terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 33


Amanda entrou naquela festa com o objetivo de beber, dançar, se divertir e esquecer. Fingir que tinha uma vida normal, com uma namorada que a assumia.
Só tinha contado o que havia acontecido entre ela e Michelle para Marina, mas como se intuísse seu estado de espírito, Bruno ofereceu:
- Quer ficar muito louca?
Recusou, pois pretendia manter a cabeça no lugar. No fundo, tinha a esperança - ínfima, mas tinha – de que Michelle ligasse. 
Quando terminou de beber a segunda caipirinha, Débora e Marina chegaram. Na mesma hora perceberam:
- Já está altinha, né?
A risada que Amanda deixou escapar confirmou, mais até do que suas palavras:
- Vamos dançar!
Puxou as duas apenas para não ir sozinha. Assim que começou a dançar fechou os olhos e se desligou de tudo, inclusive das amigas. Mas as duas estavam lá, ao lado dela, prontas para acudi-la se fosse preciso. 
A tontura provocada pelo álcool, pela música e pelo movimento do próprio corpo fez Amanda perder a noção de qualquer outra coisa além do que realmente desejava: falar com Michelle. Pegou o celular para ligar, mas Marina não permitiu. Arrancou o aparelho da mão dela e perguntou:
- O que você vai fazer?
Na tentativa de tentar recuperar o telefone móvel, Amanda disse:
- Vou ligar pra minha namorada. Me devolve!
A primeira reação de Débora foi tentar compreender:
- O que está acontecendo?
Marina se virou para ela e falou baixo, para que apenas Débora a ouvisse:
- Eu sei o que estou fazendo. Confia em mim, depois te explico.
Débora assentiu com um gesto de cabeça. Amanda insistiu:
- Me dá meu celular, Marina!
Após sussurrar algo para Débora, Marina puxou Amanda para um canto e falou sério com ela:
- Ligar bêbada pra Michelle só vai piorar a situação. Eu não vou deixar você fazer mais uma merda na sua vida. Seu celular fica comigo. Estamos entendidas?
Houve um instante de silêncio antes de Amanda indagar:
- E se ela ligar?
Não fez Marina mudar de ideia:
- Eu te aviso.
Virou e saiu na direção de Débora, que a esperava a alguns metros de distância. Mas Amanda nem teve tempo de ficar sozinha. Bruno parou na frente dela e falou:
- Tem uma caloura muito lindinha afim de você.
Amanda conhecia Bruno o suficiente para desconfiar:
 - Como é que você sabe, bicha?
Ele riu:
- Por que ela veio me perguntar se você fica com mulher. Se você olhasse em volta já saberia, ela está te secando faz tempo. Olha disfarçadamente à minha esquerda.
Mesmo se estivesse sóbria, Amanda não teria como disfarçar. Era impossível, pois assim que voltou o olhar para a direção indicada, encontrou a garota de quem ele estava falando, com a atenção fixa nela.
A outra sorriu e Amanda sorriu de volta, por puro reflexo. Sua intenção não era dar a deixa para o próximo passo, como acabou acontecendo. A abordagem iminente fez com que Amanda olhasse de novo para Bruno e pedisse:
- Ela está vindo pra cá. Me ajuda.
A resposta dele foi:
- Deixa comigo. 
Mas não significava o que Amanda entendeu. Pelo contrário, para ele naquele caso ajudar consistia em dar um empurrãozinho:
- Amanda, essa é a Ana Luiza.
Apresentou e se afastou, deixando as duas sozinhas. Antes que Amanda pudesse falar qualquer coisa, um “oi” pelo menos, a boca da outra já estava na dela. Agindo somente por impulso, sem pensar, deixou que Ana Luiza passasse os braços ao redor de seu pescoço, puxou-a pela cintura e correspondeu.
Não soube dizer quanto tempo ficou ali, aos beijos com ela. Mas teve plena consciência de que não passaria daquilo, pois não sentiu a menor vontade de mais. 
Deu uma desculpa qualquer para desvencilhar-se, e saiu à procura de Marina. Não conseguiu achá-la, tampouco avistou Débora. Só localizou Bruno. Perguntou por elas e ele respondeu:
- As duas brigaram, como sempre. E sumiram. Pode ser que você ainda pegue elas lá fora se correr.
Amanda foi na direção indicada imediatamente. Quando chegou no estacionamento, não viu nenhuma das duas. Caminhou entre os carros enfileirados, olhando para o interior de todos os pretos. Não demorou muito e encontrou um onde tinha movimento, mas não eram elas. Encontrou-as no segundo veículo com atividade sexual visível dentro. Parou há alguns metros de distância, pois não queria constrangê-las nem atrapalhar. Por outro lado, precisava recuperar o próprio celular. Enquanto esperava, aproveitou para olhar. De onde estava não podia ver muita coisa, mas pela posição em que estavam - com Débora sentada no banco ao lado do motorista e Marina por cima, de frente para ela, com os braços ao redor do pescoço de Débora, movendo-se de uma forma bastante óbvia - não era necessário esforço algum para imaginar. Ficou bastante surpresa, pois esperava exatamente o contrário. Da mesma maneira que não conseguia imaginar Michelle conduzindo Laura como fazia com ela. E poderia estar igualmente enganada. Afastou o pensamento rapidamente, pois a última coisa que precisava naquele momento era imaginar Michelle na cama com Laura ou com quer que fosse. Foi quase um alívio perceber que Débora e Marina haviam terminado. Depois que trocaram um último beijo e Marina se sentou no banco do motorista, foi até lá. Fingiu não ter visto nada, falou com a maior normalidade possível:
- Meninas, estou indo e preciso do meu celular.
Ao invés de devolver o aparelho, Marina falou:
- Entra aí, a gente te leva em casa.
Tentou recusar:
- Não precisa, eu chamo um ub...
Antes que pudesse completar, Débora a cortou:
- Amanda, deixa de palhaçada e entra logo aí atrás!
Só restou a Amanda obedecê-la.


No dia seguinte, assim que Amanda acordou, ligou para Michelle. Só não o fizera na véspera porque tinha preferido seguir o conselho de Marina, de não ligar embriagada.
Michelle tinha passado boa parte da noite em claro, tentando inutilmente expurgar o próprio sofrimento e os sentimentos que ainda tinha por Laura. Foi completamente pega de surpresa, pois achava que Amanda não voltaria a procurá-la. Ao menos não tão cedo. 
- Queria conversar com você, mas tem que ser pessoalmente.
Impossível para Michelle recusar. Propôs ir até o apartamento de Amanda, que concordou de imediato.
Em um par de horas, Michelle estava lá. Amanda a esperou na porta, como sempre fazia. Apesar da vontade que sentiu, não a beijou na boca, apenas abraçou Michelle, que correspondeu enlaçando-a pela cintura com o mesmo carinho. 
Depois, Amanda a pegou pela mão e a fez entrar. Trancou a porta, virou-se para ela e foi direto ao assunto:
- Em primeiro lugar, eu queria te pedir desculpas por ontem. Não tenho o direito de fazer cobrança alguma, você nunca me prometeu nada.
O sorriso que surgiu nos lábios de Michelle foi profundamente triste:
- Se alguém tem que pedir desculpas, sou eu. E a maior prova é isso que você acabou de dizer. 
Não permitiu que Amanda a contestasse, segurou a mão dela e a olhou de um jeito cujo significado era claro. Desnecessário o uso de palavras. Amanda compreendeu perfeitamente e a deixou continuar:
- Estou sendo injusta com você, porque você merece mais, muito mais do que eu tenho pra te oferecer. Alguém que esteja com você realmente. Eu não estou inteira nessa relação. 
Aproveitando que a mão de Michelle continuava unida à sua, Amanda a puxou gentilmente para si. Passou o outro braço ao redor da cintura dela e ficou a centímetros de sua boca ao falar:
- Não é verdade. 
Roçou os lábios nos dela, Michelle fechou os olhos e a beijou de volta com a mesma suavidade. Quando as bocas se separaram, os olhos de Amanda brilharam ao constatar:
- Quando estamos juntas sempre sinto que você está inteira. 
Lançou para Michelle um sorriso que a deixou ofuscada. Só depois fez uma pequena ressalva:
- Ontem foi a primeira vez que não.
A frase trouxe Michelle de volta à realidade que Amanda parecia tão decidida a não enxergar:
- Minha querida... Ontem foi a primeira vez em três semanas que fizemos algo juntas, sem ser sexo. Não acha que isso é inaceitável?
Não houve hesitação alguma por parte de Amanda:
- Acho isso um avanço. 
Ela voltou a sorrir, acariciou o rosto de Michelle da mesma maneira arrebatada com que declarou:
- Demorou menos até do que eu esperava. 
Por um lado, aquilo serviu para mergulhar Michelle de volta no redemoinho de fascinação, ternura e desejo que Amanda sempre lhe causava. Por outro, se sentiu ainda mais culpada por ver Amanda tão feliz com migalhas. Algo que ela mesma conhecia muito mais do que gostaria.
- Ah, Amanda...
Foi a única coisa que conseguiu dizer antes de voltar a beijá-la. Amanda retribuiu de um jeito inteiramente entregue, depois enxugou as lágrimas que escorreram pelo rosto de Michelle com os lábios. Com o rosto dela entre as mãos, tentou tranquilizá-la:
- Não quero que você se preocupe. Nem que se sinta culpada. Prometo que não vou mais te cobrar nada. Estou inteiramente satisfeita com o que você me dá.
Mas da mesma forma que Amanda conseguia ler nas entrelinhas de tudo que Michelle dizia e fazia, tal compreensão era recíproca e também funcionava ao contrário:
- Não está não. Só está tentando me confortar.
Suspirou profundamente. Por mais que fosse doloroso e difícil, não podia prosseguir com aquilo, precisava por um ponto final. Olhou para Amanda e foi exatamente no carinho imenso que sentia por ela que encontrou forças para afirmar:
- Sexo não é suficiente, Amanda. Uma relação é muito mais do que isso.
O tom de Amanda mudou, tornou-se tão desafiador quanto o seu olhar:
- Está me dizendo que sexo é a única coisa que existe entre nós?  Você não sente nada além de tesão por mim?
Michelle não precisou parar para pensar, sabia a resposta e não ia mentir:
- Você mais do que ninguém sabe que isso não é verdade. 
Sem esconder a empolgação e a felicidade, Amanda avançou, puxou-a pela cintura, pronta para beijá-la, mas Michelle colocou os dois braços entre as duas e, com as mãos espalmadas no peito de Amanda, a fez parar:
- Espera. Eu preciso ser sincera, quero te dizer a verdade. 
Esperou Amanda soltá-la. Recuou dois passos e só então falou: 
- Se fosse só sexo, não teria acontecido nada, eu nunca teria nem encostado em você. Se fosse só tesão, eu jamais colocaria o meu casamento em risco. 
Fez uma pausa, sem saber se deveria ou não, acabou optando por dizer:
- A Laura não me perdoou porque ela sabe disso.
Para Amanda, aquilo foi a declaração mais linda e intensa que alguém já havia lhe feito, ficou inteiramente emocionada ao ouvi-la:
- Michelle...
O fervor com que Amanda a olhou, a impetuosidade ardente e apaixonada com que proferiu seu nome, assustaram Michelle:
- Não é o que você está pensando. 
Tinha plena consciência de que deveria dizer que não a amava, que não estava apaixonada, mas foi impossível. Uma parte de Michelle que ela não controlava e lhe era completamente desconhecia a impediu.
Amanda continuava se sentindo realizada:
- Seja o que for, é um início.
Mas Michelle não podia permitir que ela se iludisse:
- Não, não é. Não existe futuro possível para o que quer que seja isso que existe entre nós. 
Era certo que Amanda não aceitaria tão fácil assim:
- Por que não? Me diz.
Michelle rebateu o questionamento com o motivo que lhe pareceu mais óbvio, algo indiscutível:
- Em dez anos, eu vou ter 56 anos e você apenas 28.
A risada que Amanda deixou escapar continha um prazer indescritível:
- Dez anos? 
Estava mais do que preparada para combater o argumento que considerava totalmente sem sentido:
- Você está falando sobre diferença de idade e tempo, mas a única coisa que existe é o presente. Só hoje é real, o futuro é imprevisível. Quem te garante que eu vou estar viva amanhã?
Foi a vez de Michelle rir:
- Pensamento imediatista típico de alguém da sua idade. 
Afirmação que não abalou Amanda, muito pelo contrário:
- Chame do que quiser. De qualquer forma, estou lisonjeada e muito feliz por você fazer planos dos quais eu faço parte. Você cogitar estar comigo daqui a dez anos era algo que eu sequer imaginava.
A serenidade quase condescendente e repleta de felicidade com que Amanda revidou era a última coisa que Michelle esperava. Voltou a contestá-la:
- Você está confundindo as coisas. Não foi isso que eu disse.
Na mesma hora, Amanda replicou:
- Foi sim. Não sou eu que estou confundindo, é você que está se enrolando toda. 
Riu, de uma forma absolutamente divertida e enlevada:
- Confesso que estou adorando. 
Sem ter como nem o que retrucar, Michelle permaneceu calada. 
O breve silêncio que se estabeleceu foi quebrado por Amanda:
- Também preciso ser sincera com você. 
Respirou fundo, buscando coragem para contar:
- Ontem eu fui na festa dos calouros e fiquei com uma menina. 
A reação de Michelle foi exatamente a que previa:
- Eu acho que é exatamente isso que você deve fazer, ficar com alguém da sua...
Por isso a cortou de imediato:
- Me escuta até o fim. 
A concordância de Michelle se deu de forma tácita. Amanda então prosseguiu:
- Foram só alguns beijos, sabe por quê? Eu não quis mais nada. Não senti vontade. 
Afirmou olhando nos olhos de Michelle:
- Foi impossível não comparar. 
 Algo que Michelle compreendia integralmente. Tinha passado por isso em Gramado. A identificação que viu olhar de Michelle incentivou Amanda a concluir:
- Não tenho como ficar com outra. A única mulher com quem eu quero estar é você.
Se Michelle dissesse que aquilo não a tocou profundamente, estaria mentindo. Mas ainda não era o suficiente, e as duas sabiam, tinham plena consciência disso.
Com uma ousadia que sequer sabia que possuía, Amanda deu sua última cartada:
- Se você me disser que não quer, que não me quer, eu não te procuro mais. Mas se você está tentando se afastar de mim por qualquer outra coisa, eu não posso nem vou aceitar.
O fato de Amanda dizer aquilo mantendo a distância entre elas mostrava uma inteligência emocional que Michelle achou admirável. Pois seria fácil seduzi-la, já estava mais do que claro que a atração física que Michelle sentia era um ponto forte, a favor de Amanda, algo praticamente irresistível. 
Pensou e pesou os motivos que tinha para rejeitá-la e todos pareceram movidos por fatores externos. Moral, culpa, o que os outros pensavam. Não era o que realmente queria. Por mais egoísta que pudesse parecer, a desejava, queria tê-la, precisava de Amanda. 
Durante um instante que para Amanda pareceu durar uma vida, Michelle ficou olhando para baixo, de uma maneira totalmente introspectiva. Quando ela voltou a erguer a cabeça, buscou seus olhos de novo e disse:
- Eu quero. Não posso nem vou negar isso.
Uma emoção inexprimível tomou conta de Amanda. Ainda assim, ela permaneceu imóvel, numa passividade que lhe era estranha, mas que naquele instante se fazia imperativa. Precisava que a próxima ação viesse de Michele e ela não a decepcionou. Avançou em direção a Amanda, segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou. Logo depois, sugeriu:
- Quer almoçar no shopping e depois ir ao cinema?
Para tamanha perfeição, só havia uma única resposta possível:
- Claro que sim!

CONTINUA AMANHÃ...

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postado originalmente em 13 de Junho de 2017 às 18:00.

Um comentário:

  1. Laura e Michelle enervam-me à vez... kkk Agora é a vez de Michelle, que com a certeza de amar Laura esta-se a embrulhar mais na relação com Amanda, o que foi isto hoje???Ė o faz de conta que estamos apaixonadas??? Michelle jå tem experiencia suficiente para não entrar nestas ilusões...Triste ver Michelle ser levada na onda de Amanda. Ai Michelle toma uma atitude Mulher...com ganas de entrar na cena e dar uns cascudos em Michelle para ver se se orienta...Sempre muito bom, uma contigo faz 360° às personagens e se estamos de acordo com alguns ângulos com outros rimos dos nervos...
    Bjs ;)

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