terça-feira, 21 de março de 2017

CAPÍTULO 40 - Penúltimo Capítulo


Laura precisou de menos de um minuto para se recuperar. De forma absolutamente impensada, invadiu a sala de Michelle, sem se importar se estava certa ou errada, ou se deveria fazê-lo ou não. Agiu única e exclusivamente movida pela própria necessidade, vontade e emoção.
Michelle não esperava, foi inteiramente pega de surpresa. Tinha acabado de colocar a bolsa e as pastas que estava carregando em cima da mesa quando ouviu a porta abrindo. O fato de ninguém haver batido deixou-a certa de que se tratava da colega com quem dividia a sala. Virou-se sorrindo e assustou-se com a expressão determinada de Laura, que avançou em sua direção com o mesmo ímpeto com que a alcançou.
De forma puramente irracional e instintiva, Laura tomou Michelle nos braços. Não a beijou, apenas a abraçou, apertou-a com força contra si, segurando-a com a mesma firmeza e passionalidade com que disse:
- Não foi só sexo e você sabe. Eu também te amo. Eu nunca deixei de te amar.
Se Michelle dissesse que aquilo não a abalou, estaria mentindo. No entanto, a despeito do quanto a declaração a tinha tocado, uma única frase não seria capaz de apagar, eximir ou extinguir tudo que as separava, a começar pelos dias decorridos após a conversa que Laura agora tentava retomar. Inutilmente, pois era tarde demais, não passava de um instante perdido no tempo e na escolha - feita por Laura naquela manhã no motel - de afastá-la, nas palavras proferidas e na rejeição, igualmente amargas. Coisas que não poderiam ser desfeitas nem ignoradas.
Poderia ter dito muitas coisas, as possibilidades eram infinitas. Preferiu ser prática e objetiva:
- Laura, por favor. Não é a hora nem o lugar.
Fez um esforço gigantesco para se soltar. Assim que conseguiu desejou voltar, poder estar de novo nos braços de Laura, não naquele instante, mas em qualquer outro antes da ilusão de amor, relação e casamento perfeitos ter desaparecido.
- Quando então? 
A exasperação de Michelle era tão evidente que chegava a parecer palpável:
- Você disse que jamais me perdoaria e tem mantido isso com uma persistência invejável. O que foi que mudou agora?
Laura tentou explicar:
- A noite que passamos juntas foi...
Mas Michelle não permitiu. Antes que ela pudesse terminar, cortou-a:
- Não me fale daquela noite! 
Depois da frase quase gritada, controlou-se. Num tom completamente diferente, misto de decepção, dor e mágoa, lançou:
- Eu me entreguei, eu me expus, eu estava inteira pra você, Laura. E você...
 Foi a vez de Laura interrompê-la:
- Eu também estava.
Ignorando por completo a emoção e a verdade com que Laura falou, Michelle riu, com ironia: 
- Como foi que você disse mesmo? “É o meu presente de aniversário”, não foi isso? Aquela noite não passou de uma vingancinha torpe que você planejou.
Imediatamente, Laura a contestou:
- Não, não foi. Você estava lá, você me conhece, você me sentiu, você sabe que não foi. 
Respirou fundo antes de prosseguir. Precisava fazê-la compreender. Mais do que isso, fazê-la acreditar:
- Nada do que eu te falei naquela manhã é verdade. Eu estava muito magoada, morrendo de ciúme, louca de raiva.
Entretanto, para Michelle, tal justificativa era completamente falha:
- Saber que a sua mágoa, o seu ciúme e a sua raiva foram bem maiores e muito mais fortes do que o amor que você diz sentir por mim só torna tudo pior ainda. 
Impossível para Laura discordar. Tinha plena consciência do quanto sua atitude era imperdoável. Mesmo assim, pediu:
- Me desculpa. 
Esperava por tudo, menos pelo que Michelle disse:
- Eu não posso, sabe por quê? Porque a culpa não é sua, a culpa é toda minha. 
Olhou profundamente para Laura antes de prosseguir:
- Eu não podia ter feito o que fiz. Eu jamais deveria, em hipótese alguma. Minha traição é imperdoável, sei muito bem disso. Mas existia uma diferença imensa, uma distância intransponível entre o correto, como eu deveria ter agido e o meu desejo e a minha necessidade de...
Laura não foi capaz de controlar o próprio medo. Não queria, não podia deixá-la terminar aquela frase. Optou por falar ao invés de ouvir:
- Sexo? Juventude? Idolatria?
A resposta foi imediata:
- Não posso negar que isso me atraía nela, sim. Mas não mais do que o fato de ter alguém tão inteiramente satisfeita e realizada por estar comigo.
Pela primeira vez desde que a conhecia, Laura detestou a sinceridade de Michelle. Naquele instante, teria preferido que ela mentisse. Havia uma melancolia e uma fragilidade inegáveis em sua voz quando protestou:    
- Eu estava satisfeita e realizada. Quem não estava era você. 
A risada de Michelle soou quase tão caústica e corrosiva quanto as palavras que a seguiram:
- E como eu poderia estar? Eu sempre tive que correr atrás de você. Do início ao fim. Passei todos esses anos tentando equilibrar a minha insegurança, a sua obsessão eterna pela Elaine. 
Deixou as lágrimas escorrerem livremente rosto abaixo enquanto completava:
- Eu realmente achei que me contentaria, que conseguiria continuar me enganando, fingindo que não enxergava, que não sabia... 
Respirou fundo para ser capaz de vomitar o que, durante tantos anos, havia sufocado dentro de si:
- Era ela que você desejava, era ela que você queria, foi a Elaine que você sempre quis. 
Aquilo foi demais para Laura, não podia nem iria permitir que Michelle continuasse pensando daquele jeito: 
- A Elaine sempre foi um fantasma do meu passado, nada mais do que isso. Admito que carreguei essa frustração do primeiro amor não realizado durante anos dentro de mim. Houve sim, um tempo em que a Elaine era quem eu desejava e queria. Mas isso foi antes de conhecer você. 
Não foi suficiente para que Michelle ficasse convencida:
- Se eu não tivesse ficado com a Amanda, você teria. Ela se parece demais com a mãe pra você resistir.
Pela primeira vez, Michelle desabafava, trazia para o consciente e verbalizava todos os seus medos, preocupações, incertezas e dúvidas. Mais do que isso, as raízes mais profundas de sua motivação. A verdade, enfim. 
Laura não só ouviu, compreendeu e acolheu o que ela estava falando. Aproximou-se, segurou as mãos de Michelle nas dela com a mesma solidez com que assegurou:
- Não posso nem vou negar que teve um momento em que me senti atraída. Mas eu não queria, não valia a pena, eu jamais correria o risco de te perder. Só que de uma forma irônica e dolosamente cruel, do mesmo jeito ela te tirou de mim. 
Segurou o rosto dela entre as mãos, olhou-a nos olhos com a mesma intensidade apaixonada com que declarou:
- É você que eu amo. Nesses vinte anos, foi você que eu sempre amei. Michelle, você é a mulher da minha vida. 
Respirou fundo e, sem se afastar nem desviar o olhar, concluiu:
- Me perdoa por não ter te dado certeza disso.
Neste exato momento, batidas na porta as interromperam. Michelle se afastou, se recompôs e só então respondeu:
- Pode entrar.
A pessoa do outro lado da porta imediatamente obedeceu.
Jamais saberiam dizer quem ficou mais perplexa, elas ou Amanda. Durante um instante derradeiro, ficaram paralisadas, todas as três. 
Amanda não esperava, não estava absolutamente preparada para vê-las juntas. Não obstante, foi a primeira a se recuperar, ao menos o suficiente para conseguir falar:
- Agora eu entendi.
Um riso amargo escapou involuntariamente de sua garganta. Michelle respirou fundo, buscando uma resposta possível. Não foi preciso, Laura apressou-se em replicar:
- Que bom que você entendeu.
Enfatizou de forma propositalmente irônica, debochada e agressiva:
- Finalmente!
Sem tentar disfarçar o prazer que sentiu ao proferir aquilo. No entanto, Amanda a ignorou por completo, todo o seu foco permaneceu em Michelle, foi dela que cobrou:
- Você poderia ter sido sincera e me contado que vocês voltaram.
Michelle não hesitou:
- Nós não voltamos.
Nem Laura:
- Ainda!
Afirmou com toda a sua atenção fixa em Michelle, que se virou indignada para ela. O olhar ardente, apaixonado e intenso com que Laura a recebeu desarmou Michelle inteiramente. 
O que Amanda sentiu ao presenciar aquilo foi indescritível. As duas se olhando, como se estivessem sozinhas, como se Amanda sequer existisse. Provavelmente continuariam assim, se não as tivesse interrompido:
- Depois do showzinho que vocês deram naquele estacionamento eu já deveria ter percebido.
“Elas se amam. E eu sempre soube disso”.
Pensamento que, naquele momento, jamais verbalizaria. E que não tornava mais fácil confrontar nem a verdade, nem a hostilidade e a raiva de Laura, muito menos a atitude neutra e distanciada de Michelle com ela.
Ao ouvir o que Amanda havia dito, Laura riu. Mas foi para Michelle que, uma vez mais, se dirigiu:
- Pelo visto, nosso vídeo é um sucesso!
E riu de novo, com um escárnio que Michelle considerou no mínimo ofensivo. Serviu para que decidisse colocar um ponto final naquilo:
- Por favor, parem com isso. Saiam as duas da minha sala.
Laura não protestou, nem contestou. Aceitou de imediato, apenas disse antes de sair:
- Eu vou, mas depois conversamos.
Sozinha com Amanda, Michelle finalmente se virou para ela. Estava ali, em seu olhar, a preocupação e o carinho com que sempre a tratara. Migalhas que Amanda tinha aceitado de bom grado, mas que já não serviam:
- Não se preocupe, agora eu tenho a certeza que precisava. Não vou mais te incomodar. 
Saiu, fechando a porta atrás dela. Mesmo depois de se ver sozinha, Michelle permaneceu ali parada, completamente imóvel, tentando colocar em ordem o turbilhão que tinha dentro de si.
Não saberia dizer quando tempo ficou ou quanto teria continuado assim se o celular não acusasse a entrada de mensagem no whatsapp. Pegou o aparelho na bolsa e, com total perplexidade, deparou-se com a seguinte frase: “quero te encontrar ainda hj”


Laura saiu da sala de Michelle direto para a dela. Parou na porta e, antes de entrar, resolveu enviar uma mensagem. Não podia nem queria mais esperar.
Poderia ter buscado palavras bonitas, a frase perfeita para causar impacto, mas optou por não recorrer a qualquer tipo de subterfúgio. Apostou em palavras francas e diretas, o que não deixava de ser ousado. 
Enviou sem saber sequer se ela visualizaria, muito menos se responderia. Esperou pelo pior, tinha quase certeza de que o mais provável era que Michelle a ignorasse ou a xingasse, nunca o que se seguiu.
Indescritível a felicidade que sentiu ao ler: “espero vc às 18h, meu endereço é esse:”
Riu sozinha ao descobrir o bairro que ela havia escolhido. Pensou alto:
- Só podia!


Chegou dez minutos antes do combinado. Estacionou o carro em frente ao muro laranja, baixo o bastante para que pudesse ter uma boa visão do jardim e da casa. Antes que pudesse sair para tocar a campainha ou buzinar, a porta se abriu e Michelle surgiu, segurando uma sacola e duas cadeiras de praia. Foi seguida por uma vira-lata cor de mel, que deixou do outro lado do portão, com a seguinte recomendação:
- Afrodite, você fica!
Quando se virou, Laura já estava esperando-a fora do carro. Sorriu de um jeito que fez o coração de Michelle disparar:
- Está gostando de morar no Campeche? 
Sorriu de volta ao caminhar na direção dela:
- Você sabe que eu sempre quis.
Laura tirou as cadeiras da mão de Michelle e as guardou no porta malas antes de indagar:
- Vamos ver o sol se pôr na praia?
Não se tratava de adivinhar ou ler pensamentos. A suposição era baseada em recordações. Um passado que nenhuma das duas conseguia ou desejava esquecer. 
A voz de Michelle soou deliciosamente suave e doce:  
- E a lua nascer.
Abriram juntas, cada uma de um lado, as portas da frente. Laura perguntou por cima do teto do veículo: 
- Há quantos anos não fazemos isso? Uns dez?
A resposta foi dada enquanto entravam e se sentavam:
- Por aí. Mais ou menos isso. 
Trocaram um sorriso cúmplice antes de colocarem os cintos de segurança. Laura girou a chave na ignição e guiou, perfeitamente ciente de que não era apenas o volante que tinha nas mãos, mas uma nova chance da qual cuidaria com o mais absoluto zelo. 


Instalaram-se a uma distância confortável das outras pessoas sentadas em cadeiras, cangas ou toalhas, todas com o mesmo objetivo que elas. 
Da maneira tácita e complementar de sempre, sem que precisassem falar ou combinar, Michelle abriu a garrafa e serviu o vinho enquanto Laura segurava as duas taças. 
Brindaram sorrindo e se olhando nos olhos, sem que nenhuma das duas quebrasse o silêncio instaurado. Não havia nada de incômodo nele, muito pelo contrário. Desfrutaram o espetáculo belíssimo proporcionado pela natureza sentadas lado a lado. Palavras eram totalmente dispensáveis para aproveitarem o que realmente importava para cada uma delas: a presença da outra.
Foi Laura quem buscou o primeiro contato físico. Algo pueril, quase ingênuo. Encostou o braço no de Michelle, apenas para sentir o calor da sua pele. O próximo passo veio de Michelle, que segurou a mão de Laura e entrelaçou os dedos nos dela. O suspiro que Laura deixou escapar marcou e iniciou o terceiro movimento. Viraram-se juntas, na mesma respiração e andamento. A sintonia que lhes era habitual guiando a aproximação, que começou com um leve roçar de lábios e culminou no primeiro de muitos beijos ardentes e intensos.


 Retornaram ao carro um par de horas depois. Quando Laura parou na frente da casa de Michelle, voltaram a se beijar. As carícias foram se intensificando aos poucos, sem pressa alguma nem maiores arroubos. Ainda assim, Michelle pousou as mãos sobre os ombros de Laura e a pressionou para trás. Por mais leve que fosse, uma resistência inegável, que a fez recuar. Afastou-se e a olhou. Obteve a resposta sem precisar formular a pergunta:
- Vamos devagar.
Longe de Laura discordar:
- As you wish.
O sorriso que Michelle lhe lançou a recompensou integralmente:
-Nos vemos amanhã.
Antes de sair do carro, beijou-a com todo o seu carinho, afeto e amor. Laura a seguiu, para pegar as cadeiras e segurá-las enquanto Michelle abria o portão. Trocaram um último beijo:
- Durma bem.
- Você também.
Michelle esperou Laura sair com o carro. Acenou até perdê-la de vista. Depois se virou e atravessou o jardim em direção à casa, com Afrodite saltando e correndo ao redor dela, com uma euforia idêntica a que trazia por dentro.

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postado originalmente em 23 de Junho de 2017 às 18:00.



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6 comentários:

  1. To chocada
    Eu não shipava essas duas ai mds
    Quero amanda e Laura

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  2. Como sempre fantástica. A delicadeza em cada movimento, detalhe ....Parabéns!!!

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  3. Uma delicadeza sem tamanho.Fantastico este reencontro.




















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  4. Eu achava que tudo ia terminar com a Laura e a Amanda juntas.

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  5. Mano, sério n pode acabar assim... M&A

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  6. Adorei ver as verdades virem ao de cima, é que o ser humano tem razões que a própria razão desconhece...Adorei ver que Laura e Michelle deixaram de vez que a vida as levasse e são elas agora que levam a vida assumindo e aceitando o que querem...Adorei este recomeço ao pôr do sol , vivendo e apreciando cada minuto do presente,sem mais nada a esconder e sem ter medo nem do passado nem do futuro...Adorei o encontro das três onde as evidencias ficaram evidentes e escancaradas...Só não adorei ser o penúltimo capítulo :( kkkk Já começou a bater a saudade ...
    Bjs

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