terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 36


A despeito do que Val sussurrou em seu ouvido quando se despediram no fim da festa:
- Me liga!
Michelle evitou atendê-la durante o final de semana inteiro. Somente na segunda-feira, sozinha em sua sala, pois Amanda estava na aula, ligou para a amiga. Ela não fez rodeios:
- Que merda foi aquela que eu vi, me explica?!
Um suspiro profundo antecedeu a resposta de Michelle:
- Exatamente o que você viu. Nada.
Val insistiu:
- Ah, Michelle, para! Vocês e a Laura estavam quase se beijando, e você tem coragem de me dizer que não foi nada?
Michelle não queria admitir nem para si mesma:
- Impressão sua. Ninguém ia beijar ninguém.
Se o fizesse, se veria mergulhada num mar de dúvidas e expectativas que preferia evitar. Só serviria para se decepcionar.
A amiga não foi nem um pouco compreensiva:
- Você pode negar, mas eu sei muito bem o que eu vi. 
Conversaram um pouco sobre a festa, Michelle preferiu não ouvir os comentários a respeito dela e Amanda, sobre Laura e Gabriela muito menos, então Val acabou se despedindo e desligando, pois ficou sem assunto rapidamente.


Na segunda-feira de manhã, Laura acordou sozinha no próprio apartamento. Tinha dado uma desculpa qualquer para Gabriela na véspera, precisava de um tempo para si. 
Permitiu que a preguiça a dominasse, como há muito não fazia. Permaneceu algum tempo deitada, sem a menor vontade de ir para a academia. 
Ver Michelle e Amanda juntas tinha causado um efeito muito mais profundo e devastador do que deveria. Ao contrário do que pensava, ouvir os comentários maldosos do tipo: “a Michelle enlouqueceu”, “está desmamando criança agora”, “você se deu muito melhor” e coisas do gênero, não a fez se sentir bem. Muito pelo contrário. Apenas servira para mostrar o quanto não se livrara de verdade, permanecia conectada a Michelle a ponto de ainda se incomodar com o que falavam sobre ela.
Como se lhe dissesse respeito.  
Como se ainda fizesse parte.
Repetiu para si mesma: não mais.
Não dizia nem fazia qualquer diferença, muito menos parte de sua vida real. Como um membro que ainda dói ou coça mesmo depois de ser amputado. 
Sobre o momento com ela na cozinha, preferiu não pensar. Só serviria para alimentar falsas ilusões, esperanças e expectativas irrealizáveis. 
Levantou, foi até a cozinha, fez e tomou café.
Continuou pensando em Michelle e não resistiu, ligou o note e deu uma espiada no facebook dela. Surpreendeu-se ao ver que continuava igual. A última postagem era uma foto da janela do chalé onde tinham se hospedado em Gramado. A única mudança era o fato de não haver mais status de relacionamento. O que não queria dizer nada, ou melhor, queria dizer tudo. Afinal, ela tinha como namorada uma "girina" ainda no armário. Pela reação de Elaine, Laura calculava que o pai de Amanda ainda não deveria ter sido comunicado, sequer deveria desconfiar que ela era lésbica, muito menos com quem estava namorando.
O próximo passo foi matar o resto da curiosidade mórbida, acessando o perfil de Amanda. Também não tinha status de relacionamento, nem fotos de ou com Michelle. No entanto, havia uma infinidade de fotos de Amanda, em lugares diferentes. Nenhuma selfie, todas haviam sido tiradas por alguém. Não era difícil saber quem, bastava olhar para o brilho de adoração nos olhos de Amanda e para o sorriso completamente deslumbrado que ela lançava para a pessoa atrás da lente. 
 “Se era isso que você queria, Michelle, então realmente eu não tinha como te dar”.
Foi o único pensamento amargurado que se permitiu ter antes de fechar o notebook com raiva.


- Amanda, eu não acredito!
Débora compartilhava a indignação de Marina:
- Não faz sentido nenhum você deixar de comemorar seu aniversário só porque a Michelle não quis comemorar o dela!
Bruno ainda mais franco:
- Aposto que quando fez 19 anos ela comemorou!
À Amanda restou fazer aquilo que já tinha se tornado um hábito com os amigos - justificar-se:
- Eu vou comemorar. Com a minha namorada. É isso que eu quero fazer no meu aniversário. De verdade.
Marina ainda tentou ponderar:
- O que a Michelle acha disso?
Amanda deixou escapar um suspiro antes de responder:
- Ela quer que eu saia, faça uma mega festa, chame todos os meus amigos. E até prometeu ir... 
A empolgação de Marina não a deixou ouvir até o fim:
- Que ótimo! Vamos fazer essa mega festa então?
Mas Amanda fez questão de concluir:
- Ir me buscar, no fim da festa. 
Pois mudava tudo. Marina deixou escapar um incrédulo:
- Ai, como assim?!
Débora também não tentou esconder nem a surpresa nem a indignação:
- A sua namorada não vai na sua festa de aniversário? Que absurdo!
Virou-se para Marina:
- Eu te matava!
Que na mesma hora replicou:
- Eu jamais faria isso, amor!
Começaram a se beijar, da forma ardente, apaixonada e nem um pouco comportada de sempre. 
Amanda suspirou de novo, desta vez com um pouquinho de inveja, antes de se virar para o único interessado em sua explicação:  
- A Michelle acha que a presença dela vai atrapalhar, que vai me deixar inibida.
Até então, Bruno tinha permanecido estranhamente quieto. Aproveitando que toda a atenção de Amanda estava direcionada para ele, deu sua opinião:
- Ué, ela tá certa. 
Impossível para Amanda objetar. Pois durante os quatro meses de namoro, das raríssimas vezes - apenas duas, na verdade - que Michelle se dispusera a se sentar com eles para tomar uma cerveja, ninguém tinha ficado à vontade, havia sido no mínimo constrangedor. 
Ao ver que não seria contestado, Bruno completou:
- Você fica completamente diferente na frente dela.
Mais uma verdade, que deixou Amanda sem palavras. Débora parou de beijar Marina somente para sugerir:
- Seu aniversário é no sábado, vamos fazer a festa na sexta. Daí você comemora a virada com a gente e depois com a Michelle o resto do dia, que tal?
De imediato, Amanda concordou:
- Perfeito!
E Marina babou:
- Perfeita é você, meu amor!
Antes de voltar a se agarrar com Débora ali mesmo, como se não houvesse ninguém mais na mesa.


Amanda almoçou com Michelle na sexta-feira, véspera de seu aniversário. Não se veriam mais naquele dia, por isso falou pela última vez:
- Se mudar de ideia, é só chegar. Sabe onde eu vou estar.
Michelle sorriu, assentiu com a cabeça e disse:
- Divirta-se!
Realmente desejava que Amanda aproveitasse a festa e os amigos. Despediram-se com um beijo rápido dentro do carro antes de se separarem, cada uma em direção ao próprio prédio dentro do campus. 
Enquanto caminhava, Michelle sorriu, feliz com o rumo que a relação havia tomado. Sem cobranças, ciúmes nem inseguranças, livre a ponto de Amanda dispensá-la tranquilamente da festa e até mesmo de ir buscá-la, coisa que Michelle preferia, não por considerar trabalho, mas porque desta forma, Amanda poderia ir embora quando desejasse, sem se preocupar com o horário. Tal desprendimento a agradava exatamente por ser contrário a relação quase simbiótica que tinha mantido durante tanto tempo com Laura.
Antes mesmo de entrar na sala do núcleo de pesquisa, ficou sabendo que o trabalho de uma das alunas, que tinha orientado junto com Laura, havia sido contemplado com o Prêmio Capes de Tese e a comemoração seria naquela noite, num bar perto da universidade. 
Mergulhou no trabalho e não viu o tempo passar, tinha perdido completamente a noção da hora quando ouviu o aviso de mensagem entrando em seu celular. Era uma foto enviada por Amanda no whatsapp. Sorriu ao ver a imagem dela toda arrumada e maquiada, escreveu exatamente o que pensou: “Linda demais!”
E realmente estava, ainda mais do que já era ao natural. A resposta de Amanda foi em áudio: 
- Se quiser é só vir pegar. 
Totalmente previsível, e nem por isso menos excitante. Óbvio que o tom de voz provocante ajudava. No entanto, Michelle se manteve firme, na decisão e na mensagem digitada: “Amanhã”.
Completou também por escrito, antes que Amanda pudesse replicar: “Hoje eu quero que vc aproveite a festa, se divirta com seus amigos.”
Concluiu em separado, para destacar bem a frase: “Larga um pouco esse celular”.
Recebeu mais um áudio:
- Vou tentar.
Só então Michelle lembrou: “Uma das minhas alunas ganhou um prêmio, vou sair com o pessoal do núcleo pra comemorar.”
O primeiro impulso de Amanda foi perguntar:
- A Laura também vai?
Mas o conteve. Preferindo acreditar que era besteira, não fazia diferença e que seria infantilidade questionar Michelle a esse respeito, guardou a dúvida para si mesma. Tentou disfarçar falando da forma mais animada que foi capaz:
- Que ótimo! Parabéns! Divirta-se então.
Fracassou completamente, pois mesmo se Michelle não tivesse percebido que a resposta de Amanda havia demorado mais do que o habitual, a conhecia o suficiente para detectar a mudança de tom.  Foi a insegurança na voz dela que fez Michelle finalmente usar o áudio:
- Você também, minha linda. Divirta-se muito e aproveite bastante. Nos vemos amanhã.
Exatamente como pretendia, teve o poder de tranquilizá-la. Mais do que isso, ouvi-la fez Amanda ter certeza de que não tinha o menor motivo para se preocupar.


Laura estava na academia quando recebeu a notícia do prêmio e a intimação para que fosse à comemoração. Não convidou Gabriela para ir junto, apenas avisou que não dormiria com ela naquela noite. Nenhum motivo especial para isso, apenas não costumava misturar suas relações pessoais com as de trabalho e vice-versa. A única exceção tinha sido Michelle e, certamente, o resultado final estava longe de ter sido feliz e de merecer reprise.
Quando chegou no bar, Michelle já estava lá, e o único lugar disponível na mesa imensa - em uma das cabeceiras - não era longe o suficiente, apenas uma pessoa entre as duas, o que a deixava inteiramente ao alcance do seu olhar, caso se virasse para a direita. 
Apesar de estar plenamente consciente de que a única forma de não olhar para ela seria se estivessem em bares diferentes, passou as duas primeiras long necks totalmente virada para as pessoas à sua esquerda. Pouco a pouco, a própria força de vontade foi se entorpecendo e se tornou impossível não ceder ao desejo de matar a saudade visual ao menos. Vê-la, admirá-la, de forma disfarçada, para que nem Michelle nem ninguém percebesse, obviamente. Surpreendeu-se ao encontrar o olhar de Michelle cada uma das vezes que o buscou.
A princípio, ter Laura sentada tão próxima fez Michelle sentir um incômodo indescritível. Lutou inutilmente contra a vontade de capturar com os olhos a maneira irresistível com que ela se movia. Cada gesto, passada de mão no cabelo ou sorriso, o jeito que pegava a garrafa e a levava aos lábios... O simples fato de enxergá-la trazia de volta a sensação tão sua conhecida. De desejá-la. E de querer despertar nela um interesse recíproco. Contou no relógio a agonia que a dilacerou, durante os vinte e sete minutos exatos em que foi ignorada, até que, como que por magia, Laura a olhou. De uma forma tão profunda que causou um arrepio. Depois disso, o contato visual se repetiu, vezes seguidas. 
Pouco a pouco, a mesa foi esvaziando, as pessoas foram indo embora, sem que nenhuma das duas as seguissem. Terminaram à sós, sem terem mais como nem por que desviarem os olhos. 
Foi Michelle quem pronunciou as primeiras palavras que foram ditas:
- Vamos fechar?
A resposta de Laura foi levantar o braço e atendê-la. Retornaram ao diálogo anterior, inteiramente desprovido de fala, até o garçom deixar a conta em cima da mesa.
Laura estendeu a mão para pegá-la, Michelle fez o mesmo. Ficaram segurando o pequeno pedaço de papel sem se encostarem, cada uma com as pontas dos dedos em uma extremidade. Mas a sensação de contato era quase palpável, como se fosse física. 
Sempre com os olhos nos de Laura, Michelle disse:
- Deixa comigo.
No mesmo tom íntimo, Laura discordou:
- Eu faço questão.
Impasse que foi facilmente resolvido por Michelle, bastou ela sorrir:
- Vamos dividir então?
Para Laura, se tornou inviável fazer algo além de aceitar.
Quando chegaram na calçada, Michelle informou:
- Meu carro está no estacionamento.
Fez uma pausa antes de indagar:
- E o seu?
Laura respondeu rapidamente:
- Vim a pé. Estou morando aqui perto.
Sabia perfeitamente que Michelle iria oferecer:
- Te deixo em casa.
E nem pensou em recusar.
Nenhuma das duas tentou preencher o silêncio, caminharam lado a lado sem dizer nada. Quando chegaram no carro, Michelle abriu a porta de forma manual. Ao ver que a parte elétrica da chave e o alarme continuavam sem funcionar, Laura parou atrás dela e pensou alto:
- Você ainda não arrumou isso?
Michelle se virou para ela rindo:
- Eu nunca me lembro dessas coisas, como você bem sabe.
Os olhos se encontraram, os de Laura se desviaram para a boca de Michelle. O bastante para que a respiração de Michelle se alterasse, fazendo com que entreabrisse os lábios, à procura de ar. Um convite inconsciente, para Laura irrecusável. Deu um passo em direção a ela, tomou-a nos braços devagar, enlaçando-a pela cintura com a mesma lentidão com que aproximou o rosto. O hálito de Michelle lhe lambeu a face segundos antes de Laura beijá-la. 
Toda a passividade de Michelle desapareceu assim que as bocas se encontraram. Com uma das mãos no rosto de Laura e a outra enfiada em sua nuca, puxou-a para si disposta a matar toda a saudade. Laura a encostou contra a porta do carro, fechando-a quando comprimiu o corpo de Michelle com o dela e correspondeu com a mesma voracidade. 
A intensidade e o ardor aumentaram num crescendo, a carícia se tornando cada vez mais ousada, levando Laura a se afastar um pouco, apenas o suficiente para propor:
- Vamos continuar essa conversa em outro lugar?
Michelle sustentou o olhar de Laura e, com a mesma franqueza, aceitou sem hesitar. 

CONTINUA 2a FEIRA...

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postado originalmente em 17 de Junho de 2017 às 18:00.






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4 comentários:

  1. Espero que essa conversa das duas seja beeeeem longa kkkkkk

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  2. Adoro estas conversas sem palavras descritas por ti, são ricas em detalhes, uma se delicia ao assistir e mata saudades do casal... Gostei de ver que a ligação, na essencia, entre elas mantem-se, agora vamos ver se é forte o suficiente para vingar outra vez, encarando e superando a realidade que lhes caiu em cima, e deixando de lado a névoa de ilusões...Logico que já estou-me roendo de ansiedade pela conversa de segunda, oh desassossego bom... kkkk Amanda, filha, acho que "já fostes"...kkkkk
    Bjs ;)

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  3. Ai que delícia, o embuste da Amanda vai provar do próprio veneno.

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  4. Aimmm me roendo aqui pra saber o que vai acontecer.Detesto a Amanda rss

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