terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 38


Mesmo depois, nos anos que se seguiriam, Michelle não saberia dizer, nunca se lembraria como saiu daquele motel, muito menos como conseguiu não bater o carro. 
As lágrimas brotaram e transbordaram, cada vez mais caudalosas, até que se viu obrigada a encostar, pois já não era capaz de enxergar.  Mais do que os olhos, também sentia a alma embaçada. 
Levou as duas mãos ao rosto, tapou o nariz e a boca e soltou o ar devagar, numa tentativa inútil de diminuir a falta de ar. O corpo inteiro foi sacudido pelo tremor convulsivo que a tomou. Sem ter mais como impedir, muito menos controlar, entregou-se inteiramente ao choro, com a testa encostada nas mãos que se agarraram com força ao volante. Deixou que os soluços a trespassassem, arranhou-se nos cacos de toda e qualquer esperança de felicidade destruída, perdida, aniquilada. Naquele instante, sua existência pareceu se resumir à dor que a rasgava, partindo-a ao meio e depois quebrando-a em pequenos pedaços.
O passado.
Era só o que lhe restava. 
Pois Laura não a perdoaria jamais.
Não soube dizer quanto tempo ficou ali, naquele estado. O fato é que as lágrimas não se extinguiram, apenas congelaram, permitindo que ligasse novamente o carro e o conduzisse de forma inteiramente automática até a própria casa.
Assim que entrou na sala, deparou-se com o presente que tinha comprado para Amanda em cima da mesa. Era aniversário dela, mas não podia nem queria, sequer cogitava a hipótese de não contar a verdade. Muito menos de prorrogar o fim inevitável.
Já não encontrava palavras que definissem com exatidão como se sentia e o que se considerava. Logo ela, que sempre tinha sido absolutamente rigorosa em seus pensamentos e convicções sobre lealdade dentro de uma relação. Tinha rompido o pacto de confiança, não uma, mas duas vezes. Isso se levasse em conta apenas o ato sexual em si. Afetiva e moralmente, tinha traído muito mais. Tanto Amanda quanto Laura. E a si mesma, vezes incontáveis.
Pegou o celular, respirou fundo e ligou para aquela que, em breve, já não seria mais a sua namorada.


Quando viu que era Michelle, Amanda não atendeu de imediato. Juliana chegou a perguntar:
- Quer que eu saia?
Mas a presença dela não atrapalhava. Muito pelo contrário. Não conseguia imaginar como teria sido passar aquela noite sem a irmã. Fez que não com a cabeça, tomou coragem e recebeu a ligação, decidida a ouvir o que Michelle tinha para falar. A primeira coisa, Amanda já esperava. Deu parabéns e desejou feliz aniversário. Amanda agradeceu como se nada tivesse acontecido e continuou fingindo que não sabia de nada:
- Que horas você vem?
Queria saber até onde Michelle iria. Mais do que isso, se contaria a verdade. Não seria por telefone, obviamente:
- Estou saindo daqui agora.
A concordância de Amanda foi imediata:
- Estou te esperando. 
Depois que Amanda desligou, Juliana perguntou novamente se queria que ela saísse. E Amanda voltou a recusar. Não queria que fosse fácil para Michelle. Pelo contrário. Estava disposta a fazer de tudo para dificultar.


Evidente que Michelle percebeu. Havia algo no tom e na forma que Amanda usou ao falar, para ela era claro. Podia sentir a diferença perfeitamente. No entanto, não conseguiu imaginar a razão. A própria culpa a fazia cogitar o impossível, pois ela não tinha como saber sobre Laura.
Percorreu todo o trajeto de carro até o apartamento de Amanda tentando encontrar a melhor maneira de contar. Inutilmente, pois não havia jeito de fazer aquilo ser menos doloroso para nenhuma das duas, especialmente por ser o dia do aniversário dela.
Teve certeza de que havia mesmo algo errado quando se deparou com a porta fechada. Amanda sempre a esperava no corredor, encostada no batente ou no último degrau da escada.
Tocou a campainha e, quando a porta se abriu, surpreendeu-se ainda mais. Durante um instante ínfimo, olhou para a jovem parada a sua frente e quase se equivocou. Percebeu a diferença logo em seguida, primeiro no olhar. Uma fração de segundo depois, já parecia inconfundível. Ainda assim, confirmou, sem esconder o estranhamento:
- Juliana?
A irmã gêmea de Amanda a cumprimentou quase com frieza:
- Olá, Michelle.
Estava desejando feliz aniversário quando ouviu:
- Eu estou aqui.
Caminhou rapidamente em direção a Amanda. Beijou-a rapidamente, um leve roçar de lábios. Depois a apertou com força nos braços:
- Te desejo toda a felicidade do mundo.
De um jeito que, se Amanda não soubesse de nada, a teria deixado desesperada ou no mínimo assustada. Como não era o caso, sua reação foi totalmente diferente. Soltou-se, olhou Michelle nos olhos e perguntou:
- Você tem alguma coisa pra me dizer?
A serenidade com que o questionamento foi feito fez com que a suspeita de Michelle se tornasse quase palpável. Mais ainda quando ela completou:
- Pode falar.
Juliana bateu a porta com tanta força que o barulho ecoou, cumprindo o objetivo de deixar claro que ela tinha saído, deixando-as à sós.
Michelle respirou fundo, buscando coragem. Não conseguiu ser direta:
- Preciso te contar uma coisa. 
Amanda esperou, em silêncio, a eternidade de tempo que Michelle levou para confessar, afinal:
- Eu passei a noite com a Laura.
O olhar de Amanda disse mais do que mil palavras. Michelle teve certeza:
- Você já sabia.
A única dúvida que tinha era:
- Como?
Ela esclareceu de imediato, mostrando o vídeo no whatsapp. Michelle levou uma das mãos à boca, absolutamente mortificada. Imaginou o que Amanda deveria ter sentido ao ver aquilo e como ainda deveria estar se sentindo. A única coisa que conseguiu dizer foi:
- Eu sinto muito.
A frase fez com que Amanda explodisse:
- Pelo quê? Por ter trepado com a Laura? Por ter me traído? Por ter me usado?
Por mais que Michelle quisesse amenizar o sofrimento dela, não podia nem iria mentir:
- Por você ficar sabendo desse jeito.
Não era, nem de longe, o arrependimento que Amanda desejava. Pois deixava evidente que Michelle não queria nem se propunha a uma segunda chance. Um término. Era disso que se tratava.
Havia uma ironia profundamente amarga na forma como Amanda concluiu:
- Espero que tenha valido a pena. 
Tentou se controlar, mas não suportou. Ao invés de combatê-lo, abraçou-se ao medo que mais a assombrava. Precisava saber:
- Vocês voltaram?
Não houve hesitação alguma por parte de Michelle:
- Não. 
Fez questão de esclarecer:
- Foi o ponto final. Não vai acontecer de novo. Mas isso não importa, não faz diferença. A verdade é que você merece alguém melhor do que eu. 
Amanda sacudiu a cabeça em negação antes de se afastar e ficar de costas para Michelle:
- No fundo eu sempre soube que um dia isso aconteceria. Afinal, você nunca escondeu, sempre deixou muito claro o seu amor pela Laura. Só ficou comigo porque eu insisti. 
Riu de si mesma, se achando a pessoa mais imbecil de todo o planeta:
- Bem feito. Eu fiz por merecer, não fiz? 
Ver o sofrimento dela desestruturou Michelle completamente. Venceu a distância entre as duas rapidamente e a chamou, do jeito carinhoso de sempre:
- Amanda...
Quando Amanda se virou, não tentou esconder os olhos marejados. Expôs a dor que estava sentindo com a mesma sinceridade com que afirmou:
 - Mesmo assim, eu te perdoaria.
Mas a declaração só pontuava o que ambas sabiam. O quanto aquela relação havia sido construída em cima da ausência da terceira pessoa envolvida. Laura estivera, estava e sempre estaria entre elas, do início ao fim. 
Por mais difícil que fosse, Amanda admitiu, muito mais para si mesma:
- Mas não é o meu perdão que você quer.
Percepção que tornou impossível continuar segurando as lágrimas. Assim que Amanda começou a chorar, Michelle a tomou nos braços: 
- Me desculpa.
Pedido que, somado ao calor do corpo dela e a ternura com que Michelle a embalou, fez com que o choro se intensificasse. Agarrada a Michelle, Amanda se permitiu soluçar, sem qualquer embaraço.
- Ah, minha querida...
Confundindo o tom meigo e desolado com algo mais, virou o rosto, buscando os lábios de Michelle, chegou a beijá-la. Parou quando percebeu que não havia nenhuma reciprocidade. A rejeição complacente e penalizada foi muito pior do que se Michelle a tivesse empurrado ou esbofeteado. 
Soltou-se dela e se afastou. Deixou-se cair sentada na cama, apoiou os cotovelos nas pernas e escondeu o rosto nas mãos.
Apesar de profundamente sensibilizada, Michelle não voltou a se aproximar. Falou uma vez mais:
- Eu sinto muito. 
No entanto, o tom e a motivação eram completamente diversos da primeira vez. Ou talvez, a diferença estivesse na maneira como Amanda recebeu as palavras. Antes não possuía a compreensão real do quanto aquele momento era derradeiro. 
Somente depois de um tempo, se acalmou o suficiente para enxugar o rosto na camiseta que estava vestindo e erguer a cabeça. 
- Como você está?
A despeito da suavidade e doçura que lhe eram peculiares, a voz de Michelle soou repleta de agonia. Fez Amanda recuperar a coragem para retomar o contato visual, pois não queria que ela sofresse, muito menos que se sentisse torturada, culpada ou se martirizasse por sua causa. Olhou-a nos olhos e a tranquilizou:
- Não precisa se preocupar comigo. Eu vou sobreviver.


Logo que Michelle saiu, Juliana voltou. Encontrou Amanda lavando o rosto na pia do banheiro. Quando viu a irmã, ela tentou esboçar um sorriso, mas só conseguiu um esgar.
Juliana perguntou cautelosamente, apenas para confirmar o que já tinha certeza:
- Você e a Michelle terminaram?
Havia uma amargura indescritível na voz dela ao afirmar:
- A Michelle terminou comigo.
Impossível para Juliana não se indignar:
- E você queria continuar? Era você que devia ter terminado. Amanda, ela te traiu!
 Com uma maturidade que lhe era absolutamente inédita, Amanda traduziu o próprio sentimento em palavras:
- Eu não consigo ver assim. Durante todos esses meses, era como se a Michelle estivesse traindo a Laura comigo. Eu sempre fui a outra. A Michelle nunca foi minha. Ela sempre deixou isso claro, nunca mentiu pra mim. Eu aceitei porque quis.
Por mais sensibilidade que Juliana tivesse, compreender o que a irmã havia dito estava muito além de sua capacidade:
- Não acredito que depois de tudo, você continua defendendo a Michelle!
A raiva que estava sentindo era muito mais forte:
- Ela foi muito escrota com você!
Após deixar escapar um longo suspiro, Amanda preferiu encerrar o assunto:
- Vamos falar sobre outra coisa?
Era tudo que Juliana queria:
- Por mim, morreu aqui!
Amanda então perguntou:
- Que horas você vai?
Na verdade, Juliana estava cogitando ficar, não queria nem podia deixar Amanda sozinha naquele estado:
- Não sei.
No entanto, Amanda a conhecia bem demais, sabia exatamente que Juliana estava pensando em não ir na própria festa de aniversário. Não podia permitir:
- Estou pensando em ir com você. O que você acha?
Não tinha mais porque ficar e ir para Rio do Sul matar a saudade da família, comemorar com os pais, tentar se distrair com os amigos e buscar consolo nos braços da mãe era tudo que precisava.
Para Juliana, não poderia ser melhor. Ficou animadíssima:
- Perfeito! 
Aproveitou para propor:
- Não vamos contar nada, vamos chegar de surpresa e fingir que já era o nosso plano desde o começo. Assim o pai não fica desconfiado.
Estava determinada a ajudar a irmã a esquecer e superar, queria vê-la feliz e não mediria esforços para isso:
- Vamos comemorar horrores o nosso aniversário, vai ser inesquecível!
Na mesma hora, Amanda concordou. Não pretendia ficar remoendo aquilo. Juliana apontou para o presente que Michelle tinha deixado em cima da mesa, ainda intocado:
- Não vai nem ver o que é?
Aceitando a sugestão da irmã, Amanda abriu e, ao ver o conteúdo - um vestido fashion, de uma grife conhecida, que deveria ter custado uma pequena fortuna e que ficaria lindo nela - sorriu:
- Já tenho o que vestir na festa!
Juliana foi obrigada a dizer:
- Ponto pra Michelle! Acho que agora estou odiando ela menos um pouquinho.
Riram juntas. Depois fizeram as malas o mais rápido possível. Assim que entraram no carro, Juliana disse: 
- Imagina a felicidade do pai e da mãe! Eles vão enlouquecer quando virem você!
Amanda não perdeu tempo. Assim que partiram, acessou o facebook, respondeu às mensagens de parabéns, depois atualizou o próprio status com a seguinte frase: “As comemorações apenas começaram”. Marcou a irmã e fez check in em Rio do Sul. Por fim, alterou seu status de relacionamento para “solteira”. Não levou um segundo para que várias pessoas curtissem. Entre elas, Marina, Débora e Bruno, que ainda completou com cinco emojis de palmas, um de carinha sorrindo e outro de carinha enviando um beijo de coração.
Não respondeu.
O objetivo de deixar seu término com Michelle público nas redes sociais era torná-lo real e oficial também para os outros, claro. Mas acima de tudo, para si mesma.

CONTINUA AMANHÃ...

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postado originalmente em 20 de Junho de 2017 às 18:00.






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