gabriela em soltar capacete, a ajudou primeiro. Só tirou o que estava usando depois. 
Enquanto prendia os capacetes na moto, Gabriela esperou atrás dela, com uma das mãos em seu ombro, de forma que, quando Laura se virou, já estava nos braços dela. Segurou Gabriela pela cintura e a beijou. 
Caminharam de mãos dadas até ficarem mais perto da água. Munida do celular, Gabriela começou a fotografar a paisagem. Depois girou a tela para si e puxou Laura:
- Vem cá. Vamos tirar uma selfie.
Ao invés de uma, foram várias. Algumas delas com direito a beijo. A única ressalva de Laura foi:
- Não posta as com a gente se beijando. Tenho alunos no meu face.
Para Gabriela não era um problema:
- Tudo bem.
Escolheu uma foto sem beijo, publicou no Instagram e compartilhou direto no Facebook, Twitter e no Tumblr. Só marcou Laura no Face, pois era a única rede social onde ela tinha conta. Quando terminou, virou para Laura e falou:
- Acabei de receber uma mensagem de um casal de amigos meus, os dois estão na Mole.
Não precisou completar para que ela entendesse:
- Quer ir pra lá?
Passou os braços ao redor do pescoço de Laura com a mesma suavidade com que disse:
- Só se você quiser.
Com as mãos na cintura de Gabriela, Laura concordou:
- Por mim tudo bem. Praia Mole então.
Trocaram um beijo antes de voltarem para a moto. Laura soltou os capacetes, entregou o de Gabriela, colocou o dela e montou. Gabriela demorou mais um pouco para conseguir ajeitar o capacete. Quando o fez, se apoiou em Laura para subir. Com os braços ao redor da cintura dela, se acomodou melhor, grudando a parte interna das coxas e todo o corpo atrás dela de uma forma tão deliciosa, que arrancou um gemido de Laura. Gabriela riu e a provocou ainda mais:
- Gostou?
A única coisa que Laura conseguiu fazer, enquanto tentava inutilmente fazer com que a própria pulsação voltasse ao normal, foi dizer:
- Um encaixe perfeito desses... Como não gostar?


Michelle só voltou a olhar para Amanda depois que Laura saiu com a moto e sumiu de vista. Por mais que Amanda quisesse se controlar, foi impossível:
- Acho que não faz mais sentido a gente ficar pra almoçar. Na verdade, acho que você nem quer estar aqui, pelo menos não comigo. Então vamos embora?
Afastou a cadeira, teria se levantado se Michelle não a segurasse pela mão:
- Amanda, por favor... Me escuta.
Era visível, na forma acelerada como o seu tórax subia e descia, o quanto a respiração de Amanda estava alterada. Michelle tentou acalmá-la, entrelaçando os dedos nos dela e usando um tom repleto de carinho, doçura e suavidade:
- Você não acha que está exagerando?
Ela ergueu o rosto, os olhos marejados procuraram e encontraram os de Michelle:
- Exagerando? Você ficou séculos olhando pra ela, como se eu não estivesse aqui ou nem existisse.
Antes mesmo de Amanda terminar de falar, as lágrimas escorreram. Michelle as enxugou com os dedos, depois acariciou o cabelo dela, prendeu uma mecha atrás da orelha, num gesto carregado de carinho. Estava mortificada e profundamente arrependida. Amanda estava certíssima. Não tinha sido capaz de desviar o olhar. Sem ter uma justificativa plausível, falou a única coisa que poderia ser dita:  
- Eu fiquei surpresa, só isso.
Para Amanda a tentativa de defesa foi muito pior. Uma explicação cujo objetivo era amenizar a situação. Praticamente uma mentira. Soltou a mão da dela sem nenhuma delicadeza, recuou o corpo, encostou na cadeira e permaneceu irredutível:
- Eu vi bem a sua surpresa.
Óbvio que Michelle não lhe tirava a razão. Parecia que estava fadada a cometer erros imperdoáveis em suas relações. Mesmo achando que não merecia, pediu:
- Me desculpa.
Foi a vez dos olhos de Michelle se encherem de água e transbordarem. Imediatamente, ela pegou um guardanapo na mesa e limpou o rosto. Vê-la chorando fez Amanda mudar completamente:
- Tudo bem. Não fica assim... Já passou.
Pousou a mão sobre a de Michelle e pediu:
- Olha pra mim.
Quando Michelle a atendeu, Amanda sorriu:
- Não vamos deixar que isso estrague o nosso almoço, nem o nosso dia. Está bem?
Michelle sorriu de volta e, sacudindo a cabeça, assentiu.
Naquele momento, as duas tiveram a percepção de que, pela primeira vez desde que estavam juntas, os papéis se invertiam. E a diferença de idade parecia não existir.


No entanto, a proposta de Amanda se mostrou inteiramente ineficaz. Por mais que tentassem, o dia já estava arruinado. Nenhuma das duas conseguiu retomar a normalidade. 
Estavam há algum tempo sentadas no sofá de Michelle, na frente da TV ligada, sem trocarem sequer uma palavra, quando Amanda desistiu de tentar. Levantou e falou:
- Acho melhor eu ir pra casa.
Michelle também se pôs de pé:
- Eu sei que não estou sendo boa companhia. Mas ninguém consegue estar bem o tempo inteiro.
Não houve hesitação alguma por parte de Amanda. Rapidamente, ela esclareceu:
- Não pense que só quero estar com você nos momentos bons. Quero estar com você em todos os momentos. Principalmente nos que você precisar. 
Acariciou o rosto de Michelle com a mesma delicadeza e suavidade com que afirmou:
- Sei que você acha que não, mas pode contar comigo sempre. 
Olhou nos olhos dela para completar:
- Mas não é disso que se trata.
Afastou-se, ficou de costas durante alguns minutos, pensando se deveria ou não falar. Acabou optando por ser sincera. Virou-se de novo para Michelle e disse:
- Você está assim por causa dela. Desde que você viu a Laura você mudou. E não tem nada que eu possa fazer com relação a isso.
O silêncio de Michelle disse mais do que mil palavras. Uma confirmação que Amanda não queria ter, mas era inegável:
- Já que a minha presença aqui não faz mais sentido, eu vou embora.
Foi só depois que Amanda juntou as coisas dela e as guardou dentro da mochila que Michelle conseguiu proferir alguma coisa:
- Eu posso te levar, mas...
Amanda não a deixou completar. Já estava na porta, pronta para sair:
- Não precisa, eu chamo um uber.
Subitamente decidida, Michelle avançou para Amanda. Enlaçou-a pela cintura, roçou os lábios nos dela:
- Eu quero que você fique.
Mas seria necessário muito mais do que proximidade física e algumas carícias para pôr fim à distância que havia se erguido entre elas:
- Pra quê? Por quê? 
A ausência de resposta fez Amanda repetir:
- Por que você quer que eu fique?
Michelle continuou muda. Amanda então concluiu:
- Quando você tiver essa resposta, me procure. Se quiser, claro.
Não esboçou qualquer tipo de despedida. Apenas abriu a porta e saiu.


Depois que Amanda se foi, Michelle ainda ficou algum tempo ali parada, olhando para porta. Não por achar que ela voltaria, mas numa tentativa de ordenar os próprios pensamentos e sentimentos. 
Estava se sentindo culpada. Naquele momento, achava que Elaine tinha razão. Talvez estivesse mesmo se aproveitando, usando a menina. 
Um olhar para Laura. Era o que bastara para ter consciência de que não havia muito que pudesse oferecer. Na verdade, quase nada, enquanto tivesse por dentro aquele imenso e absoluto vazio. 
Não estava em dúvida, nem perdida. Sabia exatamente, possuía cada resposta para os questionamentos de Amanda. No entanto, não podia falar, pois iria feri-la. Tampouco seria capaz de mentir. Gostava de Amanda, da companhia dela, se sentia profundamente atraída, o sexo era ótimo, mas não via futuro na relação que sequer havia sido definida. Pior do que isso, parecia não existir uma forma de arrancar o amor que sentia por Laura de si. Continuava vivo, apesar de faminto, alimentando-se de migalhas, sobrevivendo de maneira esquálida sempre que a via.
“Cada vez mais linda”.
Calculava que ela não ficaria sozinha. Tinha mudado o corte de cabelo, emagrecido, rejuvenescido. Andava pelos corredores sorrindo ou de conversinha no celular. Mas imaginar era uma coisa, ver era outra.
Nada prepararia Michelle para aquilo.
Deparar-se com ela de moto... Não uma moto baratinha e simples como a que Laura tinha quando haviam se conhecido, mas uma máquina que deveria ter custado uma pequena fortuna, que certamente impressionava e excitava as mulheres, pois a deixava ainda mais interessante. 
“Não que fosse preciso.”
Pensamento que fez Michelle deixar escapar um suspiro.
Inegável o quanto Laura tinha voltado a ser, ou ao menos parecer com como era quando tinham se conhecido. Idêntica, assim como o sentimento causado em Michelle ao olhar para ela. Quase havia esquecido - e agora estava ali, de volta, com uma intensidade talvez maior ainda - o impacto fulminante que sofrera ao vê-la pela primeira vez. Não conseguia parar de olhar para ela. Exatamente como tinha acabado de acontecer.
Na época, havia se virado para a pessoa mais próxima e perguntado quem era, sem se importar em ser discreta. A resposta tinha sido, ao mesmo tempo, pouco reveladora e ainda mais instigante:
- É a monitora dessa disciplina, aluna do doutorado. Não sei mais nada, ela é muito na dela. O nome é Laura, acho. É sapatão, mas isso tá meio na cara, né?
Durante três meses, havia investido, sem resultado. De forma polida, mas bastante direta, Laura sempre a cortava. A primeira aceitação se dera em retorno a um dos inúmeros convites para sair. Até aquele momento ainda desconhecia a razão da mudança e o momento preciso em que todos os “não” dela haviam se transformado em “sim”. 
Michelle voltou a suspirar e voltou de seus devaneios sobre um passado que não voltaria mais. A realidade agora era que a única parte da vida de Laura a qual tinha acesso era o facebook dela.
Só então teve coragem de entrar na pior parte. A outra mulher. Odiou-a. Pelo jeito que tinha se esfregado em Laura, por ser tão óbvia a química entre as duas, por Laura tê-la beijado em público, no meio da rua, de um jeito completamente assumido.
“Nunca foi assim comigo”.
Uma necessidade masoquista a fez querer saber mais. Pegou o note, se sentou no sofá com ele no colo e entrou no Facebook de Laura. A primeira coisa que olhou foi o status de relacionamento: solteira.
“Menos mal”.
Logo depois, avaliou a foto postada pela outra. “Gabriela Vilar.” Acessou o perfil dela em busca de mais informação e encontrou. “Health & Fitness Coach na empresa Academia Top Fit Power”. Não tinha status de relacionamento, mas tinha mais de uma foto de Laura na academia, várias das duas juntas em bares, a selfie que tinham tirado na Lagoa e a última minutos atrás, de um bar na Praia Mole, segundo constava no check in
Voltou para o perfil de Laura e não aguentou. Fez download da foto onde ela aparecia correndo na esteira, de camisetinha. Ampliou a imagem e foi só então que constatou, completamente estarrecida, que Laura havia feito uma tatuagem.
Algo que pareceu marcar, em definitivo, a distância e a perda da mulher que conhecia e que tinha sido sua. Se alguma parte da antiga Laura ainda existia, agora era inatingível. 
Naquele ponto, chegou ao auge do ciúme. E também do desespero, do sofrimento e da depressão, uma dor fininha atravessando-a ao constatar o que era inequívoco:
“Ela está muito melhor sem mim”.

CONTINUA AMANHÃ...

TODAS AS INFORMAÇÕES SOBRE A CAMPANHA DE COTAS ABAIXO:


A fórmula vocês já conhecem, mas só para lembrar:

- Qualquer leitor@ pode fazer a doação no valor de R$ 10,00 ou mais.


- A doação é voluntária, tod@s podem ler, participando ou não. Ou seja: não precisa doar para ler, pode ler sem doar.

- Assim que 
atingirmos 300 cotas de R$ 10,00, ou total de R$ 3.000,00 = a história será postada na íntegra.


As doações serão revertidas para os próximos projetos da autora (que são muitos!)

Para colaborar basta clicar no botão abaixo: 












Clique no botão acima para fazer a sua contribuição.



A AUTORA AGRADECE IMENSAMENTE 
A SUA COLABORAÇÃO!



.
OBS IMPORTANTE:   Se preferir fazer a sua contribuição por transferência bancária ou depósito na conta da autora, enviar email para: diedraroiz@gmail.com




RECAPITULANDO:
Postagem 5x por semana, toda 2a, 3a, 4a, 6a e Sábado às 18h

Se atingirmos:
300 cotas = história postada na íntegra


MÚSICAS QUE INSPIRARAM O CAPÍTULO:


postado originalmente em 12 de Junho de 2017 às 18:00.






.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
    2. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
  2. Aimm amei o capítulo, gosto tanto da Laura essa nova fase dela é fantástica ainda torço por ela e a Michelle e que brotem flores nesses ganhos secos.

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário, sua opinião é muito importante!